Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável

Uma plataforma internacional de investigação, formação e cooperação para a biodiversidade, a sustentabilidade e o diálogo entre ciência e sociedade.

Detida pela Universidade de Coimbra, no âmbito do Centro de Ecologia Funcional — Ciência para as Pessoas e o Planeta.

Porquê esta Cátedra

Vivemos uma crise sem precedentes. As avaliações mais recentes da biodiversidade global são inequívocas: alterámos de forma significativa a maior parte da superfície terrestre, destruímos 85% das zonas húmidas do planeta, metade dos recifes de coral desapareceu, e uma em cada quatro espécies conhecidas de animais e plantas está ameaçada de extinção. Os compromissos globais — dos Objetivos de Aichi (conjunto de 20 objetivos globais para a biodiversidade estabelecidos em 2010 durante a COP-10 – Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) realizada em Nagoya estabelecendo metas a cumprir até 2020 para travar a perda da biodiversidade mundial) ao Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (acordo internacional histórico adotado em dezembro de 2022 durante a COP15 visando travar e reverter a perda de biodiversidade global) — não estão a ser cumpridos. O tempo que resta para agir é curto.

É neste contexto que a missão desta Cátedra adquire o seu sentido mais profundo, assumindo-se como plataforma de conhecimento, cooperação e formação orientada para os desafios reais da biodiversidade e da sustentabilidade, com particular atenção aos países de língua portuguesa e ao Sul Global.

É nesta convergência entre a urgência ecológica, a desigualdade no acesso ao conhecimento e a necessidade de envolver as pessoas que vivem nos territórios, que se definem as seis dimensões do trabalho desta Cátedra: biodiversidade, conhecimento, comunidades, património, sustentabilidade e futuros.

Biodiversidade

A biodiversidade não é apenas um tema científico. É a base da vida, dos ecossistemas, da alimentação, da saúde e das culturas humanas. Estudá-la, monitorizá-la, conservá-la e promover o seu uso sustentável exige conhecimento especializado, redes de cooperação e presença nos territórios onde ela existe e onde está ameaçada. É o que esta Cátedra faz desde as Reservas da Biosfera em Portugal até às florestas tropicais de Angola e Moçambique, desde os mangais da Guiné-Bissau até aos arquipélagos atlânticos.

Conhecimento

O conhecimento sobre biodiversidade é profundamente desigual. As coleções históricas, os dados científicos e os recursos humanos qualificados concentram-se no Norte Global, enquanto a maior parte da biodiversidade do planeta se encontra no Sul. Esta Cátedra trabalha para inverter essa lógica — transferindo conhecimento, qualificando investigadores nos países parceiros, digitalizando coleções históricas que pertencem aos territórios onde foram recolhidas, e promovendo o acesso aberto à informação científica. O conhecimento tradicional e local é parte integrante desta equação, não um complemento menor da ciência formal.

Comunidades

A conservação da biodiversidade requer a participação das pessoas que vivem nos territórios. As comunidades locais são guardiãs de saberes insubstituíveis e atores centrais de qualquer estratégia de conservação que queira ser eficaz e justa. Esta Cátedra trabalha com as comunidades em projetos de ciência cidadã, em viveiros comunitários, em reservas da biosfera geridas de forma participativa, em iniciativas de herança biocultural que reconhecem o valor do que as pessoas sabem e fazem. People and Planet, consigna do Centro de Ecologia Funcional que enquadra esta cátedra é o princípio organizador de toda a nossa ação.

Património

As comunidades que vivem em contacto com a natureza acumulam, ao longo de gerações, um conhecimento único sobre os ecossistemas que a rodeiam – as plantas que curam, os solos que alimentam, as paisagens que protegem, as estações que orientam. Este conhecimento está nas práticas agrícolas, nas tradições orais, nos nomes locais das espécies, nas formas de gestão da terra herdadas e reinventadas ao longo dos séculos. É herança biocultural, sintetizando a intersecção indissociável entre diversidade biológica e diversidade cultural.

Esta Cátedra trata o património biocultural como uma das dimensões centrais da sua missão. Porque este conhecimento é simultaneamente um bem a preservar e um recurso para a conservação — as comunidades que vivem nos territórios mais biodiversos do planeta são também as suas guardiãs mais eficazes. Ignorar o que sabem é empobrecer a ciência e enfraquecer a conservação.

Sustentabilidade

A Cátedra entende a sustentabilidade como a capacidade de usar os recursos biológicos e culturais do presente sem comprometer os dos que virão a seguir, e de o fazer com equidade: entre países, entre comunidades, entre gerações. É uma exigência científica, mas também ética e política.

O trabalho desta Cátedra em sustentabilidade passa pelas reservas da biosfera como modelos de gestão integrada de territórios, pelos sistemas alimentares e pela agroecologia nos países da CPLP, pelas ferramentas de avaliação de serviços de ecossistema, e pela valorização dos recursos biológicos ligados às tradições locais. Passa também pela formação — porque a sustentabilidade só se constrói com pessoas qualificadas nos territórios onde os desafios são mais urgentes.

Futuros

O horizonte 2030 está próximo e os indicadores de progresso são insuficientes. A atividade da Cátedra aponta para futuros possíveis — futuros em que a ciência informa a decisão política, em que a formação de jovens investigadores no Sul Global cria capacidade local duradoura, em que as reservas da biosfera funcionam como laboratórios vivos de sustentabilidade, em que o diálogo entre saberes científicos e saberes locais produz estratégias de conservação mais eficazes e mais justas. Esses futuros têm de ser construídos. É para isso que trabalhamos.

A Cátedra

Do conhecimento ao impacto

Uma cátedra UNESCO exige que o conhecimento chegue às pessoas, informe as políticas e transforme as práticas. É esta cadeia — da ciência à sociedade, passando pela educação e pela decisão política — que define o modo de trabalhar desta Cátedra e o que a distingue de outras plataformas académicas.

Ciência

O trabalho científico da Cátedra desenvolve-se em múltiplas frentes: avaliação e monitorização da biodiversidade, ecologia funcional, restauro ecológico, património biocultural, agroecologia, etnobotânica, ciências do mar, e o nexo entre biodiversidade e alterações climáticas. A investigação é produzida em colaboração com parceiros em Portugal, em África, na América Latina e na Europa — e disponibiliza-se e publica-se em acesso aberto, porque o conhecimento sobre biodiversidade é um bem global. A investigação acontece no campo, nas reservas da biosfera, nas florestas de Angola e Moçambique, nos mangais da Guiné-Bissau, nas comunidades do interior português. É uma ciência que vai ao terreno porque é lá que os problemas existem e é lá que as soluções têm de funcionar.

Educação

O conhecimento que se transmite transforma. A dimensão educativa desta Cátedra é inseparável da sua missão científica e prossegue privilegiadamente uma orientação deliberada para o Sul Global. Programas de mestrado desenvolvidos em parceria com universidades angolanas e moçambicanas, bolsas de doutoramento para estudantes dos PALOP e de Timor-Leste, cursos de curta duração, programas de mobilidade, o curso aberto Ecoliteracy estruturado em torno dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — tudo isto forma investigadores e profissionais capazes de trabalhar com biodiversidade e sustentabilidade nos seus próprios países e contextos. Mais de 50 pessoas já receberam formação avançada em gestão do capital natural e conservação no âmbito dos programas desta Cátedra.

Política

A ciência tem impacto pleno quando chega a quem decide. Esta Cátedra trabalha ativamente na interface entre conhecimento e política pública, através de policy briefs dirigidos a decisores nacionais e internacionais, da participação em fóruns globais como a COP16 em Cali, do papel da titular da Cátedra no Conselho Internacional de Coordenação do Programa MAB da UNESCO, e da colaboração com o Laboratório Associado TERRA.

No plano digital, a Cátedra contribui para o portal das reservas da biosfera portuguesas: uma plataforma de acesso aberto que agrega informação científica, dados de biodiversidade e recursos para gestores, investigadores e cidadãos. No espaço da CPLP, o trabalho nas reservas da biosfera é também um eixo de cooperação ativa, partilhando metodologias, formando técnicos e construindo uma visão comum sobre o papel destes territórios na conservação e no desenvolvimento sustentável dos países lusófonos.

Pessoas e Sociedade

O elo mais exigente é a ligação à sociedade — como participante ativa na construção do conhecimento. A iniciativa Cartas da Natureza, na plataforma Zooniverse, envolveu participantes de todo o mundo na transcrição de documentos botânicos históricos, transformando ciência cidadã numa ponte entre o passado e o presente da biodiversidade. Os podcasts Plantas nas Montanhas e Crianças pela Terra levam a ecologia a públicos que nunca entrariam num laboratório. Porque o futuro da biodiversidade depende de escolhas coletivas informadas e de uma sociedade que compreende o que está em jogo.

Missão

A Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável é uma plataforma internacional de investigação, formação e cooperação, detida pela Universidade de Coimbra no âmbito do Centro de Ecologia Funcional — Ciência para as Pessoas e o Planeta. A sua missão é contribuir para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade através da produção e partilha de conhecimento científico, da qualificação de pessoas nos países parceiros, do diálogo entre ciência e sociedade, e do reforço das redes de cooperação entre instituições de ensino superior e investigação — com particular atenção aos países de língua portuguesa e ao Sul Global.

Criada em 2013, é uma das primeiras cátedras UNESCO em Portugal e parte integrante da rede global de cerca de mil cátedras que o programa UNITWIN mantém em 120 países. Desde a sua fundação, tem vindo a construir uma presença ativa em África, na América Latina e na Europa, articulando ciência rigorosa com impacto real nos territórios e nas comunidades.

Visão

Um mundo em que a biodiversidade é reconhecida como fundamento da vida e do bem-estar humano — e em que o conhecimento científico, o saber local e a ação coletiva se combinam para garantir futuros sustentáveis para os ecossistemas e para as pessoas que deles dependem.

Esta visão concretiza-se no trabalho diário da Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável: nas reservas da biosfera geridas com as comunidades, nos investigadores formados em Angola e Moçambique, nos dados históricos devolvidos aos territórios de onde vieram, nos jovens que aprendem a pensar a relação entre natureza e sociedade, nas políticas informadas por ciência robusta.

História

A ideia que está na origem da Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável é simultaneamente científica e histórica. A Universidade de Coimbra — fundada em 1290, com mais de sete séculos de história — acumulou ao longo dos séculos um património científico extraordinário relacionado com os territórios africanos de língua portuguesa: herbários, coleções museológicas, arquivos, documentos botânicos que registam a biodiversidade de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde em momentos em que essa biodiversidade era diferente do que é hoje.

Esse património pertence também aos países onde foi recolhido. E o conhecimento que encerra — sobre espécies, habitats, usos tradicionais de plantas, ecologia histórica — é relevante para a conservação e o desenvolvimento sustentável nesses países. Foi esta convicção que esteve na origem da proposta de criação da Cátedra, apresentada em 2013 sob a iniciativa de Helena Freitas, coordenadora do Centro de Ecologia Funcional.

Em 2013, a UNESCO reconheceu formalmente a Cátedra, estabelecendo o acordo com a Universidade de Coimbra e confirmando as primeiras duas instituições parceiras: a Universidade Mandume Ya Ndemufayo, em Angola, e a Universidade Lúrio, em Moçambique. Trata-se de uma das duas primeiras cátedras UNESCO em Portugal — num momento em que a rede portuguesa estava ainda nos seus primeiros passos.

Ao longo de uma década, a Cátedra cresceu. A rede de parceiros alargou-se a outros países africanos, ao Brasil, à Europa e à Ásia. Os programas de formação aprofundaram-se. A investigação diversificou-se — das coleções históricas às reservas da biosfera, da ecologia funcional às humanidades ambientais, da ciência cidadã à interface ciência-política.

Em 2021, a Cátedra foi integrada como grupo de investigação transversal no Centro de Ecologia Funcional — Ciência para as Pessoas e o Planeta, reforçando a sua base institucional e financeira.

A renovação do acordo com a UNESCO para o período 2025-2029 consolida este percurso e abre novos horizontes: o aprofundamento das parcerias com o Brasil, a expansão do trabalho nos mangais da Guiné-Bissau, o desenvolvimento de e-Floras para a África Tropical Ocidental, e uma presença mais ativa nas plataformas globais de governação da biodiversidade.

Objetivos

A atividade da Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável estrutura-se em cinco objetivos, definidos na sua criação e reafirmados na renovação, com a maturidade de uma década de experiência:

Investigação e conservação da biodiversidade

Implementar e apoiar uma rede de investigadores, instituições de ensino superior e centros de investigação e desenvolvimento nos domínios da biodiversidade, ecologia, conservação e desenvolvimento sustentável — produzindo conhecimento que sirva tanto a ciência como os territórios e as políticas.

Formação e capacitação

Oferecer formação e recursos a estudantes e investigadores, promovendo estágios de curta duração, workshops e intercâmbio de recursos humanos entre instituições parceiras — com prioridade para os países de língua portuguesa em África e para o Sul Global.

Plataformas digitais e partilha de conhecimento

Criar e melhorar plataformas digitais para a partilha de conhecimento científico — bibliotecas digitais, herbários digitais, repositórios de coleções históricas, ferramentas de e-learning — tornando a informação sobre biodiversidade acessível a investigadores, estudantes, decisores e cidadãos.

Comunicação de ciência e envolvimento com a sociedade

Construir pontes entre a academia e a sociedade através da comunicação de ciência, de iniciativas de ciência cidadã e de atividades de divulgação com escolas e público geral — porque o futuro da biodiversidade depende de escolhas coletivas informadas.

Cooperação inter-universitária na CPLP

Incrementar a cooperação entre universidades e reforçar as redes científicas no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — reconhecendo que os países lusófonos partilham não apenas uma língua mas uma história natural e científica comum que é simultaneamente um recurso e uma responsabilidade.

Universidade de Coimbra

A Cátedra é detida pela Universidade de Coimbra — uma das universidades mais antigas da Europa, fundada em 1290, e classificada como Património Mundial da UNESCO desde 2013, o mesmo ano em que esta Cátedra foi criada.

O enquadramento operacional e científico é assegurado pelo Centro de Ecologia Funcional — Ciência para as Pessoas e o Planeta, unidade de investigação acreditada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e Laboratório Associado TERRA.

A Cátedra e o CFE partilham investigadores, infraestruturas e linhas de trabalho — mas têm identidades e missões distintas. O CFE é um centro de investigação de âmbito alargado; a Cátedra é uma plataforma de cooperação internacional orientada para a biodiversidade e a sustentabilidade no espaço lusófono e no Sul Global, com um mandato específico da UNESCO e uma rede de parceiros que transcende as fronteiras do centro que a acolhe.

A Titular da Cátedra

Helena Freitas é Professora Catedrática de Biodiversidade e Ecologia Vegetal no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e coordenadora do Centro de Ecologia Funcional. Doutorada em Ecologia pela Universidade de Coimbra e com pós-doutoramento na Universidade de Stanford, a sua investigação abrange as interações bióticas e a dinâmica dos ecossistemas mediterrânicos, a ecologia e gestão de espécies invasoras, a conservação da natureza, a dendroecologia e o clima, e as relações entre ecologia e sociedade. Publicou mais de duzentos artigos científicos em revistas internacionais com revisão por pares.

Para além da investigação, Helena Freitas tem uma presença consistente no debate público sobre ambiente, biodiversidade e sustentabilidade — em artigos de opinião, entrevistas e participações em televisão e rádio —, exercendo o papel que considera inseparável do trabalho científico: o de comunicar com a sociedade sobre o que a ciência sabe e sobre o que está em jogo.

Representa Portugal no Conselho Internacional de Coordenação do Programa MAB da UNESCO, e foi anteriormente Directora do Jardim Botânico de Coimbra, Presidente da Liga para a Proteção da Natureza, Provedora do Ambiente e Qualidade de Vida da Câmara Municipal de Coimbra, e Vice-Presidente da Sociedade Ecológica Europeia.

Membros

  • Helena Freitas (Chair)
  • Alexandra Aragão
  • Anabela Mota Pinto
  • António Abreu
  • António Gouveia
  • Catarina Moura
  • Cristina Nabais
  • Eugénia Cunha
  • Fátima Alves
  • Fernando Florêncio
  • Joana Alves
  • Joana Cabral Oliveira
  • Joana Cabral Oliveira
  • João Loureiro
  • Jorge Canhoto
  • José Paulo Sousa
  • Maria Fernanda Rollo
  • Miguel Pardal
  • Rui Ribeiro
  • Sílvia Portugal
  • Teresa Gonçalves

UNESCO & UNITWIN

A Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável foi atribuída em 2013 passando a integrar o Programa UNITWIN/Cátedras UNESCO.

A UNESCO

Em novembro de 1945, com a Europa ainda em escombros e a memória viva de duas guerras mundiais em menos de uma geração, representantes de 44 nações reuniram-se em Londres com uma convicção partilhada: os tratados políticos e os acordos económicos não chegam para garantir a paz. É preciso algo mais profundo — construir, nos espíritos dos homens e das mulheres, os alicerces da compreensão mútua.

Nasceu assim, a 16 de novembro desse ano, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura — a UNESCO. A sua Constituição, ratificada em 1946 por 20 Estados fundadores, estabelecia uma missão que o tempo não esvaziou: promover a paz e a segurança no mundo através da educação, da ciência, da cultura e da comunicação.

A UNESCO, atualmente com 193 Estados-membros, com sede em Paris, é a agência das Nações Unidas que zela pela dimensão intelectual e cultural da cooperação internacional — dos patrimónios mundiais à liberdade de imprensa, da ciência aberta à salvaguarda das línguas em risco.

O Programa UNITWIN/Cátedras UNESCO

Em 1992, a UNESCO lançou um instrumento novo para aprofundar a sua presença no mundo universitário. O programa UNITWIN — University Twinning and Networking — nasceu com o propósito de ligar universidades entre si e à UNESCO, para que o conhecimento gerado nas instituições de ensino superior pudesse alimentar, de forma sistemática, as grandes prioridades da organização. Ao longo de três décadas, o programa tem crescido reunindo atualmente cerca de mil cátedras e 45 redes em 120 países, envolvendo mais de dez mil investigadores, docentes e estudantes.

Uma Cátedra UNESCO é uma parceria formal entre a UNESCO e uma instituição de ensino superior ou de investigação, formalizada por acordo renovável, que compromete essa instituição a desenvolver atividades concretas de ensino, investigação e ligação à sociedade numa área de interesse comum. Não é uma distinção honorífica, é um programa de trabalho, liderado por um académico de referência e apoiado por uma equipa alargada de investigadores e parceiros, frequentemente em diferentes países.

Uma Rede UNITWIN aprofunda essa lógica de cooperação: trata-se de uma parceria entre a UNESCO e um consórcio de pelo menos três universidades de países diferentes — com presença obrigatória de instituições do Sul Global —, que unem recursos e competências em torno de temas comuns. Onde a Cátedra ancora numa instituição líder, a Rede constrói desde o início uma estrutura partilhada entre pares. O que une os dois instrumentos é uma mesma função: ser ponte entre a academia e o mundo, entre a investigação e a política pública, entre o conhecimento especializado e as comunidades que dele precisam.

As Cátedras UNESCO em Portugal

A relação de Portugal com o programa UNITWIN é coordenada pela Comissão Nacional da UNESCO (CNU), organismo sob tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros que gere no país a articulação com a UNESCO e as suas diversas redes. É através da CNU que as instituições portuguesas submetem as suas candidaturas, num processo que a UNESCO limita a duas aprovações por país em cada ciclo.

O resultado acumulado de três décadas é uma rede de mais de vinte cátedras, distribuídas por universidades e institutos politécnicos de norte a sul do país e pelas regiões autónomas. Os temas são tão diversos quanto as instituições que as acolhem: património imaterial, oceanos, biodiversidade, geoparques, educação para a paz, inteligência artificial, estudos globais.

A rede reúne periodicamente em conferências nacionais — a mais recente decorreu nos Açores, em setembro de 2025.

 

 

InstituiçãoCátedraAno
Universidade de ÉvoraPatrimónio Imaterial e Saber-Fazer Tradicional2013
Universidade de CoimbraBiodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável2013
Univ. de Trás-os-Montes e Alto DouroGeoparques, Desenvolvimento Regional Sustentado e Estilos de Vida Saudáveis2016
Universidade NOVA de LisboaO Património Cultural dos Oceanos2016
Universidade do AlgarveÁgua e Ecossistemas para a Sociedade2016
Universidade de Lisboa / ISCSPEducação para a Paz Global Sustentável2017
Universidade LusófonaEducação, Cidadania e Diversidade Cultural2017
Universidade do PortoVida na Terra2017
Instituto Politécnico de LeiriaArtes e Gestão Cultural, Cidades e Criatividade2018
Instituto Politécnico de TomarHumanidades e Gestão Cultural Integrada das Paisagens2018
Universidade de CoimbraDiálogo Intercultural em Patrimónios de Influência Portuguesa2018
Universidade do PortoPatrimónio, Cidades e Paisagens2019
Universidade de ÉvoraEducação e Ciência para o Desenvolvimento e Bem-Estar Humano2021
Universidade do PortoOcean Expert2022
Universidade de LisboaInteligência Artificial e Realidade Aumentada2022
Universidade de LisboaFuturos da Educação2022
Universidade dos AçoresBiodiversidade e Sustentabilidade nas Ilhas Atlânticas2022
ISEC LisboaA Cidade que Educa e Transforma2023
Universidade AbertaEstudos Globais2023
Instituto Politécnico de BejaEtnobótanica – Plantas, Pessoas, Etnodiversidade e Salvaguarda do Património de Origem Vegetal2023

Investigação e Ação

A investigação da Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável organiza-se em torno de seis eixos temáticos. Cada um responde a desafios reais — nos territórios, nas comunidades, nas políticas — e articula-se com os outros numa visão integrada da biodiversidade e da sustentabilidade.

São eixos de trabalho; em cada um deles decorrem projetos, parcerias internacionais, publicações e ações no terreno.

Biodiversidade e Conservação

Conhecer para conservar. Este eixo centra-se na avaliação, monitorização e conservação da biodiversidade — de espécies e habitats em Portugal e nos países parceiros de língua portuguesa em África. O trabalho inclui o mapeamento de espécies e habitats, a deteção remota para descrição do uso do solo e análise dos aspetos funcionais da vegetação, e o desenvolvimento de e-Floras para a África Tropical Ocidental — ferramentas de identificação e documentação da flora tropical em acesso aberto, essenciais para investigadores, gestores de áreas protegidas e técnicos de conservação nos países parceiros.

A taxonomia é tratada como prioridade estratégica. A formação de novas gerações de taxonomistas, a digitalização de coleções científicas e a promoção do acesso aberto aos dados são condições indispensáveis para que a conservação tenha base sólida.

A gestão sustentável das reservas da biosfera nos países da CPLP é também parte integrante deste eixo, articulando a avaliação científica da biodiversidade com modelos de governação que conciliam conservação e desenvolvimento local.

Restauro Ecológico

Os ecossistemas degradados podem recuperar — mas essa recuperação exige conhecimento, tempo e envolvimento das comunidades locais. Este eixo integra o estudo da história do uso do solo e da sua influência nas tendências ecológicas atuais — compreender o passado dos territórios é indispensável para definir trajetórias de restauro realistas e eficazes. O conhecimento histórico da biodiversidade serve também como linha de base para avaliar os fatores de risco presentes e projetar cenários futuros.

O trabalho concreto inclui projetos comunitários de reflorestação em áreas afetadas por incêndios em Portugal, com criação de viveiros geridos pelas próprias comunidades; a Rede de Estudo dos Mangais (REM), que produz investigação sobre ecossistemas de mangal na Guiné-Bissau e contribui para práticas eficazes de gestão e conservação; e a participação na iniciativa Rooted in Resilience II, no âmbito da UNESCO Soils Initiative, que trabalha a saúde dos solos em sítios designados pela UNESCO em todo o mundo. O restauro ecológico é aqui entendido como um processo simultaneamente científico, social e político — que requer tanto dados ecológicos robustos como a participação ativa das comunidades que habitam os territórios a restaurar.

Memória, Património, Humanidades

A biodiversidade tem história. Tem memória. Tem cultura. Este eixo — um dos mais distintivos Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável — parte da convicção de que a crise ecológica exige ciências sociais, humanidades, artes e saberes locais tanto quanto ciência natural, e de que o património biológico e cultural de um povo são indissociáveis.

A Universidade de Coimbra acumulou ao longo dos séculos um acervo extraordinário relacionado com os territórios africanos de língua portuguesa: herbários, coleções museológicas, espécimes biológicos, arquivos históricos, documentação de expedições científicas. Este material pertence também aos países onde foi recolhido — e o seu estudo, digitalização e devolução é um ato simultaneamente científico, ético e político. A criação de repositórios digitais e bibliotecas online que tornem este material acessível às instituições e comunidades dos países de origem é uma das prioridades deste eixo.

Para além do arquivo histórico, este eixo desenvolve investigação em património e herança biocultural e em metodologias que combinam ciências naturais e ciências sociais — workshops biográficos, vídeo-biografias, arquivo dinâmico multimodal — para documentar e preservar o património cultural imaterial ligado à biodiversidade: a história oral, as tradições, os saberes locais sobre plantas e ecossistemas. Museus e jardins botânicos — como o Jardim Botânico de Coimbra, com a sua história única ligada às expedições científicas africanas — são parceiros naturais neste trabalho, funcionando como plataformas de comunicação de ciência e de disseminação do conhecimento histórico e biológico junto de públicos alargados.

A colaboração com a COST Action SHiFT — Social Sciences and Humanities for Transformation and Climate Resilience — explora o papel das ciências sociais, das humanidades e das artes na resposta às alterações climáticas, aprofundando a dimensão transdisciplinar que caracteriza este eixo.

Reservas da Biosfera e Geoparques

As reservas da biosfera são laboratórios vivos de sustentabilidade — territórios onde a conservação da natureza e o desenvolvimento humano se testam em conjunto, sob o enquadramento do Programa MAB da UNESCO. Esta Cátedra tem um envolvimento profundo e duradouro nesta rede.

O projeto Biosphere Reserves: Sustainable Territories, Resilient Communities (2021–2024) trabalhou com as 12 reservas portuguesas na construção de planos de desenvolvimento sustentável participados, mapeando serviços de ecossistema, registando herança biocultural ligada aos modos de vida locais e co-desenhando modelos de governação participativa. O projeto BECOME avalia a eficácia da conservação da biodiversidade em reservas de seis países, combinando dados históricos de governação e biodiversidade com métricas específicas ao contexto e colaboração entre stakeholders.

Os trabalhos estendem-se às reservas de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e da ilha do Príncipe, onde se desenvolvem projetos-piloto de avaliação e valorização de serviços de ecossistema.

A titular da Cátedra, Helena Freitas, representa Portugal no Conselho Internacional de Coordenação do MAB — uma posição que reforça a articulação entre a investigação produzida nesta Cátedra e as prioridades globais do programa.

Agroecologia e Sistemas Alimentares

A pressão sobre a biodiversidade é inseparável da pressão sobre os sistemas alimentares. Este eixo aborda o nexo entre agricultura, ecossistemas e sustentabilidade — com particular atenção aos países da CPLP, onde os desafios de segurança alimentar, resiliência climática e conservação da biodiversidade se entrelaçam de forma especialmente exigente.

Um elemento central e distintivo deste eixo é a investigação em etnobótanica e etnofarmacologia — o estudo dos usos tradicionais das plantas pelas comunidades locais, do seu valor económico e do seu papel na saúde. Nos países parceiros africanos, este conhecimento é simultaneamente um recurso científico de valor inestimável e um bem cultural em risco de se perder. Documentá-lo, analisá-lo e devolvê-lo às comunidades e aos sistemas de saúde locais é parte essencial da missão desta Cátedra. A valorização económica dos recursos biológicos ligados às tradições locais — das plantas medicinais às práticas agrícolas ancestrais — contribui tanto para a conservação da biodiversidade como para o desenvolvimento sustentável das comunidades.

O projecto ROOT — CPLP Agroecology Nexus (2026–2030), recentemente integrado na Década Internacional das Ciências para o Desenvolvimento Sustentável, promove a investigação e a inovação agroecológica nas reservas da biosfera dos países lusófonos, articulando ciência, políticas e comunidades na construção de transições agroecológicas equitativas que respeitam os saberes locais e a diversidade biocultural.

Interface Ciência-Política

O conhecimento científico tem impacto pleno quando chega a quem decide. Este eixo materializa o compromisso desta Cátedra com a tradução da ciência em política pública — através da produção de policy briefs em parceria com o Laboratório Associado TERRA, da participação em conferências internacionais como a COP16 em Cali, onde foi co-organizado um evento paralelo sobre mulheres, ciência cidadã e o futuro da conservação da biodiversidade, e do envolvimento em plataformas multilaterais de diálogo entre ciência e governação.

A biodiversidade precisa de políticas informadas — sobre áreas protegidas, sobre uso do solo, sobre recursos genéticos, sobre o reconhecimento dos direitos das comunidades locais e dos povos indígenas como guardiães de ecossistemas. E os decisores políticos precisam de ciência acessível, rigorosa e orientada para a ação. Este eixo existe para encurtar essa distância — produzindo conhecimento que chega às mesas onde as decisões são tomadas.

Educação

A formação é um dos pilares fundadores da Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável. Desde 2013, o compromisso com a qualificação de pessoas — investigadores, estudantes, profissionais, decisores, cidadãos — atravessa toda a actividade desenvolvida e dá corpo a uma das missões centrais do programa UNITWIN da UNESCO: construir capacidade humana nos países parceiros, com particular atenção ao Sul Global.

Formar é criar condições para que pessoas em contextos muito diferentes possam produzir ciência relevante para os seus territórios, tomar decisões informadas sobre os seus recursos naturais e participar activamente nas redes internacionais de investigação e conservação.

Programas de Pós-Graduação

O programa conjunto de mestrado em Ecologia e Gestão de Recursos Naturais, desenvolvido em parceria com o ISCED-Huíla em Angola, é um dos resultados mais concretos e duradouros do trabalho desta Cátedra. Mais de cinquenta profissionais angolanos receberam formação avançada em gestão do capital natural e conservação — pessoas que trabalham hoje nos seus países com ferramentas científicas e uma visão integrada da biodiversidade e do desenvolvimento sustentável.

Está em preparação um programa de mestrado em ciências marinhas em parceria com a Universidade do Namibe, que responde à necessidade crescente de qualificação especializada na gestão dos recursos costeiros e marinhos de Angola. Um programa transdisciplinar de pós-graduação centrado nas zonas áridas e nos desertos está também em desenvolvimento, abrindo uma nova linha de investigação e formação com relevância direta para os contextos ecológicos de vários países parceiros.

Na Universidade de Coimbra, os membros desta Cátedra estão profundamente envolvidos nos programas doutorais em Biociências e em Arquitetura Paisagista e Ecologia Urbana, e nos mestrados em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, Ecologia, Ecologia Aplicada, Biologia Marinha e Alterações Globais, e Recursos Biológicos, Valorização do Território e Sustentabilidade.

Bolsas de Doutoramento

Esta Cátedra lidera o Consórcio de Escolas de Ciências Naturais e Biodiversidade — CEBiCNa — no âmbito do Centro de Ciência LP, um centro de Categoria 2 sob a égide da UNESCO. Este consórcio atribui anualmente vinte bolsas de doutoramento a cidadãos dos PALOP e de Timor-Leste, financiando a formação doutoral de investigadores que regressam aos seus países com capacidade de produzir e aplicar ciência de forma autónoma.

Cursos de Curta Duração e Workshops

A formação especializada de curta duração — presencial e em formato de e-learning — é uma das formas mais flexíveis e eficazes de responder a necessidades específicas de capacitação. Esta Cátedra desenvolve e oferece cursos avançados em biodiversidade, ecologia, técnicas de campo e laboratório, gestão de recursos naturais, taxonomia vegetal e gestão de coleções científicas. Os workshops temáticos, frequentemente realizados nos próprios países parceiros, combinam formação técnica com discussão de casos reais e envolvimento de parceiros locais.

Ecoliteracy

O curso semestral aberto Ecoliteracy, oferecido na Universidade de Coimbra, estrutura-se em torno dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável e convida estudantes de todas as áreas disciplinares a desenvolver pensamento crítico sobre as relações entre natureza, sociedade, economia e cultura. A literacia ecológica é uma competência fundamental para qualquer pessoa que queira compreender e agir sobre os desafios do nosso tempo — e este curso parte exatamente dessa convicção.

Mobilidade e Intercâmbios

A mobilidade de estudantes e docentes entre Coimbra e os países parceiros é um dos mecanismos mais diretos de transferência de conhecimento e de construção de relações duradouras. Esta Cátedra trabalha ativamente para manter e expandir os programas de mobilidade existentes, e para criar novas oportunidades de intercâmbio no âmbito da CPLP e das redes internacionais em que participa — incluindo as parcerias com Heidelberg, Bergen e Yokohama.

Fellowships e Professores Visitantes

O programa de professores e investigadores visitantes permite trazer a Coimbra especialistas dos países parceiros e de outras instituições da rede, e enviar membros desta Cátedra para estadias de trabalho nas universidades parceiras. Estas visitas combinam atividades de ensino com colaboração em investigação — criando pontes entre contextos científicos diferentes e enriquecendo tanto as instituições de acolhimento como as de origem.

Em Rede

A biodiversidade não tem fronteiras. E o trabalho para a compreender, conservar e usar de forma sustentável também não pode tê-las. Desde a sua criação em 2013 — como uma das primeiras cátedras UNESCO em Portugal —, esta Cátedra construiu uma rede de parceiros que hoje se estende por quatro continentes, unindo universidades, centros de investigação, reservas da biosfera, parques nacionais e organizações internacionais em torno de objetivos comuns.

Esta rede é um conjunto de relações de trabalho ativas — com investigação conjunta, programas de formação partilhados, mobilidade de estudantes e docentes, e projetos que só existem porque instituições de países diferentes decidiram colaborar. É também uma rede deliberadamente orientada para o Sul Global: a maior parte dos parceiros africanos e latino-americanos são instituições jovens, em contextos de grande riqueza biológica e de recursos científicos ainda limitados, onde o impacto da cooperação é mais imediato e mais duradouro.

África é o coração histórico e científico desta Cátedra. A ligação a Angola e a Moçambique existe desde a fundação, com a Universidade Mandume Ya Ndemufayo e a Universidade Lúrio como parceiras fundadoras.

Em Angola, a parceria com o ISCED-Huíla resultou num programa conjunto de mestrado que qualificou dezenas de profissionais angolanos. A Universidade do Namibe é parceira num futuro programa de ciências marinhas.

Em Moçambique, a colaboração com a Universidade Lúrio e com o Parque Nacional da Gorongosa articula investigação de campo com conservação ativa.

Em São Tomé e Príncipe, o trabalho com o Centro de Investigação Agrícola e Tecnológica inclui projetos de avaliação de serviços de ecossistema na reserva da biosfera da ilha do Príncipe.

Em Cabo Verde, os projetos nas reservas da biosfera do Fogo e do Maio exploram modelos de gestão sustentável em contextos insulares.

Na Guiné-Bissau, o trabalho nos mangais e nas reservas da biosfera combina investigação ecológica com envolvimento comunitário.

A relação com o Brasil aprofundou-se significativamente nos últimos anos.

A Fiocruz — Fundação Oswaldo Cruz — é parceira em projetos que cruzam biodiversidade e saúde.

Em 2024, foi assinado um Memorando de Entendimento com a Cátedra UNESCO em Cooperação Sul-Sul para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal do Pará, em Belém.

A parceria com a Women4Biodiversity resultou na co-organização de um evento paralelo na COP16 em Cali, sobre mulheres, ciência cidadã e o futuro da conservação da biodiversidade.

Na Europa, as parcerias académicas têm-se consolidado em torno das reservas da biosfera e da investigação interdisciplinar.

A Universidade de Educação de Heidelberg é parceira através da sua Cátedra UNESCO em Observação e Educação do Património Mundial e Reservas da Biosfera.

A Universidade Nacional de Bergen aprofunda a colaboração em investigação ecológica e governação da biodiversidade.

A participação na COST Action SHiFT cria pontes entre as humanidades ambientais e a ciência da sustentabilidade a uma escala europeia.

Com a Universidade Nacional de Yokohama, no Japão, foi assinado em 2024 um Memorando de Entendimento centrado na educação em reservas da biosfera para o desenvolvimento sustentável.

Esta parceria abre uma nova dimensão geográfica à rede da Cátedra e reforça o trabalho conjunto no âmbito do Programa MAB da UNESCO.

Uma Rede de Cátedras UNESCO

Para além das parcerias institucionais, esta Cátedra integra a rede global de Cátedras UNESCO — participando em seminários internacionais, colaborando com cátedras no Brasil, na Alemanha, no Japão e em Espanha, e fazendo parte da Rede Portuguesa de Cátedras UNESCO coordenada pela Comissão Nacional da UNESCO. Ser uma das primeiras cátedras portuguesas confere a esta plataforma uma responsabilidade acrescida na construção e consolidação dessa rede nacional.

Sociedade

A ciência que circula — entre gerações, entre disciplinas, entre culturas, entre especialistas e cidadãos comuns — tem maior impacto. A Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável parte da convicção que o conhecimento sobre biodiversidade tem de chegar a todos porque a crise da biodiversidade é um problema de todos e as suas soluções dependem de todos. O envolvimento com a sociedade é parte estrutural da missão.

Ciência Cidadã

A iniciativa Cartas da Natureza — alojada na plataforma Zooniverse, a maior plataforma de ciência cidadã do mundo — convidou participantes de todo o mundo a transcrever documentos botânicos históricos da Universidade de Coimbra relacionados com África.

O resultado foi simultaneamente científico e cultural: dados históricos sobre biodiversidade tornados acessíveis, e uma comunidade alargada de pessoas envolvidas na produção ativa de conhecimento.

A ciência cidadã é aqui entendida na sua dimensão mais ampla — como forma de democratizar a ciência, de valorizar o conhecimento local e de criar uma relação mais próxima entre as pessoas e a natureza que as rodeia.

Comunidades e Territórios

Trabalhar com comunidades significa estar presente nos territórios onde os desafios da biodiversidade são mais concretos e onde as decisões têm consequências diretas na vida das pessoas. Os projetos comunitários de reflorestação desenvolvidos em áreas afetadas por incêndios em Portugal criaram viveiros geridos pelas próprias comunidades locais — devolvendo-lhes um papel ativo na recuperação das paisagens que habitam.

Nas reservas da biosfera portuguesas e nos países parceiros africanos, o trabalho desta Cátedra inclui processos participativos de planeamento e governação — onde as comunidades são co-autoras das estratégias de conservação e desenvolvimento sustentável dos seus territórios. Esta abordagem reconhece algo que a investigação confirma e que a experiência no terreno torna evidente: a conservação da biodiversidade é mais eficaz e mais duradoura quando as pessoas que vivem nos territórios são parceiras reais do processo.

Comunicação de Ciência

Comunicar ciência sobre biodiversidade tem implicações que vão além do académico. Num momento em que os acordos globais não estão a ser cumpridos e o tempo para agir se encurta, tornar a biodiversidade compreensível e relevante para públicos alargados é parte do trabalho de conservação.

Os podcasts Plantas nas Montanhas e Crianças pela Terra exploram a ecologia e a natureza de formas acessíveis e envolventes, chegando a ouvintes que nunca leram um artigo científico sobre biodiversidade. As exposições itinerantes levam a ciência a espaços que não são habitualmente associados à investigação académica. A presença regular nos media de membros desta Cátedra assegura que as questões da biodiversidade têm voz no debate público.

O programa Biodiversity Futures co-organizado no âmbito do Digital with Purpose Global Summit, em Lisboa em 2023 e em Cascais em 2024, reuniu investigadores, líderes comunitários, organizações não-governamentais, decisores políticos e líderes da indústria digital em torno de uma pergunta central: como podem as tecnologias digitais acelerar o conhecimento e a conservação da biodiversidade? O artigo que resultou dessas discussões — publicado em 2025 na revista Web Ecology — é um exemplo do que acontece quando a comunicação de ciência é tratada com o mesmo rigor que a investigação.

Escolas e Jovens

O futuro da biodiversidade passa pela geração que hoje frequenta as escolas. O trabalho desta Cátedra com públicos jovens inclui atividades no âmbito da Ciência Viva, participação no Ecology Day, e programas de literacia ambiental que usam os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como fio condutor. Formar jovens com pensamento crítico sobre as relações entre natureza e sociedade é um investimento de longo prazo e uma responsabilidade que esta Cátedra assume.

Arte e Ciência

A biodiversidade inspira — e a arte tem a capacidade de tornar visível o que a ciência descreve mas que por vezes não consegue fazer sentir. A dimensão artística do trabalho desta Cátedra é uma extensão natural da sua missão de comunicação e envolvimento: exposições que cruzam imagem e conhecimento científico, projetos que exploram as ligações entre herança cultural e diversidade biológica, e uma atenção permanente às formas de expressão que tornam a natureza não apenas um objeto de estudo mas uma experiência partilhada.

Recursos

O conhecimento produzido pela Cátedra UNESCO Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável é um bem público. Desde a sua criação em 2013, o princípio do acesso aberto — à ciência, aos dados, aos materiais pedagógicos, às ferramentas digitais — tem orientado a forma como este trabalho é partilhado. A crise da biodiversidade exige que o conhecimento circule livremente, chegue a quem precisa dele e possa ser usado onde faz mais falta.

Os membros desta Cátedra publicam regularmente em revistas internacionais com revisão por pares, nas áreas da ecologia, biodiversidade, conservação, sustentabilidade, humanidades ambientais e interface ciência-política. As publicações estão organizadas por tema e por ano, com ligação directa aos artigos em acesso aberto sempre que possível.

Entre os trabalhos mais recentes, destaca-se o artigo Biodiversity Futures: Digital Approaches to Knowledge and Conservation of Biological Diversity, publicado em 2025 na revista Web Ecology por Helena Freitas e António Gouveia, que sistematiza as discussões do Digital with Purpose Global Summit sobre o papel das tecnologias digitais na conservação da biodiversidade e propõe prioridades de ação para o horizonte 2030.

A investigação desta Cátedra produz conhecimento com implicações diretas para políticas públicas — de conservação, de gestão de recursos naturais, de cooperação internacional, de educação para a sustentabilidade. Os policy briefs são documentos curtos, rigorosos e acessíveis, dirigidos a decisores políticos, gestores de áreas protegidas e responsáveis institucionais, em português e inglês. São produzidos em parceria com o Laboratório Associado TERRA e contribuem para o portal das reservas da biosfera portuguesas.

Os materiais desenvolvidos para a formação estão progressivamente disponíveis em acesso aberto. Incluem conteúdos para o curso Ecoliteracy, materiais de apoio aos programas de mestrado e doutoramento desenvolvidos em parceria com instituições africanas, recursos para workshops e cursos de curta duração, e guias de boas práticas em áreas como gestão de recursos naturais, conservação de biodiversidade e monitorização de ecossistemas. Estes materiais estão disponíveis em português e, sempre que possível, em inglês e francês.

A iniciativa Cartas da Natureza — alojada na plataforma Zooniverse — é o projecto de ciência cidadã mais visível desta Cátedra. Os dados produzidos por estes processos participativos estão disponíveis em acesso aberto, em formatos compatíveis com as principais infraestruturas globais de dados sobre biodiversidade, incluindo o GBIF — Global Biodiversity Information Facility.

Plantas nas Montanhas e Crianças pela Terra são dois podcasts produzidos no âmbito desta Cátedra que levam a ecologia e a biodiversidade a públicos que vão muito além da comunidade académica. Estão disponíveis nas principais plataformas de streaming. O arquivo de vídeo inclui webinars, conferências, eventos paralelos em fóruns internacionais — como o evento co-organizado com a Women4Biodiversity na COP16 em Cali — e materiais audiovisuais produzidos no âmbito dos projetos de investigação e comunicação de ciência desta Cátedra.

A Universidade de Coimbra possui um dos patrimónios científicos históricos mais ricos de Portugal no domínio das ciências naturais — herbários, coleções museológicas, arquivos botânicos, documentação de expedições científicas aos territórios africanos de língua portuguesa. Uma parte significativa deste acervo está em processo de digitalização e disponibilização online. As e-Floras para a África Tropical Ocidental, atualmente em desenvolvimento, serão ferramentas de identificação e documentação da flora tropical disponíveis em acesso aberto.

Esta Cátedra integra a rede global do programa UNITWIN/Cátedras UNESCO e articula o seu trabalho com múltiplos programas e instrumentos da UNESCO — o Programa MAB, o Centro de Ciência LP, a Década Internacional das Ciências para o Desenvolvimento Sustentável, a UNESCO Soils Initiative, entre outros. Esta secção agrega ligações diretas aos recursos UNESCO mais relevantes para o trabalho desta Cátedra.

Projetos e Programas

Biodiversity Futures é um programa internacional de reflexão, colaboração e inovação dedicada à conservação da biodiversidade na era digital. Inspirado pelo Quadro Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado na COP15, o programa promove o diálogo entre ciência, políticas públicas, setor empresarial, organizações da sociedade civil, comunidades locais e líderes de inovação tecnológica, com o objetivo de acelerar a concretização das metas globais para a biodiversidade até 2030 e além.

Através de debates, workshops e mesas-redondas, Biodiversity Futures explora soluções integradas para enfrentar a perda de biodiversidade, reforçar a resiliência dos ecossistemas e valorizar as múltiplas dimensões do património natural. O programa destaca o papel transformador das tecnologias digitais, da inteligência artificial, da ciência cidadã, da gestão de dados e da inovação colaborativa na monitorização, proteção e restauro da natureza.

Estruturado em torno de temas como a conservação e proteção da biodiversidade, a deteção e monitorização dos ecossistemas, a integração da biodiversidade nos processos de desenvolvimento sustentável, a inovação tecnológica responsável e o financiamento sustentável, o programa promove abordagens inclusivas e baseadas no conhecimento científico. Simultaneamente, reconhece a importância dos saberes tradicionais, do envolvimento das comunidades locais e indígenas e da democratização do acesso às tecnologias digitais.

Biodiversity Futures afirma-se como um espaço de construção coletiva de conhecimento e ação, contribuindo para uma visão de futuro onde a transformação digital e a conservação da biodiversidade se reforçam mutuamente, em benefício das pessoas e do planeta.

 

Novo relatório destaca o papel das tecnologias digitais na conservação da biodiversidade

O CPLP Agroecology Nexus (ROOT) promove a investigação e a inovação em agroecologia em territórios da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com particular incidência em Reservas da Biosfera e territórios classificados pela UNESCO.

O projeto pretende reforçar a cooperação científica entre os países da CPLP, promovendo a partilha de conhecimento e de boas práticas, a mobilidade de investigadores, a capacitação e o desenvolvimento de conhecimento científico aplicável às especificidades ambientais, sociais, económicas e culturais de cada território.

Através da articulação entre investigadores, decisores políticos, comunidades locais e outros atores relevantes, o ROOT procura contribuir para transições agroecológicas sustentáveis, reforçando a segurança alimentar, a resiliência às alterações climáticas, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável.

O projeto é coordenado pelo Forum for Agroecological Studies and Transitions (FAST), do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, e decorre entre janeiro de 2026 e janeiro de 2030. A investigação incide nas Reservas da Biosfera do Tejo/Tajo Internacional (Portugal/Espanha), Ilha do Fogo (Cabo Verde), Ilha do Príncipe (São Tomé e Príncipe) e Mata Atlântica (Brasil).

 

CPLP Agroecology Nexus (ROOT)

Notícias e Eventos

A biodiversidade não é um tema estático — e o trabalho desta Cátedra também não. Há sempre investigação em curso, parcerias a construir, eventos a acontecer, resultados a partilhar. Esta secção é o lugar onde esse movimento se torna visível.

Aqui encontra as novidades mais recentes da Cátedra — publicações, projetos, conferências, iniciativas de formação, momentos de ciência cidadã e participação em fóruns internacionais —, a agenda dos próximos eventos, e um arquivo que documenta uma década de atividade. Para receber as novidades diretamente, pode subscrever a nossa newsletter.

Notícias

Publicações científicas, lançamentos de projetos, resultados de investigação, participações em conferências internacionais, novas parcerias, iniciativas de formação e comunicação de ciência — tudo o que acontece no âmbito desta Cátedra tem aqui o seu registo. As notícias estão organizadas cronologicamente e por tema. >>

Agenda

Conferências, workshops, seminários, webinars, cursos de curta duração, eventos de ciência cidadã, visitas de investigadores — a agenda desta Cátedra reflete a intensidade de uma plataforma de cooperação internacional ativa. Os eventos futuros estão aqui listados com toda a informação disponível sobre inscrições, programas e participação. >>

Arquivo

Uma década de trabalho deixa um rasto. O arquivo documenta os eventos passados, as publicações anteriores, os projetos concluídos e os momentos que marcaram a história desta Cátedra — desde a sua criação em 2013 até ao presente. É um registo de continuidade e de evolução, útil para quem quer compreender o percurso que nos trouxe até aqui.