O CFE marca presença no especial do Diário de Coimbra dedicado ao Dia Mundial do Ambiente 2026, sob o mote “O Mundo em alerta para a ação climática”.
Neste contexto, as investigadoras do CFE Susana Rodríguez Echeverría e Cristina Nabais assinam o artigo “Alterações Climáticas na Serra da Estrela: alertas dados pela Universidade de Coimbra”, onde analisam os impactos das alterações climáticas em ecossistemas de montanha. Pode ler abaixo o texto completo:

A Serra da Estrela, a cadeia montanhosa mais alta de Portugal continental abriga ecossistemas subalpinos únicos e ricos em espécies endémicas. No entanto, as zonas de montanha são a linha da frente das alterações climáticas, sentindo o aquecimento global de forma mais intensa do que as terras baixas envolventes. Os dados não deixam margem para dúvidas, a temperatura média anual do ar na Serra subiu de 9 °C em 1970 para 10,9 °C em 2024. A par deste aquecimento, regista-se um decréscimo da precipitação e uma redução drástica da cobertura de neve, menos 5,4 dias por década. As projeções climáticas alertam para um aquecimento drástico ao longo do século XXI, apontando para planaltos mais secos e quentes. Prevê-se que o Planalto da Torre venha a apresentar condições climáticas semelhantes às que a Serra da Gardunha, de altitude muito inferior, regista atualmente.
Este cenário altera profundamente a dinâmica sazonal das comunidades biológicas e aumenta a frequência e a dimensão dos incêndios, uma das maiores ameaças à biodiversidade mediterrânica. Contudo, a acentuada heterogeneidade topográfica da Serra pode criar micro-refúgios mais frescos ou promover a variabilidade adaptativa das plantas. É por isso que a monitorização à escala local é absolutamente essencial para orientar as estratégias de restauro ecológico.
O MountainLab do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra tem focado a sua investigação na compreensão e mitigação dos efeitos destas alterações climáticas na Serra da Estrela. Os estudos que conduzimos nas pastagens de altitude revelam dinâmicas complexas. Se, por um lado, o aumento da temperatura altera a composição das comunidades vegetais e incrementa a sua biomassa, por outro, reduz o azoto foliar no cervum, a espécie dominante nestes ecossistemas. Na prática, isto significa uma diminuição do valor nutricional do pasto que alimenta os rebanhos locais. Paralelamente, assistimos a uma perda de biodiversidade, com o declínio de espécies endémicas adaptadas ao frio e a expansão de espécies dominantes, o que torna os ecossistemas mais pobres e vulneráveis. Estas mudanças dependem, no entanto da disponibilidade de água, e por isso agora estamos a estudar melhor as diferenças entre sítios húmidos e secos. Nas zonas altas, as alterações climáticas também afetam as espécies arbustivas como o zimbro e o piorno. O aumento de temperatura promove um maior crescimento de ambas espécies, embora respondem de forma diferente ao aumento térmico na primavera e no outono. A taxa de crescimento, no entanto, depende novamente da precipitação no inverno e na primavera.
No âmbito do nosso projeto mais recente, alargámos os estudos às florestas de montanha. Combinamos monitorização climática, trabalho de campo e tecnologias de teledeteção remota para compreender os impactos do clima nestes valiosos ecossistemas. Dada a elevada incidência de grandes incêndios na Serra da Estrela nos últimos anos, incluímos a monitorização da recuperação das áreas ardidas. O nosso grande propósito é cruzar as condições climáticas e biológicas locais com os padrões de crescimento e regeneração destas florestas. Só com dados científicos robustos será possível otimizar as estratégias de conservação e definir estratégias de gestão ativa que ajudem a mitigar o impacto climático, tais como a manutenção do pastoreio e usos tradicionais, a proteção de microhabitats ou a migração assistida de espécies sensíveis.
