
O seminário «Práticas de Experiências e Metodologias» é concebido como um espaço de reflexão crítica, troca e experimentação sobre os caminhos metodológicos nas ciências sociais, nas humanidades e em estudos aplicados. Reconhecendo a centralidade do método na construção do conhecimento, este ciclo de encontros pretende destacar não apenas as técnicas de pesquisa, mas os fundamentos epistemológicos e políticos que orientam o fazer científico e a produção de sentido.
Num momento em que os campos acadêmicos vivem uma crescente pluralização de abordagens, este seminário permanente propõe-se a revisitar tanto metodologias clássicas como emergentes, com ênfase na triangulação entre métodos, técnicas e práticas de pesquisa, superando dicotomias artificiais entre abordagens quantitativas e qualitativas. O objetivo é valorizar o rigor e a densidade teórica tanto na observação empírica quanto na interpretação crítica, promovendo investigações que sejam metodologicamente transparentes e socialmente relevantes.
A programação contempla técnicas como Análise e Pesquisa Documental, Autoetnografia, Entrevistas e Depoimentos, Estudos de Rede e Análise Relacional, ao lado de abordagens que dialogam com os Estudos de Gênero, os Estudos Culturais, a Ciência Anarquista, os Estudos de Educação, as Artes Visuais e os estudos sobre Patrimônio em suas múltiplas dimensões (material, imaterial, natural, simbólica).
Ao articular essas abordagens, o seminário enfatiza a importância de que todo trabalho acadêmico – em especial nos níveis de mestrado e doutorado – explicite seu percurso metodológico com clareza, coerência e reflexividade. O rigor metodológico não se resume à aplicação técnica, mas se manifesta no esforço de construir dispositivos que permitam compreender os fenômenos em sua complexidade, respeitando suas escalas, temporalidades e sujeitos.
Mais do que apresentar um inventário de técnicas, este seminário pretende contribuir para o fortalecimento de uma ética da pesquisa comprometida com a pluralidade epistemológica, a crítica de fontes e o escrutínio das formas de dominação do saber, valorizando inclusivamente trajetórias e vozes historicamente marginalizadas.
Próximas sessões
Programa
14h (Brasília) | 18h (Lisboa, até 24/10) / 17h (Lisboa, a partir de 25/10)
4 de setembro, sexta-feira (14h BR, 18h PT) — Sessão Cancelada, irá ser remarcada em breve
Entre Filologia Eletrônica e Hermenêutica da Prática: reflexões por um uso informado e crítico da Inteligência Artificial na pesquisa histórica
Anita Lucchesi
A disseminação de ferramentas de inteligência artificial (IA) e IA generativa (IAGen) na pesquisa histórica impõe a necessidade de uma reflexão metodológica que vá além da discussão de sua adoção instrumental. Esta apresentação discute o que significa um uso informado e crítico dessas tecnologias no fazer histórico, partindo da premissa de que o letramento em IA, para o historiador, constitui antes uma extensão do próprio ofício do que uma competência técnica genérica. Propõe-se que a crítica das fontes, gesto fundador da disciplina, pode e deve ser transposta ao ambiente algorítmico: perguntar pela proveniência dos dados de treinamento, pelos contextos de produção e pelos regimes de verdade que sustentam determinado resultado é exercício metodológico contínuo com a tradição historiográfica, não ruptura com ela. Discute-se também como a opacidade característica dos sistemas de IA/IAGen, que tendem a privilegiar padrões generalizantes e reproduzir viéses em detrimento da preservação do detalhe singular e orgânico dos fatos humanos, impõe desafios específicos à pesquisa histórica. A partir de exemplos de prática concreta de pesquisa, argumenta-se em favor de uma experimentação sistemática e documentada com essas ferramentas, na qual a postura crítica do historiador permanece o critério decisivo para a incorporação responsável das IAs na oficina da história.
Anita Lucchesi – Doutora em História pela Universidade de Luxemburgo (2020), professora adjunta no Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora colaboradora na Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz. É co-investigadora do software de gerenciamento de fontes primárias Tropy (Digital Scholar) e docente colaboradora no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Realizou estágios pós-doutorais no Centro de História Contemporânea de Potsdam (ZZF, 2020) e no Centro de História Contemporânea e Digital (C2DH/UNILU, 2023-2024). Pesquisa história pública digital, teoria e metodologia histórica, história oral, estudos de memória, usos de Inteligência Artificial na história e divulgação científica. http://lattes.cnpq.br/2768895341773857
2 de outubro, sexta-feira (14h BR, 18h PT)
Agentes de inteligência artificial para pesquisa acadêmica
Rafael Cardoso Sampaio
Os recentes avanços da inteligência artificial inauguraram uma nova etapa da pesquisa acadêmica, em que agentes de IA deixam de apenas responder perguntas para executar fluxos completos de trabalho, apoiando atividades como revisão de literatura, fichamento, organização de referências, análise de documentos, síntese de resultados e redação preliminar. Esta sessão apresentará os fundamentos desse novo paradigma, discutindo como pesquisadores podem incorporar agentes de IA às suas práticas de maneira crítica, ética e metodologicamente rigorosa, sem necessidade de conhecimentos de programação. Serão exploradas estratégias para contextualizar agentes com projetos de pesquisa, conectar ferramentas a gestores bibliográficos e bases acadêmicas, estruturar fluxos de trabalho e avaliar criticamente os resultados produzidos. Ao mesmo tempo, serão discutidos os limites dessas tecnologias, incluindo problemas de alucinação, confiabilidade das informações, integridade científica, proteção de dados e crescente dependência das grandes plataformas tecnológicas. Mais do que uma demonstração de ferramentas, a sessão propõe refletir sobre as transformações em curso na produção do conhecimento científico e sobre o papel do pesquisador num contexto em que a IA amplia a capacidade de execução, mas não substitui o julgamento, a interpretação, a responsabilidade intelectual nem a condução do método científico.
Rafael Cardoso Sampaio – Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista produtividade do CNPq nível 1D. Coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade. Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Transformações da Participação, do Associativismo e do Confronto Político (INCT Participa). Foi presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica) entre 2019 e 2021. Já atuou como consultor do Banco Mundial, Bertelsmann Foundation (Alemanha), Adam Smith International (Reino Unido), Organização de Estados Ibero-Americanos – OEI, Ministério da Educação e já foi assessor de pesquisas do Comitê Gestor da Internet (CGI.br), Labhacker (Câmara dos Deputados), W3C Brasil e Centro de Estudos sobre Tecnologias Web, Instituto Democracia em Xeque e Transparência Internacional. Tem experiência nas áreas de Comunicação Política e Democracia Digital com ênfase em campanhas digitais, e-participação, deliberação e conversações on-line, governo aberto, orçamentos participativos digitais e inteligência artificial. http://lattes.cnpq.br/6603480808884218
7 de outubro, quarta-feira (14h BR, 18h PT)
Pesquisar prisões: arquivos, fontes e caminhos metodológicos
Viviane Trindade Borges
Esta apresentação propõe discutir possibilidades e desafios metodológicos colocados pela pesquisa em arquivos prisionais. Prontuários, regulamentos, relatórios, fotografias, cartas, petições e outros registros permitem acessar diferentes dimensões do encarceramento, mas exigem considerar as condições institucionais de produção, seleção, organização e preservação desses documentos. A partir de experiências de pesquisa desenvolvidas em diferentes acervos, interessa refletir sobre os modos de ler documentos produzidos para administrar, vigiar e classificar indivíduos; sobre as possibilidades de localizar, nesses mesmos arquivos, escritos produzidos pelas próprias pessoas presas; e sobre os vestígios documentais e materiais de instituições prisionais desativadas, demolidas ou transformadas. A proposta busca discutir como os problemas encontrados no arquivo — ausências, silêncios, dispersões e sobrevivências documentais — participam da própria construção do objeto de pesquisa.
Viviane Trindade Borges – Professora Titular da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), docente do curso de graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC e do Mestrado e Doutorado Profissional em História (ProfHistória). Foi professora e pesquisadora visitante em: Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES, 2019), Université Paris 8 (2024), Institut de Histoire du Temp Présent (IHTP, 2024), Universidade Católica Portuguesa (2026 Bolsa FCT). É Pesquisadora Associada do Institut de Histoire du Temp Présent (IHTP/Paris). Coordenadora do Programa de extensão Permanente Arquivos Marginais. É Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Atualmente, realiza estágio pós-doutoral na Universidad Nacional de San Martín (UNSAM), na Argentina. http://lattes.cnpq.br/7894211226879077
6 de novembro, sexta-feira (14h BR, 17h PT)
Entrevistas através da História Oral
Joana Ralão e Maria Fernanda Rollo
A História Oral constitui simultaneamente um campo de investigação, uma metodologia e um conjunto de práticas destinadas à produção, análise e preservação de fontes orais. Nesta sessão, serão discutidos os princípios que orientam a preparação e a realização de entrevistas, considerando as diferentes etapas de um projeto: definição dos objetivos, seleção dos participantes, elaboração do roteiro, escolha do tipo de entrevista, registo em áudio ou vídeo e organização da documentação produzida. Especial atenção será dedicada às técnicas de questionamento e de escuta ativa, bem como à relação construída entre entrevistador e entrevistado. A entrevista será abordada não como simples recolha de informações, mas como processo de produção situada de narrativas, atravessado pela memória, pela subjetividade e pelas condições sociais em que o testemunho é construído. A sessão tratará ainda dos desafios éticos e legais associados ao consentimento, à identificação dos participantes, ao acesso e à divulgação dos depoimentos. Por fim, serão discutidos procedimentos de transcrição, validação, interpretação e articulação das fontes orais com outros documentos, bem como questões relativas ao seu armazenamento, preservação e eventual constituição de arquivos de História Oral.
Joana Ralão — Doutoranda em História Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Mestre em História Contemporânea e Licenciada em História pela mesma instituição. Investigadora Integrada no História, Territórios e Comunidades (HTC), pólo na NOVA FCSH do Centro de Ecologia Funcional (CEF). A sua tese de Doutoramento é dedicada à participação das mulheres no movimento estudantil português contra a ditadura do Estado Novo (1956-1974). https://www.cienciavitae.pt/portal/B619-64C7-B973
Maria Fernanda Rollo — Historiadora. Doutorada e Agregada em História Contemporânea. Professora Catedrática do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Coordenador do Programa de Doutoramento em História. Coordenador do curso de pós-graduação em Gestão e Política em Ciência e Tecnologia. Membro do Conselho de Investigação do European University Institut. Investigador do CFE – História, Territórios e Comunidades. Investigador do Instituto de História Contemporânea (1995-2020). https://www.cienciavitae.pt/portal/pt/F91D-2B9A-5767
27 de novembro, sexta-feira (14h BR, 17h PT)
Evolução de espaço e território: retrospectivas conceituais e contribuições da Geografia às ciências sociais
Eduardo Berkenbroch Lopes
Em tempos marcados pela globalização acelerada, pela reconfiguração tecnológica dos fluxos e pelo surgimento de novas territorialidades, a revisão crítica dos fundamentos conceituais de espaço e território tem relevância central para a compreensão desses novos tempos. Esta apresentação retoma os fundamentos da tradição epistemológica da Geografia, examinando a evolução das concepções de espaço – do suporte físico até a ideia de um espaço relacional – e de território – como produto de relações de poder, identidade e controle. Partindo de uma análise crítica da Geografia, explora-se ainda a atual ampliação desses conceitos diante do processo de globalização, que impõe novas escalas, acelera fluxos e redefine fronteiras materiais e imateriais. Serão abordadas as contribuições da Geografia às ciências sociais, com destaque para os reflexos e condicionantes da globalização sobre a produção do espaço geográfico. A discussão é aplicada a exemplos concretos de reconfigurações territoriais atuais, evidenciando a importância de diferenciar abordagens teóricas e seus usos na interpretação de fenômenos como as redes e desigualdade espacial. Defende-se, por fim, que tal análise se apresenta como uma ferramenta essencial para o diálogo interdisciplinar sobre tecnologia, poder e sociedade.
Eduardo Berkenbroch Lopes – Possui graduação em Geografia pela UFPR (2013), mestrando em Ciência e Tecnologia pela UTFPR. Professor de Geografia na educação básica. http://lattes.cnpq.br/4478174044837788
