Luís Duarte Melo (investigador independente)
Nasceu em Santarém em 1963. Licenciado em Engenharia Agrícola, Pós-Licenciado em Economia Europeia e Master in Business Administration, tem dedicado a sua vida profissional à gestão de empresas. Desde há muito que investiga, redige e publica monografias relativas à sua região de origem – o Bairro ribatejano. É autor de Santa Casa da Misericórdia de Alcanede: Memória e Identidade (2020), A. Montez: Um Percurso Secular (2022) e Crónica da Igreja de Alcanede (2022), co-autor de Nova Monografia de Alcanede (2005), Serranos, Campinos e Bairrões: Etnografia e Falares do Ribatejo (2023), e organizador de Porto de Mós na História e na Lenda (2025). É membro do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão.
Resumo:
Em 1936 fazia-se sentir em pleno em Portugal a ação do Secretariado da Propaganda Nacional, encarregue de conceber e implementar a política do espírito e promover uma imagem eficaz do regime.
A retórica nacionalista e regionalista do Estado Novo não descurou o contributo da etnografia, no estudo e promoção dos aspetos representativos de cada província, como as tradições populares, o folclore e os regionalismos linguísticos.
No mesmo ano, em Santarém, a Exposição-Feira Distrital, visitada por cerca de 400 mil pessoas, afirmava a pujança do Ribatejo, do seu povo e da cidade capital da Província então criada, destacando-se da antiga Estremadura.
Procurando dar unidade e identidade a um espaço diverso, nem sempre atendendo à história dos lugares, foi a nova Província do Ribatejo definida pelas características do seu núcleo central, com cabeça em Santarém e constituída por três sub regiões distintas: a Lezíria, o Bairro e a Charneca.
Do núcleo central – a lezíria – irá surgir o arquétipo do homem ribatejano: o campino decidido, garboso, valente, secundarizando outras figuras da Lezíria, ou o povo do Bairro, da Charneca e da Serra.
O discurso identitário e turístico da nova província afunilava-se nos estereótipos do campino, do fandango e das touradas, produtos de uma vida rural harmoniosa, rude e pitoresca, mas redutoras de uma vasta região, rica na sua diversidade natural e humana.
Aos 55 anos, Serra Frazão, oposicionista, estava oficialmente afastado destes acontecimentos que tinham epicentro na sua cidade. Procurava, ainda, refazer-se de um contratempo maior da sua vida – a perda da voz em consequência de um cancro na laringe. Procurou então uma forma singular de participar nesta dinâmica, dando a sua visão da alma ribatejana, por intermédio do seu mosaico cultural popular.
Resolve, então, dar voz e valorizar a identidade cultural de sub regiões, personagens e segmentos sociais esquecidos – barqueiros, ratinhos, seareiros, pastores, tosquiadores, ciganos, cardadores, moirais, valadores, etc., sem esquecer os campinos, de quem escreveu textos admiráveis.
Às visões únicas, politicamente orientadas e impostas a toda uma região, Frazão descreve um Ribatejo diverso, em mudança, sem esquecer as mensagens de apelo cívico e transformador, presentes em toda a obra literária deste autor.
A região serrana, a norte do Bairro, agora parte do Ribatejo, mas omissa do roteiro oficial da Junta de Província, zona de fronteira desde a Reconquista afonsina, foi a primeira a merecer a sua atenção. Frazão traz à liça a sua aldeia natal e os seus serranos que “vivem numas covadas, outrora ermos inhóspitos, das serras de Minde e de Albardos”, redigindo o “Vocabulário da Serra de Santo António”, de que fez publicar alguns apontamentos no jornal O Diabo (1937), dirigido por Manuel Rodrigues Lapa.
Foi este intelectual, também opositor ao regime de Salazar, que o colocou em contacto com Leite Vasconcelos, o sábio que, aos 80 anos, mantinha o espírito e o intelecto ao serviço do seu grande labor de vida: descrever e preservar a cultura tradicional do povo português, antes que se desvanecessem as suas antigas formas.
O “Vocabulário” foi publicado em 1938 na Revista Lusitana, dirigida por Leite. Esta colaboração resultou em novas publicações na “Revista Lusitana”, de que destaco o pioneiro trabalho sobre o “Calão de Minde” (1939). Seguiram-se novos trabalhos que incorporaram o legado de Leite de Vasconcelos (f. 1941), os quais só seriam publicados em 2023 em “Serranos, Campinos e Bairrões: Etnogarfia e Falares do Ribatejo”.
Nesta comunicação, proponho-me traçar a multifacetada biografia de Francisco Serra Frazão (1881-1948) e contextualizar a relação que manteve com José Leite de Vasconcelos entre 1938 e 1940. Este é o ponto de partida para uma visita ao quotidiano da alma ribatejana, por intermédio da língua portuguesa na boca do povo, cobrindo aspetos como condições materiais, crença, mito e sabedoria ancestral das comunidades da Serra, Lezíria e Bairro ribatejano2.