O IX Congresso de História Local aspira acompanhar e estimular a renovaçãohistoriográfica em curso; assim, dá continuidade aos propósitos e dinâmicas iniciados em 2017, proporcionando um espaço de divulgação, de partilha e de problematização para todos quantos se dedicam a este ramo da historiografia, em diálogo permanente com a historiografia nacional e internacional. Tal como nas edições anteriores, o encontro pretende continuar a ser um contexto privilegiado para a reflexão sobre o conceito, as metodologias e as práticas da história local; por extensão, constitui-se como uma oportunidade para troca de experiências.

Do mesmo modo, os princípios subjacentes à organização do congresso fomentam a intervenção de estudantes de último ano de licenciatura e de primeiro de mestrado, com o intuito de obterem as primeiras experiências no meio académico.

Detalhes do evento

Data

07 a 08 de novembro de 2025

Localização

Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça

R. José Relvas, 2090-102, Alpiarça

Resumo

FONTES E HISTÓRIA DE ALPIARÇA

Os Cardigo, de Alpiarça (sécs. XIX-XX): história e peripécias de uma família de proprietários e lavradores

António R. Telles Costa (HTC – NOVA FCSH / CFE–UC)

Licenciado em História (NOVA FCSH, 2019), mestre em História Contemporânea (NOVA FCSH, 2021), com a dissertação «José Pereira Palha Blanco (1854-1937): um cacique e um lavrador da lezíria ribatejana», e doutorando em História Contemporânea (NOVA FCSH), desenvolvendo uma investigação em torno da Real Associação Central da Agricultura Portuguesa. Investigador integrado do História, Territórios e Comunidades, um pólo na Nova FCSH do Centro de Ecologia Funcional – Ciência para as Pessoas e o Planeta – da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e bolseiro de investigação para doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

 

Resumo:
As elites locais, durante o século XIX e ainda nos princípios do século XX, comandaram as actividades económicas da região e, por vezes, representaram o poder político. Na sua maioria foram capitalistas agrários, detentores de grandes propriedades, e dedicaram-se aos «negócios agrícolas, na defesa e alargamento do património». Na história local do concelho de Alpiarça, associada a diversas instituições e individualidades de vários extractos sociais, foram alguns os que se destacaram na sociedade pelas obras de benemerência e pela aposta na mecanização, modernização e desenvolvimento industrial e agrícola.

A família Cardigo, oriunda de Vila de Rei (Mação), estabeleceu-se em Alpiarça na primeira metade do século XIX e conseguiu construir uma casa agrícola com grande dimensão nos concelhos de Alpiarça, Almeirim, Chamusca e Coruche, ainda que as primeiras gerações não explorassem as terras e fossem apenas suas detentoras. A par da ligação à agricultura, através da propriedade, e aos negócios de investimento, através de acções, a história desta família ficou marcada por diversas peripécias trágico-cómicas: um agiota que fez fortuna com juros excessivamente altos; uma viúva que desconhecia a realidade do marido; uma esposa obrigada a tolerar a relação e filhos que o marido mantinha com a criada; um solteirão capitalista e bon vivant com um processo judicial de paternidade depois de finado; um lavrador e proprietário a ter que resolver as quezílias entre os empregados; etc.

Deste modo, com esta comunicação, pretende-se traçar um breve estudo sobre alguns membros da família Cardigo, de Alpiarça, com o objectivo de compreender a sua movimentação e acção nas sociedades locais de Alpiarça e arredores, durante os séculos XIX e XX.

Fontes para a História Local: Alpiarça nos arquivos da Secretaria-Geral da Administração Interna (SGMAI)

Cidália Ferreira, Ana Graça e Ana Vassalo (SGMAI)

 

Ana Graça
Mestre em Gestão e Curadoria da Informação na Universidade Nova de Lisboa –
FCSH/Nova IMS. Possui formações em Gestão Documental, ministradas pela APBAD. Licenciada em História pela Universidade Aberta. Mestre em Arqueologia Pré-Histórica e Arte Rupestre, pós-graduada em Aplicações Informáticas à Arqueologia e licenciada em Conservação e Restauro, variante Arqueologia da Paisagem. Exerceu funções como Técnica Superior e como formadora em Ambiente e Património, no Instituto Politécnico de Tomar. É atualmente Técnica Superior na Divisão de Documentação e Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Ana Vassalo
Licenciada em História, variante História de Arte, com Pós-graduação em Ciências
Documentais (variante Arquivo) e mestrado em Ciências Documentais. Exerceu funções de bibliotecária na Biblioteca Municipal da Câmara Municipal da Amadora, de arquivista no Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Lisboa e na área de recursos humanos na Junta de Freguesia de Benfica. Atualmente exerce funções de Técnica Superior de Arquivo, na Divisão de Documentação e Arquivo, na Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Cidália Ferreira
Licenciada em História, com pós-graduações em Ciências Documentais – variante Arquivo e em Assessoria da Comunicação. Foi arquivista na Divisão de Gestão de Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção-Geral do Tesouro e Finanças e na Secretaria- Geral do Ministério das Finanças. Formadora na área da Gestão Documental em vários organismos públicos, foi docente no curso de pós-graduação em Ciências da Informação e Documentação no Instituto Superior de Línguas e Administração. Presentemente, é Chefe da Divisão de Documentação e Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

 

Resumo:
A história dos concelhos do distrito de Santarém, como é o caso do de Alpiarça, pode ser reconstruída a partir da documentação existente nos acervos sob a guarda do Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna (SGMAI). Uma parte significativa deste acervo é constituída por documentos oriundos dos antigos Governos Civis, que, pela sua natureza regional, têm grande relevância para a historiografia local.
Com a extinção das competências dos Governos Civis, nos termos da Lei Orgânica n.º1/2011 e do Decreto-Lei n.º 114/2011, de 30 de novembro, as atribuições dos Governadores Civis foram transferidas para diferentes entidades da Administração Pública. Relativamente aos arquivos, a SGMAI ficou responsável pela sua gestão e conservação, conforme o artigo 31.º, n.º 1, do referido Decreto-Lei, garantindo o tratamento, preservação e disponibilização adequados. Neste contexto, uma parte do arquivo histórico do Governo Civil de Santarém é tutelado pela SGMAI https://agc.sg.mai.gov.pt

Este é um dos fundos, que servirá de base para a recolha documental e apresentação sobre o concelho centenário de Alpiarça, cuja história religiosa, cultural, comercial e política encontramos nos documentos que divulgamos.

Neste contexto, recuperaremos documentos como: as Participações da Aquisição de Personalidade Jurídica de Associações do Foro Canónico; a constituição de

Associações, o Compromisso da Misericórdia; correspondência com o Governo Civil; Processos de Apoio ao Retorno de nacionais (1974-1984) e Processos de Atos Eleitorais.

A praça de jorna como epicentro dinamizador das lutas laborais em Alpiarça

Ricardo Hipólito (investigador independente)

Natural de Alpiarça. Nascido a 17.06.1957. Licenciado pelo Instituto Superior de
Agronomia. Inspetor no Ministério da Cultura, Juventude e Desporto.
Desenvolve recolhas orais de memórias em Alpiarça. Entre elas destaque para a vida dos avieiros, património industrial arqueológico, trabalho do campo e vivências urbanas. Tem-se dedicado à fotografia e à recolha das memórias em fotografia. Colabora em jornais da região. Publicou obras como “Manuel António, a arte de criar um melão”, “Os arroteadores do Vale da Lama da Atela e d’outros vais – A saga da terra e do pão” e “A praça de jorna em Alpiarça – A saga do trabalho e da dignidade”.

 

Resumo:
A maioria da área do concelho de Alpiarça foi, desde os grandes enxugos da lezíria, ocupada por vinhedos e culturas arvenses.
O setor primário ocupava, assim, a quase totalidade da mão-de-obra braçal. Desde os finais do século XIX que os operários rurais alpiarcenses começaram a manifestar a sua incompreensão pelo destino a que estavam fadados.
Passaram a manifestar intenções reivindicativas, na altura quase sempre dirigidas apenas a questões meramente de natureza salarial.
Sem estruturas organizativas, o embrião das lutas tinha lugar nas concentrações semanais dos trabalhadores rurais – a praça de jorna – geralmente a partir de atitudes emotivas perante injustiças.

Nos grandes comícios de Verão de 1907 no Ribatejo, o povo de Alpiarça esteve entre os que acolheram os líderes republicanos. A adesão de José Relvas e de outras figuras gradas da terra às ideias republicanas, com o seu poder de influência na comunidade fazia com que estas começassem a propagar-se à massa popular e, com isso, o sentido de revolta, em busca de um sistema político mais justo que não a Monarquia.
A implantação da República cria grandes expetativas aos alpiarcenses, mormente aos trabalhadores rurais. Mas cedo as contradições do novo regime faz com que se comece a esvair a esperança de um mundo melhor.

Em meados de 1911 há greves em Alpiarça, respondendo o regime com o envio de forças militares para repor a ordem. As paragens ao trabalho continuariam assim como as subsequentes medidas repressivas, ao ponto da Associação dos Trabalhadores Rurais de Alpiarça, criada em 1912, ter sido mandado fechar, os seus bens apreendidos e presos dirigentes sindicais.

Em 1919 ocorre a primeira vítima mortal em resultado de confrontos derivados de conflitos laborais na praça de jorna.
Ao longo dos anos seguintes, a insatisfação dos trabalhadores do campo não diminuiu assim como a repressão, com constantes prisões e algumas deportações.

Chegados à década de 40 do século passado, o PCP implanta-se em Alpiarça.
As lutas, não só por melhores condições de trabalho e ou de salário mas também iminentemente políticas (como contra a fraude eleitoral na eleição presidencial de junho de 1958, as comemorações do 1º de Maio, 5 de Outubro e do Dia da Mulher), começam a ter o seu epicentro na praça de jorna, depois da análise e discussões nos ranchos agrícolas e nas estruturas partidárias.

O nível organizativo dos operários agrícolas de Alpiarça atingiu tal nível que, aquando das grandes lutas pela jornada das 8 horas nos campos do Alentejo e Ribatejo, em Alpiarça, a jornada já tinha uma duração inferior (com horários de inverno e verão distintos).
As lutas não ficaram dissociadas da ação do aparelho repressivo. A PIDE montou um posto em Alpiarça e a GNR não era menos tenebrosa que aquela polícia.

Alpiarça seria uma terra mártir com um saldo de mais de uma centena de presos políticos, que cumpririam mais de 26 mil dias de prisão e que vários dos seus filhos viveriam aproximadamente 28 mil dias de clandestinidade, quer uns, quer outros na sua maioria homens e mulheres do campo.

Os impactos da ditadura do Estado Novo nas famílias dos opositores políticos de Alpiarça

Marianela Valverde (HTC – NOVA FCSH / CFE–UC)

É licenciada em Comunicação e Jornalismo pela ULHT-Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e Mestre em História Contemporânea pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Doutorada em História na vertente de História Contemporânea na FCSH-Universidade Nova de Lisboa. Centra a sua investigação nos impactos e nos processos de resistência dos familiares dos opositores políticos à ditadura do Estado Novo. Como áreas de interesse e de investigação destaca a História da resistência aos regimes fascistas e a Roda dos Expostos no concelho de Almada (1805- 1867).

 

Resumo:

À distância de cinquenta e um anos do términus da ditadura do Estado Novo, constata-se  que a construção historiográfica em torno da resistência se tem centrado quase exclusivamente  nos actores políticos enquanto presos políticos, clandestinos, exilados ou deportados, como  marcos contra o regime e os seus processos de militância, partindo dos múltiplos significados  resultantes dos domínios da perseguição, da violência e da tortura. Todavia, não basta evocar os  opositores políticos quando abordamos a questão da resistência. Esta convocação, sendo parcelar,  induz à interpretação de que foram estes os seus exclusivos actores, o que gera uma avaliação  enviesada do concreto panorama do resistir que existiu no período do regime fascista do Estado  Novo, tendo em conta que os processos de resistência à ditadura provenientes dos familiares  destes opositores políticos são também elementos constituintes da História. A revelação de novos  aspectos que os testemunhos das famílias dos opositores de Alpiarça apresentam, permitem o  desvendar de acontecimentos históricos desconhecidos, constituindo como tal, um elemento  valioso para a construção da memória social.

PROBLEMÁTICAS, METODOLOGIAS E ARQUIVOS

História Local na Contemporaneidade: Fundamentos, Práticas e Desafios

Ricardo Charters-d’Azevedo (investigador independente)

Engenheiro eletrotécnico. Investigador em Património e História de Leiria com mais de 28 livros publicados sobre estes temas. Ex-docente universitário, ex-alto funcionário na administração portuguesa e europeia, académico honorário da Academia Portuguesa da História, membro da Associação Portuguesa de Genealogia e da Associação da Nobreza Histórica de Portugal. Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, “Personalidade do Ano em 2012” (semanário Região de Leiria) e Medalha de Ouro da cidade de Leiria.

 

Resumo:
A comunicação propõe uma breve reflexão sobre a História Local na Contemporaneidade, explorando os seus fundamentos, metodologias, exemplos práticos e desafios. Longe de ser uma narrativa secundária ou meramente anedótica, a História Local afirma-se hoje como campo historiográfico de relevância social, articulando o estudo de comunidades específicas com escalas regionais, nacionais e globais.

Partindo da experiência de 20 anos de investigação em Leiria, apresentam-se exemplos de práticas concretas que podem transformar a História Local num laboratório de memórias: projetos escolares no Castelo de Leiria, recolhas orais ligadas aos Mercados, roteiros narrativos, visibilização de histórias subalternas e a digitalização de arquivos. Estes exemplos dão importância à interdisciplinaridade, ao uso de fontes diversas (documentais, orais, materiais e digitais) e à participação comunitária no processo historiográfico.

Particularizando, identificam-se cinco desafios centrais: representatividade, articulação de escalas, validação metodológica, ética da proximidade e comunicação acessível. Sustenta-se que a História Local não é apenas investigação, mas também é um ato cívico e ético, contribuindo para a democratização da memória, para a formação de cidadãos críticos e para a coesão social. Conclui-se que a História Local é simultaneamente rigor científico e ação cultural, memória e futuro, sendo indispensável para a construção de identidades partilhadas e participativas.

História Local, Arquivos Centrais: o distrito de Santarém no acervo arquivístico da Secretaria-Geral da Administração Interna (SGMAI)

Cidália Ferreira, Ana Graça e Ana Vassalo (SGMAI)

 

Ana Graça
Mestre em Gestão e Curadoria da Informação na Universidade Nova de Lisboa –
FCSH/Nova IMS. Possui formações em Gestão Documental, ministradas pela APBAD. Licenciada em História pela Universidade Aberta. Mestre em Arqueologia Pré-Histórica e Arte Rupestre, pós-graduada em Aplicações Informáticas à Arqueologia e licenciada em Conservação e Restauro, variante Arqueologia da Paisagem. Exerceu funções como Técnica Superior e como formadora em Ambiente e Património, no Instituto Politécnico de Tomar. É atualmente Técnica Superior na Divisão de Documentação e Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Ana Vassalo
Licenciada em História, variante História de Arte, com Pós-graduação em Ciências
Documentais (variante Arquivo) e mestrado em Ciências Documentais. Exerceu funções de bibliotecária na Biblioteca Municipal da Câmara Municipal da Amadora, de arquivista no Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Lisboa e na área de recursos humanos na Junta de Freguesia de Benfica. Atualmente exerce funções de Técnica Superior de Arquivo, na Divisão de Documentação e Arquivo, na Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Cidália Ferreira
Licenciada em História, com pós-graduações em Ciências Documentais – variante Arquivo e em Assessoria da Comunicação. Foi arquivista na Divisão de Gestão de Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção-Geral do Tesouro e Finanças e na Secretaria- Geral do Ministério das Finanças. Formadora na área da Gestão Documental em vários organismos públicos, foi docente no curso de pós-graduação em Ciências da Informação e Documentação no Instituto Superior de Línguas e Administração. Presentemente, é Chefe da Divisão de Documentação e Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

 

Resumo:
A presente proposta de comunicação pretende apresentar alguns fundos possíveis de serem investigados nos arquivos à guarda da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna. Subordinamos, a nossa apresentação àqueles passíveis de interessar à história do distrito de Santarém.
Os fundos sob responsabilidade da SGMAI são vários e oferecem importantes recursos para a investigação da história nacional. Ainda que de cariz centralizador, o organismo recebe e emite contributos de todas as regiões, tornando-o uma fonte de informação credível para a historiografia local.
A missão atribuída à SGMAI de gestora, legisladora e executiva torna os seus fundos relevantes. Incluem-se fundos como o do STAPE – Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral, da DGAI – Direcção-Geral da Administração Interna ou os dos Governos Civis. Esta missão de recolher e gerir parte destes documentos confere à Divisão de Documentação e Arquivo não só a responsabilidade de preservar a memória institucional, conservar o património documental e arquivístico, mas também o papel de entidade divulgadora.

O fundo documental do Governo Civil do Distrito de Santarém abrange o período entre 1718 e 2012. Ele inclui temáticas como a representação do Governo na área distrital, com destaque para imagens de figuras públicas e cidadãos em eventos de relevância, a inspeção, o licenciamento, a fiscalização, a segurança, a assistência e saúde públicas e a promoção e controlo dos atos eleitorais.

O Arquivo tem também documentação relativa aos fundos do IARN – Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, com foco na região de Santarém. Este acervo reúne, sobretudo, informações sobre as medidas de apoio e integração destinadas aos cidadãos provenientes dos antigos territórios ultramarinos, na sequência da Revolução de Abril, ou o fundo do STAPE com documentos relativos aos processos eleitorais.

A minha vida dava... um arquivo: arquivos pessoais e familiares e seu contributo para a história local

Alice Borges Gago (CEHR-UCP)

 

Resumo:
A comunicação pretende chamar a atenção para a preservação dos arquivos pessoais e familiares, não apenas de indivíduos e famílias com importância social, política e económica de uma determinada localidade, mas também para a recolha de pequenos acervos que atestam práticas sociais e/ou religiosas características de uma determinada época, ou que constituam coleções com relevância para a história local.
A experiência do UCP-CEHR neste campo é vasta. Desde a sua instituição em 1988, que tem vindo a receber fundos pessoais e/ou de famílias – Arquivos Braga da Cruz, António Lino Neto, Susan Lowndes, e mais recentemente dos Irmãos Moita ou de Benevenuto de Sousa – assim como tem prestado apoio na descrição de coleções criadas com objeHvos memoriais – como a consituída pelo Forum Abel Varzim, que resultou de uma recolha documental sobre a vida e obra do Padre Abel Varzim.

Todas essas descrições de encontram públicas na PAPIR – Plataforma de Arquivos Pessoais e de Instituições Religiosas, promovida pelo UCP-CEHR e por instituições e famílias que, dessa forma, podem divulgar os acervos que têm à sua guarda.

De Setúbal para o mundo - Olga Morais Sarmento

Pedro Martim Pereira (ECS-UÉvora) e Maria de Fátima Nunes (IHC – UÉvora / IN2PAST

 

Pedro Marim Pereira
Concluiu a Licenciatura em História e Arqueologia na Universidade de Évora (2022/2025).sendo actualmente aluno do Mestrado em História da Universidade de Évora (2025/2027).

Maria de Fátima Nunes
Catedrática de História da Universidade de Évora; Investigadora integrada IHC –
coordenador científico do G.I. Ciência- CEHFCi-UÉ. A formação de Mestrado em História das Ideias (Escola Silva Dias da Universidade de Coimbra / NOVA FCSH) teve um papel epistemológico determinante no gizar do percurso científico e académico que se assume como historiadora da cultura, tendo sido reforçado esse papel no doutoramento e na agregação. De 2015 em diante é coordenadora científica do GRUPO CIÊNCIA DO IHC, GRUPO CEHFCi da Universidade de Évora; tem assegurado a direcção científica do Programa de Doutoramento em História e Filosofia da Ciência / Museologia, e a rede História & Ciência – HETSCI na NOVA FCSH. Já no século XXI, destaco as novas formas de trabalho, redes, parcerias científicas IHC: História & Ciência, Rede de História Contemporânea; Rede de História, Indústria e Património e com a rede Journal HOST.

 

Resumo:
A cidade de Setúbal constitui o eixo fundamental para a projeção de Olga Morais Sarmento, intelectual e feminista cuja trajetória se inscreve numa trajectória entre o local e o transnacional. Como atesta o seu espólio, acolhido pelo Museu de Setúbal no antigo Convento de Jesus, adquirindo significado particular por não estar integrado num arquivo da rede institucional, mas numa instituição local de caráter municipal e aberta à comunidade. Neste gesto, a cidade assume o papel de “guardiã” da sua herança material e simbólica, inscrevendo-a na memória colectiva e afirmando a sua identidade cultural.

A escolha do museu municipal não se limita a conservar documentos e objetos, como os autógrafos do vasto fundo epistolar, transforma-se antes num espaço de mediação cultural e de cidadania ativa. Neste onde o passado dialoga com o presente e onde a comunidade participa na preservação e dinamização da sua própria história. O enquadramento museológico amplia, assim, a relevância do legado de Olga, permitindo que o mesmo seja apropriado pela cidade que a viu nascer e que, através dele, se abre novamente ao mundo.

Este movimento é ilustrado pela correspondência que Olga manteve com figuras de relevo, como Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Jules Massenet e Pierre Loti. Esses diálogos atestam a sua condição de mediadora cultural, revelando uma voz que, enraizada em Setúbal, se projetou em redes intelectuais internacionais. A trajetória de Olga materializa, deste modo, uma circulação dupla diga-se “de Setúbal para o mundo e do mundo de volta a Setúbal”. Num processo em que a cidade se afirma como protagonista ativa da História Local, recuperando uma figura esquecida e reinscrevendo-a no horizonte cultural contemporâneo.

“O Livro de Mansores” ou como foi feita a monografia de uma freguesia

José António Rocha (CEHR-UCP)

Licenciou-se em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) e tem um curso de especialização pós-graduada em Ciências Documentais pela Universidade de Lisboa. Foi gestor de ciência na UCP, em Lisboa (2002-2018), responsável do Arquivo Municipal de Vila Franca de Xira (2018-2024) e bibliotecário e arquivista na Academia das Ciências de Lisboa (2024-2025). É, desde setembro de 2025, arquivista na Biblioteca Nacional de Portugal. É também investigador colaborador do Centro de Estudos de História Religiosa da UCP e interessa-se por gestão da informação, cultura escrita, património cultural, história local e edição.

 

Resumo:
Parte das freguesias do nosso país têm aquilo a que vulgarmente se designa a sua “monografia”, ou pelo menos publicações há de carácter historiográfico, etnográfico ou memorialístico que caracterizam o seu espaço, a sua história e o seu património cultural.
Durante cerca de 20 anos, o autor desta comunicação dedicou parte do seu tempo a pesquisar informação, questionar fontes, redigir e organizar conteúdos sobre a freguesia de Mansores (Arouca); desse trabalho resultou “O Livro de Mansores”, editado em dezembro de 2024. Trata-se de uma obra extensa e graficamente cuidada, com 730 páginas e mais de 600 fotografias que ilustram os conteúdos textuais.

Nesta comunicação pretendemos:

  1. Mostrando o livro como objeto de análise e produto da investigação realizada, partilhar uma reflexão sobre a metodologia de investigação, as fontes usadas e as opções editoriais subjacentes a este projeto… enfim, partilhar o caminho andado para se chegar a um produto que se quis uma obra de divulgação destinada à leitura e ao uso da comunidade que retrata, não deixando ser um ensaio histórico exaustivo e fundamentado. Equilíbrio difícil; não nos cabe dizer se foi conseguido.
  2. Destacar o índice do livro como elemento deveras indiciador do complexo desafio que habitualmente se apresenta à estruturação de obras destas (e foi-o efetivamente neste caso).
  3. Mostrar como é que este trabalho, mesmo antes de concluído, contribuiu para outros projetos e espoletou algumas ações de dinamização e sensibilização comunitária, evidenciando a importância da investigação histórica para a memória e o bem-estar das comunidades.
  4. Mostrar também que é possível um trabalho destes ser, grosso modo, financiado pela sociedade civil, ser depois distribuído por dezenas de bibliotecas públicas e ser difundido em acesso aberto na internet.

Apresentação do e-book “Atas do VIII Congresso de História Local” (12h45 às 13h15)

  • Professora Doutora Maria Fernanda Rollo (HTC – NOVA FCSH / CFE–UC)
  • Dra. Arminda Ferreira (C.M. de Vila Nova de Famalicão)

ELITES E PERSONALIDADES

Caridade, Prestígio e Poder: As estratégias de afirmação social das elites políticas covilhanenses entre 1910 e 1945

Manuel Conceição (IHC – UÉvora / IN2PAST)

Doutorando em História na Universidade de Évora, na qualidade de bolseiro da FCT com a referência 2024.00547. Participa com regularidade em vários congressos internacionais, bem como nacionais e tem, ainda dois artigos publicados em publicações peer review.

 

Resumo:
Pretende-se com esta proposta analisar o papel das instituições de beneficência – como o Albergue dos Pobres, a Associação Mutualista, o Asilo da Infância Desvalida e ainda a Santa Casa da Misericórdia da Covilhã – e das elites locais covilhanenses, durante o período de 1910 a 1945.
A Covilhã, situada no sopé da Serra da Estrela, durante o período suprarreferido, é uma cidade de cariz industrial, onde a indústria têxtil assumiu, ao longo do tempo, um papel central na sua estrutura socioeconómica. Como consequência deste modelo, emergiu uma organização social marcadamente dicotómica, na qual uma minoria – a elite – concentrava o poder económico, político e social, enquanto a maioria permanecia afastada dos processos de decisão.

Entre 1910 e 1945, a Covilhã, à semelhança do resto do país, atravessou um conjunto de transformações políticas e sociais marcantes, desde a implantação da Primeira República até à consolidação do Estado Novo. A escolha deste recorte cronológico permite observar os efeitos dessas mudanças no tecido social e nas estratégias de legitimação das elites, num período em que se redefiniram as relações entre o Estado, a Igreja e a sociedade civil.

A Covilhã foi, por isso, escolhida como caso de estudo devido ao seu carácter singular: apesar de ser uma cidade do interior, desempenhou um papel relevante no panorama industrial português, sendo simultaneamente um importante centro operário e espaço privilegiado de afirmação das elites locais.

Neste contexto, as práticas de beneficência local assumiram um lugar de destaque. Mais do que simples resposta à pobreza e exclusão social, a assistência prestada por instituições laicas e organismos do Estado tornou-se também um instrumento ao serviço da afirmação do prestígio e da autoridade das elites. Estas instituições coexistiram e, por vezes, competiram entre si no domínio da ação social, sendo a beneficência usada como mecanismos de acumulação de capital simbólico, de projeção de influência pública e de manutenção das hierarquias sociais.
Esta investigação pretende, assim, compreender de que modo as elites locais construíram e reproduziram o seu poder através de práticas como a caridade, o mecenato, o associativismo e o controlo das instituições de assistência. A proposta inscreve-se numa
linha de investigação que privilegia a escala local como observatório privilegiado de práticas sociais, disputas ideológicas e estratégias de dominação.

Toponímia e Biografias no centro histórico de Santarém e da Ribeira

António Canavarro e José Raimundo Noras (C.M. de Santarém)

 

José Raimundo Noras
Licenciado em História e mestre em História de Arte, Turismo e Património Cultural, pela Universidade de Coimbra. Doutorou-se em História, na Universidade de Lisboa, em 2022. Tem publicados vários artigos em revistas especializadas; capítulos de livros e livros, nas áreas de História e História da Arte, no total de 13 publicações científicas. Foi Secretário-Geral da Associação dos Municípios com Centro Histórico entre 2014 e 2017. Atualmente, é Historiador no Gabinete do Centro Histórico do Município de Santarém.

António Lino de Passos de Sousa Canavarro
Formado e pós-graduado em relações internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Estagiário na Direção-Geral X de apoio aos países da África, Caraíbas e Pacífico da Comissão Europeia, em Bruxelas, entre 1994 a 1996. Funcionário na Exposição Universal de Lisboa, Expo 98, no pavilhão da União Europeia, de maio a outubro de 1998. Vice-presidente da Fundação Passos Canavarro – Arte, Ciência e Democracia de 2000 a 2019. Diretor da Casa-museu Passos Canavarro, de 2011 a 2019. É colaborador no Gabinete do Centro Histórico de Santarém, como investigador em diferentes áreas culturais.

 

Resumo:
A toponímia constitui uma das formas mais evidentes de inscrição da memória coletiva no espaço urbano. Para além da sua função prática de orientação e designação, cada topónimo é portador de um significado cultural, político ou simbólico que remete para biografias individuais e histórias coletivas. No caso do centro histórico de Santarém e da sua Ribeira, a leitura da toponímia permite reconstituir itinerários de poder, redes de sociabilidade e memórias locais que se materializam na malha urbana.

Ao analisar os nomes das ruas, largos e praças, sobressai o entrelaçamento entre biografia e espaço. Topónimos como Passos Manuel, Anselmo Braamcamp Freire ou, já na Ribeira, Oliveira Marreca, convocam figuras com papel de relevo na política, na cultura ou na vida pública, projetando no espaço citadino as suas vidas. Cada nome inscrito em azulejos ou em placas metálicas constitui, assim, um fragmento de narrativa individual que se torna parte da narrativa coletiva da cidade. O espaço urbano converte-se, desse modo, em “arquivo a céu aberto”, no qual se cruzam percursos pessoais e memórias sociais.

O centro histórico de Santarém, com o seu traçado medieval, e a Ribeira, espaço de intensa atividade económica e de contacto com o Tejo, preservam camadas sucessivas de memórias. A toponímia funciona como fio condutor para compreender como a cidade construiu e atualizou o seu panteão cívico. Os nomes atribuídos não são neutros: resultam de escolhas políticas, estratégias de consagração e disputas simbólicas. Ao lado de evocações nacionais — como 5 de Outubro ou 1 de Dezembro, que remetem para acontecimentos fundadores da história portuguesa — convivem referências locais, testemunhando a importância de famílias ou personalidades ligadas ao território, muitas delas também vultos de dimensão nacional.

A relação entre toponímia e biografia manifesta-se ainda na sua dimensão afetiva. Para os habitantes, os nomes das ruas não são meras designações funcionais; evocam histórias familiares, percursos quotidianos, recordações pessoais. A biografia individual de cada cidadão cruza-se inevitavelmente com a “vida coletiva” que a cidade escreve na sua toponímia.
No caso da Ribeira, outrora espaço vital de circulação de mercadorias e pessoas, os topónimos recordam atividades económicas, ofícios e modos de vida desaparecidos. O património imaterial ligado à atividade ribeirinha persiste na memória dos nomes, mesmo quando os contextos sociais e económicos se transformaram profundamente.

A leitura crítica da toponímia, contudo, evidencia lacunas e silêncios. Quem é lembrado e quem é esquecido? Porque razão, salvo a referência a Santa Margarida, quase não se encontram biografias femininas? Quem terá sido o Padre António Fernandes de Carvalho, que dá nome, no planalto, a uma pequena travessa? Estas interrogações revelam como a toponímia é também um campo de disputa pela memória, onde a seleção de nomes traduz hierarquias sociais e opções de poder.

Em suma, a toponímia do centro histórico e da Ribeira de Santarém pode ser entendida como lugar de interseção entre biografia e espaço. Ao mesmo tempo arquivo, museu ao ar livre e palco de memórias, constitui um dispositivo privilegiado para pensar a identidade urbana. A nossa identidade!

Manuel Maria Portela, historiador local

Afonso Carlos Costa (investigador independente) e Ana Catarina Stoyanoff (C.M. de Setúbal)

 

Afonso Costa
Natural de Setúbal, licenciado em Economia pela Universidade Técnica de Lisboa,
desenvolveu a maior parte da sua carreira profissional na administração central da
educação, na área do ensino superior. É investigador independente nos domínios da história das políticas de ensino superior no período de 1926-1974 e da história local de Setúbal.»

Ana Catarina Pereira Stoyanoff
Natural de Setúbal, licenciada em História pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Em 1994, iniciou a sua carreira profissional no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal. Desde 2007, desenvolve a sua atividade na área da museologia e da história local no Museu de Setúbal/Convento de Jesus, onde é responsável pelo Centro de Documentação.

 

Resumo:
Na segunda metade do século XIX, dois setubalenses desenvolveram atividade significativa no domínio da história local: Almeida Carvalho (1817-1897) e Manuel Portela (1833-1906). Distanciados por 16 anos, mantiveram uma intensa relação de amizade.
Almeida Carvalho alimenta um projeto ambicioso de escrita de uma história de Setúbal. Lê. Mergulha nos arquivos da Câmara Municipal. Carreia materiais, toma notas, redige parágrafos. Morre, porém, sem concretizar o seu projeto.
Como resultado da sua pesquisa, para além de um pequeno conjunto de textos que publicou, ficou um valiosíssimo espólio que supre, embora de forma limitada, a enorme lacuna criada pela destruição do arquivo municipal no incêndio dos Paços do Concelho que teve lugar de quatro para cinco de outubro de 1910.

Manuel Portela, a quem o pai não permitiu senão uma escassa formação escolar, vai, por decisão daquele, trabalhar na propriedade agrícola familiar. Em 1857 consegue alguma liberdade pessoal dedicando-se ao comércio de mercearia. Não era a sua vocação. Em 1859 publica o seu primeiro poema. Em 1860 inicia a atividade jornalística. Em 1866 é contratado como amanuense da Câmara Municipal de Setúbal.
Procura na leitura a formação que não tinha obtido pela via formal. Escreve poesia. Cultiva, de forma ativa, a memória de Bocage. Desenvolve atividade social.

A sua paixão pela cidade natal e o convívio com os arquivos da Câmara Municipal conduzem-no à investigação sobre a história da cidade. Toma notas, pesquisa noutras fontes, escreve e publica na imprensa local. Em vida apenas são publicadas em livro duas obras por si assinadas relacionadas com a cidade. Postumamente é publicada uma terceira obra.

Tão importantes como o que que publicou com o seu nome, foram os contributos que deu para duas obras, publicadas no século XIX, de grande importância para a história de Setúbal.

Quando a Câmara Municipal de Setúbal, na sequência de Portaria de 8 de novembro de 1847, manda escrever a história do município, convida para a sua elaboração Alberto Pimentel (1849-1925) que pouco ou nada sabe de Setúbal e da sua história. Como resolver o problema? Adquirindo a Portela os resultados da sua pesquisa, publicados ou inéditos. A obra, que recebeu o título de Memória sobre a história e administração do município de Setúbal, foi publicada sob a autoria exclusiva de Pimentel.

Em 1873 começou a ser publicado o Portugal Antigo e Moderno, obra monumental da autoria de Pinho Leal (1816-1884). O artigo sobre Setúbal, publicado no vol. IX, e datado de circa 1880, tem como contribuidor fundamental Portela. Pinho Leal reconhece-o ao longo do texto. Porém, já doente, cansado, confuso, acaba por, no final do artigo, formular uma crítica a Portela que, modesto, educado, só responde, sem agressividade, alguns anos depois da morte de Pinho Leal.

A comunicação a apresentar visa destacar o papel de Manuel Maria Portela, justamente representado no tríptico dos setubalenses ilustres da autoria de Fernando Santos, como historiador local de Setúbal.

Francisco Serra Frazão – Etnógrafo e Filólogo Ribatejano

Luís Duarte Melo (investigador independente)

Nasceu em Santarém em 1963. Licenciado em Engenharia Agrícola, Pós-Licenciado em Economia Europeia e Master in Business Administration, tem dedicado a sua vida profissional à gestão de empresas. Desde há muito que investiga, redige e publica monografias relativas à sua região de origem – o Bairro ribatejano. É autor de Santa Casa da Misericórdia de Alcanede: Memória e Identidade (2020), A. Montez: Um Percurso Secular (2022) e Crónica da Igreja de Alcanede (2022), co-autor de Nova Monografia de Alcanede (2005), Serranos, Campinos e Bairrões: Etnografia e Falares do Ribatejo (2023), e organizador de Porto de Mós na História e na Lenda (2025). É membro do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão.

 

Resumo:
Em 1936 fazia-se sentir em pleno em Portugal a ação do Secretariado da Propaganda Nacional, encarregue de conceber e implementar a política do espírito e promover uma imagem eficaz do regime.

A retórica nacionalista e regionalista do Estado Novo não descurou o contributo da etnografia, no estudo e promoção dos aspetos representativos de cada província, como as tradições populares, o folclore e os regionalismos linguísticos.

No mesmo ano, em Santarém, a Exposição-Feira Distrital, visitada por cerca de 400 mil pessoas, afirmava a pujança do Ribatejo, do seu povo e da cidade capital da Província então criada, destacando-se da antiga Estremadura.

Procurando dar unidade e identidade a um espaço diverso, nem sempre atendendo à história dos lugares, foi a nova Província do Ribatejo definida pelas características do seu núcleo central, com cabeça em Santarém e constituída por três sub regiões distintas: a Lezíria, o Bairro e a Charneca.
Do núcleo central – a lezíria – irá surgir o arquétipo do homem ribatejano: o campino decidido, garboso, valente, secundarizando outras figuras da Lezíria, ou o povo do Bairro, da Charneca e da Serra.

O discurso identitário e turístico da nova província afunilava-se nos estereótipos do campino, do fandango e das touradas, produtos de uma vida rural harmoniosa, rude e pitoresca, mas redutoras de uma vasta região, rica na sua diversidade natural e humana.
Aos 55 anos, Serra Frazão, oposicionista, estava oficialmente afastado destes acontecimentos que tinham epicentro na sua cidade. Procurava, ainda, refazer-se de um contratempo maior da sua vida – a perda da voz em consequência de um cancro na laringe. Procurou então uma forma singular de participar nesta dinâmica, dando a sua visão da alma ribatejana, por intermédio do seu mosaico cultural popular.

Resolve, então, dar voz e valorizar a identidade cultural de sub regiões, personagens e segmentos sociais esquecidos – barqueiros, ratinhos, seareiros, pastores, tosquiadores, ciganos, cardadores, moirais, valadores, etc., sem esquecer os campinos, de quem escreveu textos admiráveis.
Às visões únicas, politicamente orientadas e impostas a toda uma região, Frazão descreve um Ribatejo diverso, em mudança, sem esquecer as mensagens de apelo cívico e transformador, presentes em toda a obra literária deste autor.

A região serrana, a norte do Bairro, agora parte do Ribatejo, mas omissa do roteiro oficial da Junta de Província, zona de fronteira desde a Reconquista afonsina, foi a primeira a merecer a sua atenção. Frazão traz à liça a sua aldeia natal e os seus serranos que “vivem numas covadas, outrora ermos inhóspitos, das serras de Minde e de Albardos”, redigindo o “Vocabulário da Serra de Santo António”, de que fez publicar alguns apontamentos no jornal O Diabo (1937), dirigido por Manuel Rodrigues Lapa.

Foi este intelectual, também opositor ao regime de Salazar, que o colocou em contacto com Leite Vasconcelos, o sábio que, aos 80 anos, mantinha o espírito e o intelecto ao serviço do seu grande labor de vida: descrever e preservar a cultura tradicional do povo português, antes que se desvanecessem as suas antigas formas.

O “Vocabulário” foi publicado em 1938 na Revista Lusitana, dirigida por Leite. Esta colaboração resultou em novas publicações na “Revista Lusitana”, de que destaco o pioneiro trabalho sobre o “Calão de Minde” (1939). Seguiram-se novos trabalhos que incorporaram o legado de Leite de Vasconcelos (f. 1941), os quais só seriam publicados em 2023 em “Serranos, Campinos e Bairrões: Etnogarfia e Falares do Ribatejo”.

Nesta comunicação, proponho-me traçar a multifacetada biografia de Francisco Serra Frazão (1881-1948) e contextualizar a relação que manteve com José Leite de Vasconcelos entre 1938 e 1940. Este é o ponto de partida para uma visita ao quotidiano da alma ribatejana, por intermédio da língua portuguesa na boca do povo, cobrindo aspetos como condições materiais, crença, mito e sabedoria ancestral das comunidades da Serra, Lezíria e Bairro ribatejano2.

IMPRENSA E MOVIMENTO OPERÁRIO

As greves operárias em Lisboa durante a I República (1910-1926): um meio de luta eficaz?

Débora Val Escadas (CICS.NOVA.UMinho)

Doutoranda em História Contemporânea no CICS.NOVA.UMinho, com uma bolsa de doutoramento financiada pela FCT com a referência 2024.00341.BD. Concluiu o mestrado em História em 2018 pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho e a licenciatura em História em 2015 pela mesma Universidade. A sua produção científica incide na área da História Contemporânea, nomeadamente sobre Movimento Operário, Movimentos Sociais e História Social. Tem participado em conferências e publicado artigos
sobre estes temas.

 

Resumo:
Em Portugal, o estudo do movimento operário encontra-se ainda relativamente atrasado em comparação com outros países da Europa e com os EUA, onde as investigações sobre este tema já englobam estudos comparativos e não se restringem apenas à historiografia, incluindo sobretudo a sociologia dos movimentos sociais para analisar a ação coletiva da classe trabalhadora. Neste sentido, o movimento operário na I República é um assunto que não mereceu a devida atenção até aos últimos anos, sendo ainda poucos os estudos de caso que abordam esta temática. Contudo, tem se notado recentemente um novo fôlego na investigação deste tema, como a organização, desde 2013, dos Congressos do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, a realização de dissertações de mestrado e doutoramento sobre o movimento operário (por exemplo, «Os socialistas portuenses e a Grande Guerra», de Fausto Rafael Correia, FLUP, 2016) e ainda a publicação de livros (O anarquismo e a arte de governar: Portugal (1890-1930), de Diogo Duarte e As Juventudes Libertárias e a Reorganização do Movimento Anarquista nos Anos 40, de Paulo Guimarães, publicados em 2023).

Entre os vários tipos de luta utilizados pelo operariado, podemos considerar a greve como o principal, sendo o resultado lógico das suas más condições de vida e de trabalho, entre elas os baixos salários e as longas horas de jornada laboral. O que mais movimentava o operariado lisboeta era a questão económica, o que justificava o elevado número de greves que reivindicavam aumento salarial ou eram contra a diminuição do salário (47,9% do total das greves). A luta por questões materiais não melhorava substancialmente, nem por muito tempo, as condições económicas dos operários, já que os aumentos salariais conseguidos eram anulados pelo aumento dos preços dos géneros de primeira necessidade, sobretudo no período da guerra e do pós-guerra. As greves por aumento salarial chegariam mesmo a ser consideradas supérfluas e estéreis pela própria
imprensa operária, defendendo que o operariado só conseguiria melhorar as suas condições de vida com o advento da revolução social. O facto de o operariado lisboeta movimentar-se pela melhoria das suas condições de vida não o impedia de lutar por diversas causas, como era o caso das greves de solidariedade (11,4% do total das greves) ou o caso das greves contra uma decisão patronal (4,6% do total das greves), entre outros exemplos.
O objetivo desta comunicação é analisar a eficácia das greves como instrumento de luta operária durante a I República, avaliando ao mesmo tempo os motivos que levavam o operariado lisboeta a utilizá-las, bem como os fatores que poderiam determinar a sua vitória ou derrota. Pretendemos também demonstrar a importância da História Local para a compreensão do que foi o movimento operário português, uma vez que estes estudos permitem preencher uma lacuna historiográfica e possibilitam uma análise mais crítica e interpretativa desta temática.

As conserveiras de Portimão - percursos profissionais (1914-1978)

Virgínia Baptista (HTC – NOVA FCSH / CFE–UC) e Paulo Marques Alves (DINÂMIA’CET-ISCTE)

Virgínia Baptista
Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Mestre e Doutora pelo ISCTE-IUL em História Moderna e Contemporânea. É Investigadora Integrada do HTC- NOVA FCSH- CEF-UC. Tem-se dedicado a investigações na área da história contemporânea, história das mulheres e do género, história das mulheres trabalhadoras e associativismo, maternidades e partos, saúde e medicina. Tem procurado dar visibilidade às mulheres trabalhadoras na História. Tem participado em congressos e conferências nacionais e internacionais, com livros, artigos e capítulos publicados em Portugal e no estrangeiro.

Paulo Marques Alves
Licenciado, Mestre e Doutor em Sociologia pelo ISCTE. Professor Auxiliar no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa. É igualmente investigador integrado do DINÂMIA’CET-ISCTE, com participação num vasto conjunto de projetos de investigação nacionais e internacionais, nomeadamente sobre a visibilidade das mulheres. É autor de várias publicações nos campos disciplinares anteriormente referidos e membro de diversas associações de carácter científico, integrando igualmente algumas redes de investigação e sendo membro do conselho de edição de várias revistas científicas.

 

Resumo:
Esta comunicação tem por tema as conserveiras que trabalharam nas fábricas Feu e Hermanos e Júdice Fialho, em Portimão, desde 1914 (ano de início da disponibilização dos cadastros) até 1978. Assim, este estudo inicia-se na I República e estende-se pelo Estado Novo até à democracia.
Trata-se de uma investigação em curso, pelo que os dados que apresentamos ainda são preliminares. Consultámos 250 cadastros de conserveiras, no Arquivo Histórico do Museu de Portimão e baseámo-nos em bibliografia geral sobre as operárias conserveiras e a vila, depois cidade de Portimão. Colocámos as seguintes questões: Que memórias das operárias se guardam nas fontes consultadas e delas se podem retirar? Como se caracterizam estas operárias? Que percursos profissionais e carreiras tiveram?

A cidade de Portimão teve uma indústria conserveira apreciável a nível nacional (Raminhos, 2003). O trabalho no setor conserveiro foi sempre maioritariamente feminino, com as trabalhadoras a realizarem os trabalhos menos qualificados, nomeadamente, descabeçar, engrelhar, encaixar e azeitar (Câmara Municipal de Setúbal, 2000), e auferindo baixos salários. Em regra, a aprendizagem das atividades ocorria na própria fábrica pela observação e pelo mimetismo das ações das colegas e familiares. A maioria das operárias era natural de localidades em redor de Portimão, por exemplo, Lagoa, Mexiolheira Pequena, Estômbar, Armação de Pêra, Silves, mas elas também provinham de sítios distantes, como Aljustrel, sendo provável que se tenham estabelecido em Portimão devido ao desenvolvimento da indústria conserveira.

Neste estudo, propusemo-nos identificar a idade aquando da admissão, a naturalidade, o estado civil, o tempo de permanência na profissão, assim como outros registos expressos nos cadastros, nomeadamente a partir do Estado Novo, sobre a inscrição no Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Conservas de Peixe de Faro (que por lei era obrigatório) e na Caixa Sindical de Previdência do Pessoal da Indústria de Conversas de Peixe.
Verificámos que a partir dos anos 30 já se encontram discriminados os salários recebidos, primeiro ao dia, depois semanalmente, e após 1974 a remuneração mensal, o que nos permite avaliar dos salários recebidos e dos percursos profissionais das operárias.

No universo estudado, a maioria das mulheres eram casadas ou casaram posteriormente à admissão (71,1%), algumas eram viúvas, sendo as solteiras 12,9%, o que demonstra que as mulheres das classes populares, mesmo casadas e, à partida com filhos, tinham de trabalhar para aumentar o rendimento familiar (Perrot, 1987; Schweitzer, 2002). Esta situação confirma os dados já analisados noutro estudo sobre as mulheres trabalhadoras (Baptista, 1999). Verificámos igualmente que algumas menores foram admitidas nas fábricas a partir dos 14 anos, na qualidade de aprendizas.
Por entrevistas realizadas a operárias pelo Museu de Portimão, sabemos que inicialmente as mães levavam as crianças para as fábricas e que estas ficavam numa sala e “em caixotes” ao cuidado de uma funcionária, tendo sido posteriormente construídas algumas creches, sendo, em regra, as mães a pagar as mensalidades.

Concluímos que as conserveiras de Portimão construíram carreiras profissionais, algumas chegando a mestras, muitas aquando das suas reformas a elas tiveram acesso, através da respetiva Caixa de Previdência.

Ladislau Batalha, o Ávante! e a defesa dos interesses locais

Pedro Oliveira Ramos (FLUL)

Frequenta o Mestrado em História, na especialidade Moderna e Contemporânea na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua investigação é centrado no Republicanismo em Portugal, entre os finais do século XIX e a Primeira República (1910-1926).

 

Resumo:
Em 1909, Ladislau Batalha, escritor, jornalista e militante socialista, muda-se para o Barreiro juntamente com a sua esposa Ernestina Costa. Foi durante a sua vivência localidade que fundou o periódico Ávante!: defensor das classes trabalhadoras e dos interesses locaes. Tal iniciativa foi impulsionada de defender não só dos habitantes do Barreiro, mas também dos trabalhadores fabris, com especial enfoque nos da Companhia União Fabril (CUF).

Na presente comunicação, pretende-se uma análise circunstanciada do periódico e das leituras de Ladislau Batalha sobre a evolução económica e social do Barreiro, no período compreendido entre 1909 e 1910. Além da referida evolução, serão abordadas a Implantação da República no Barreiro e a perpetiva de Batalha sobre esse evento, bem como os legados das vivências e contactos com diferentes contextos – europeu, asiático, africano e americano.

Publicações periódicas nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, entre o fim do Estado Novo e a transição para a Democracia (1966-1975)

José Carlos Loureiro (inED)

Licenciado em História e mestre em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutor em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, é autor e coautor de livros e de artigos sobre sociabilidade religiosa, educação e história local. É filho de um tipógrafo e recorre regularmente à imprensa como fonte histórica.

Resumo:
Na comunicação apresentamos e analisamos a publicação periódica mantida pelo Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhados dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, entre 1966 e 1975. Inicialmente designada ENVC – Grupo Desportivo e Cultural (e abreviadamente, Boletim), a publicação desta associação converter-se-á, em 1974, no Roda do Leme. Embora tenha uma existência mais longa, deter-nos-emos em junho de 1975, data correspondente à edição comemorativa do primeiro aniversário do Roda do Leme e ao fim de uma fase da publicação, que reaparecerá, com o mesmo nome, em janeiro de 1976 com um perfil editorial distinto. Centramos o trabalho na caracterização destas publicações, na identificação dos seus principais diretores, redatores e autores, bem como, na apresentação das principais temáticas tratadas nos artigos e colaborações literárias. Enquadramos o exame desta publicação na história da empresa – Estaleiros Navais de Viana do Castelo, criados em 1944 e extintos em 2018 –, da agremiação de trabalhadores e, de um modo geral, na história política e social da época. A principal fonte é a série completa de número editados no mencionado período. Em suma, no decurso da comunicação pretende-se apresentar o resultado do trabalho de investigação, procurando evidenciar a relevância desta fonte para o conhecimento de diferentes aspetos da história local, empresarial, associativa e do trabalho.

PATRIMÓNIO CULTURAL

Invisibilidade no território histórico na cidade de Campinas: A história da Casa de Filho de Ex-Escravos no Bairro Cambuí

Bárbara Edwiges Fernandes Correia e Carolina Gonçalves Nunes (Coletivo Ponte)

 

Bárbara Edwiges Fernandes Correia
Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade São Francisco (USF), com mobilidade acadêmica no Mestrado Integrado em Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP). Premiada por pesquisa acadêmica sobre o uso de drones no mapeamento de assentamentos precários, desenvolveu estudos sobre políticas urbanas voltadas à preservação de bens culturais em Campinas. Atua na área com ênfase em urbanismo, patrimônio cultural e planejamento urbano. É pesquisadora voluntária no projeto No Chão Que Piso, Sou Raiz, vinculado ao Coletivo Ponte (ATHIS na Baixada), investigando memórias e territórios historicamente invisibilizados.

Carolina Gonçalves Nunes
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (POSURB-ARQ) da PUC-Campinas, na linha de História do Pensamento Urbanístico, com apoio da CAPES. Mestre pelo mesmo programa, integrando o grupo de pesquisa História das Cidades: Ocupação Territorial e Ideários Urbanos, com estudo sobre a formação do território, economia e sociedade de Bragança Paulista. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela PUC-MG (2007). Atua na área com ênfase em projetos arquitetônicos e patrimônio cultural, e atualmente é docente na Universidade São Francisco (USF). É uma das arquitetas responsáveis pelo projeto No Chão Que Piso, Sou Raiz vinculado ao Coletivo Ponte (ATHIS na Baixada), investigando memórias e territórios historicamente invisibilizados.

 

Resumo:
O território que hoje conhecemos como cidade de Campinas, na segunda metade do século XVIII, era a Freguesia Nossa Senhora da Conceição de Campinas do Mato Grosso de Jundiaí, desenvolvendo-se a partir do cultivo do açúcar. Em 1839, Campinas era o maior comprador e distribuidor de escravos, com quase um terço da produção açucareira do estado, garantindo sua evolução à categoria de Vila em 1797. Neste período, quase 60% da população era composta por negros. O trabalho busca compreender a origem e permanência da família Dos Santos, associada à casa construída na Rua Emílio Ribas nº 1468, bairro Cambuí, hoje imóvel tombado. A pesquisa combinou análise documental, iconográfica e bibliográfica, incluindo jornais, relatórios de tombamento e periódicos acadêmicos. O estudo detalha a trajetória de Adão Geraldo dos Santos e descendentes, desde sua juventude, passando por atividades econômicas, educação familiar e participação em associações comunitárias, até o uso do imóvel como sede do Museu do Negro entre 2002 e 2005. O edifício, concebido como residência, demonstra técnicas construtivas operárias típicas do final do século XIX e início do XX, preservando elementos artesanais como telhas coloniais e ladrilhos hidráulicos. Ao longo do tempo, a família enfrentou mudanças urbanísticas, crises sanitárias, segregação social e especulação imobiliária, refletindo os processos de invisibilização de memórias no território urbano.

A pesquisa evidencia a importância do imóvel como patrimônio cultural e espaço de memória, possibilitando reflexões sobre preservação, memória afetiva e transformações urbanas em Campinas. A narrativa histórica permite compreender a dinâmica multiétnica e a reconfiguração social do bairro Cambuí, reforçando a necessidade de políticas urbanas que integrem preservação do patrimônio e valorização das histórias locais.

Rota das Igrejas da Vila da Chamusca: A ermida de Nossa Senhora do Pranto – Valorização e Estudo da Arte Sacra e do Património Histórico e Artístico

Nuno Prates (C.M. de Chamusca, CESEM-NIM/ NOVA FCSH e Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão)

Nasceu em Alpiarça, em 1973, é Museólogo, Técnico Superior de História, do Quadro de Pessoal do Município de Alpiarça, em Mobilidade no Município da Chamusca. Exerceu as funções de Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça desde 2011 até 2025. Foi Professor e Coordenador da Pós-Graduação em Museologia na Autónoma Academy (Universidade Autónoma de Lisboa). Licenciado em História (Variante de Arqueologia) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, frequentou ainda a Licenciatura em História da Arte, na mesma Universidade. Na Universidade de Évora obtém estudos pós-graduados em Museologia. É ainda formador na área e domínio da Didática da História, pela Universidade do Minho. Mestrando em Gestão e Valorização do Património Cultural – especialidade Património Artístico e História da Arte (Universidade de Évora). Investigador em História Local e Regional. Tem colaborado em diversas publicações no âmbito da sua área académica e profissional.

 

Resumo:
A Rota das Igrejas da Vila da Chamusca convida a comunidade local e os visitantes a descobrirem o valioso património religioso, através de um percurso cultural orientado, pelas várias igrejas da vila, a saber: Igreja Matriz (ou Igreja de São Brás), Igreja da Misericórdia, Ermida de Nossa Senhora do Pranto, Igreja de Nossa Senhora das Dores, Igreja de São Pedro, Igreja do Senhor do Bonfim e Edifício São Francisco.

Dinamizado pelo Município da Chamusca esta iniciativa tem como objetivo valorizar o património histórico e cultural, realizando uma maior e melhor aproximação entre os chamusquenses e um legado que os identifica. Deste património, pela importância que tem na vila, daremos destaque à Ermida de Nossa Senhora do Pranto, esta pequena igreja situa-se no Outeiro do Pranto, onde existe um cruzeiro e um miradouro que nos dá uma excelente vista panorâmica sobre a vila, o Tejo e Lezíria. A Ermida da Nossa Senhora do Pranto foi construída no século XVII, e foram feitos melhoramentos no edifício na segunda metade do século XVIII. Pela sua riqueza patrimonial, podemos afirmar que é o principal postal ilustrado da Chamusca. Segundo a lenda durante a terceira invasão francesa (1810) e com a aproximação das tropas à Chamusca, o povo ocorreu à Capela de S. José (que ficava no cimo de um monte) e em pranto promete a construção de outra capela caso os franceses não chegassem à vila. Foram queimadas setenta e cinco embarcações pelos pescadores do Tejo para evitar que as tropas francesas que estavam aquarteladas na margem direita do Tejo, na vila da Golegã, aqui não chegassem. Estas lançaram contra a Chamusca balas de canhão como ato de retaliação ao que lhes tinha sucedido, sendo que, algumas das balas lançadas pelos franceses, encontram-se ainda hoje em exposição na sacristia da Capela de S. José. Chama-se Ermida de Nossa Senhora do Pranto porque diz o povo que a imagem de Nossa Senhora chorava. A Ermida é composta por uma Nave Central, onde se encontra a capela-mor e lateralmente pelas capelas de S. José (lado da Epístola) e pela Capela de São Joaquim ou do Senhor dos Aflitos (lado do Evangelho). A capela-mor está revestida com dois grandes painéis de azulejo do século XVIII, onde estão representados: no lado do Evangelho a Apresentação de Jesus no Templo, com Santa Ana e São Simeão (circuncisão do Menino Jesus), O Menino Jesus entre os Doutores do Templo (Epístola). A Capela de São José encontra-se revestida com seis painéis de azulejos do Século XVIII, que representam várias cenas da vida de São José, a saber: o Casamento de São José com a Virgem, Anunciação do nascimento de Jesus pelo Anjo a São José, A Adoração de Cristo, perante a Santíssima Trindade, Fuga para o Egipto, A Sagrada Família, Oficina de S. José Carpinteiro, cenas da vida familiar de Jesus (o painel azulejar, é de temática figurativa, representa a Sagrada Família, numa cena de trabalho. Em primeiro plano a Virgem está a dobar, num segundo plano S. José está representado no seu ofício de carpinteiro, enquanto o Menino Jesus varre as aparas da madeira, ajudando seu pai. A vila foi um dos pilares económicos e sociais de reino, por esta razão aqui foi construído um conjunto valioso de património civil e religioso que veio trazer à Chamusca um grande enriquecimento para a sua história local.

Redes sociais e a memória das comunidades religiosas na ilha do Faial

Pedro S. Lucas (iNOVA Media Lab – ICNOVA / NOVA FCSH)

Licenciado em Estudos Artísticos e mestre em Ciências da Informação e Comunicação Cultural. Entre 2019-2022 foi membro da equipa do projeto de história oral “Memória para Todos”, da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Desde 2022 encontra-se a realizar o doutoramento em Media Digitais na FCSH-UNL (bolsa FCT). É membro do iNOVA Media Lab (IML) e a sua investigação principal examina a integração dos media sociais nas práticas sociais – religiosas e culturais – de pequenas comunidades tradicionais nos Açores. É também colaborador do projeto Autonomous Stores, que estuda a emergência de um novo retalho hiper-tecnológico. Lucas mantém também uma carreira ativa como músico e agente cultural, fazendo correntemente curadoria para o projeto de arte participativa “Murmurinho” na ilha do Faial (Açores).

 

Resumo:
As celebrações religiosas locais na ilha do Faial (Açores) são materializadas por comunidades que, mais que definidas por limites geográficos ou sociais, são definidas pela sua participação num sistema de atividade sobre o qual os membros têm uma compreensão partilhada, tanto no plano da prática como no plano simbólico – comunidades de prática (Lave & Wenger, 1991, p. 98). À semelhança do resto do arquipélago açoriano, no Faial estas práticas religiosas e culturais têm como faces mais salientes as celebrações do Espírito Santo e dos Santos Padroeiros de cada freguesia. As primeiras são conduzidas ao nível das irmandades: grupos hiper-locais, formalizados enquanto associações religiosas que organizam “a festa”. As segundas são organizadas pelas diferentes paróquias e configuram o maior evento social e cultural de cada freguesia – e aquele que é mais agregador. Qualquer uma das celebrações assenta num repertório simbólico com elementos que são transversais ao arquipélago – e.g., as procissões; a coroa do espírito do santo; o arraial – e outros que são idiossincráticos de cada localidade – e.g., diferentes simbologias e rituais secundários; formas de organização da festa. À semelhança da maioria das dimensões da vida social, as tecnologias digitais também passaram a integrar a “caixa de ferramentas” que estas comunidades têm à sua disposição na condução das celebrações. Em particular, as redes sociais – sobretudo o Facebook – passaram a ser utilizadas como ferramentas de representação cultural, divulgação promocional, e memorialização. É sobre esta última dimensão que esta apresentação se foca. Partindo de um caso de estudo de duas freguesias na ilha do Faial – Feteira e Ribeirinha – pretende-se abordar o papel do Facebook nos atuais processos de memorialização das práticas culturais e religiosas destas comunidades. Como é que o Facebook é utilizado na criação da memória futura destas celebrações? Que atores – individuais e institucionais – são convocados e obscurantizados neste processo? Qual o significado da utilização destas novas ferramentas para as instituições com um papel formal nos processos de memorialização (e.g., comunicação social, arquivos)? Para ajudar a responder a estas questões serão utilizados dados resultantes da observação etnográfica destas festas (iniciada em 2024), de um trabalho aprofundado de análise de publicações no Facebook envolvendo as celebrações (etnografia digital), e da análise de cerca de 20 entrevistas a atores locais. Alavancada nestes dados, esta comunicação pretende discutir o papel democratizador das redes sociais no processo de criação de memória local, assim como os desafios que emergem deste processo. Alguns dos desafios identificados preliminarmente incluem: a emergência de (novos) desequilíbrios de poder na criação de memória; imprecisão, ou distorção, de testemunhos históricos; comodificação de manifestações culturais e (novas) formas de performatividade social. Destaca-se ainda o papel da miríade de estilhaços da memória individual, materializados no universo digital (Schwarz, 2021), na construção da memória coletiva enquanto memória conectiva (Hoskins, 2011).

Redes sociais e a memória das comunidades religiosas na ilha do Faial

Pedro S. Lucas (iNOVA Media Lab – ICNOVA / NOVA FCSH)

Licenciado em Estudos Artísticos e mestre em Ciências da Informação e Comunicação Cultural. Entre 2019-2022 foi membro da equipa do projeto de história oral “Memória para Todos”, da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Desde 2022 encontra-se a realizar o doutoramento em Media Digitais na FCSH-UNL (bolsa FCT). É membro do iNOVA Media Lab (IML) e a sua investigação principal examina a integração dos media sociais nas práticas sociais – religiosas e culturais – de pequenas comunidades tradicionais nos Açores. É também colaborador do projeto Autonomous Stores, que estuda a emergência de um novo retalho hiper-tecnológico. Lucas mantém também uma carreira ativa como músico e agente cultural, fazendo correntemente curadoria para o projeto de arte participativa “Murmurinho” na ilha do Faial (Açores).

 

Resumo:
As celebrações religiosas locais na ilha do Faial (Açores) são materializadas por comunidades que, mais que definidas por limites geográficos ou sociais, são definidas pela sua participação num sistema de atividade sobre o qual os membros têm uma compreensão partilhada, tanto no plano da prática como no plano simbólico – comunidades de prática (Lave & Wenger, 1991, p. 98). À semelhança do resto do arquipélago açoriano, no Faial estas práticas religiosas e culturais têm como faces mais salientes as celebrações do Espírito Santo e dos Santos Padroeiros de cada freguesia. As primeiras são conduzidas ao nível das irmandades: grupos hiper-locais, formalizados enquanto associações religiosas que organizam “a festa”. As segundas são organizadas pelas diferentes paróquias e configuram o maior evento social e cultural de cada freguesia – e aquele que é mais agregador. Qualquer uma das celebrações assenta num repertório simbólico com elementos que são transversais ao arquipélago – e.g., as procissões; a coroa do espírito do santo; o arraial – e outros que são idiossincráticos de cada localidade – e.g., diferentes simbologias e rituais secundários; formas de organização da festa. À semelhança da maioria das dimensões da vida social, as tecnologias digitais também passaram a integrar a “caixa de ferramentas” que estas comunidades têm à sua disposição na condução das celebrações. Em particular, as redes sociais – sobretudo o Facebook – passaram a ser utilizadas como ferramentas de representação cultural, divulgação promocional, e memorialização. É sobre esta última dimensão que esta apresentação se foca. Partindo de um caso de estudo de duas freguesias na ilha do Faial – Feteira e Ribeirinha – pretende-se abordar o papel do Facebook nos atuais processos de memorialização das práticas culturais e religiosas destas comunidades. Como é que o Facebook é utilizado na criação da memória futura destas celebrações? Que atores – individuais e institucionais – são convocados e obscurantizados neste processo? Qual o significado da utilização destas novas ferramentas para as instituições com um papel formal nos processos de memorialização (e.g., comunicação social, arquivos)? Para ajudar a responder a estas questões serão utilizados dados resultantes da observação etnográfica destas festas (iniciada em 2024), de um trabalho aprofundado de análise de publicações no Facebook envolvendo as celebrações (etnografia digital), e da análise de cerca de 20 entrevistas a atores locais. Alavancada nestes dados, esta comunicação pretende discutir o papel democratizador das redes sociais no processo de criação de memória local, assim como os desafios que emergem deste processo. Alguns dos desafios identificados preliminarmente incluem: a emergência de (novos) desequilíbrios de poder na criação de memória; imprecisão, ou distorção, de testemunhos históricos; comodificação de manifestações culturais e (novas) formas de performatividade social. Destaca-se ainda o papel da miríade de estilhaços da memória individual, materializados no universo digital (Schwarz, 2021), na construção da memória coletiva enquanto memória conectiva (Hoskins, 2011).

RESISTÊNCIA(S)

Os escravos na Trafaria

Carlos Barradas Leal (investigador independente)

Licenciado em Sociologia do Trabalho (ISCTE,1982). Durante cerca de 40 anos com responsabilidades na Gestão de Produção Industrial. Atualmente dedicado à investigação da História Local da Trafaria e tanto quanto necessário do território envolvente, em colaboração constante com o Centro de Arqueologia de Almada. Publicações: “Trafaria, a História da Formação de uma Identidade e Histórias do “Presídio”; “Caparica na época de D. Miguel e A Quinta do Carmo em Murfacém”.

 

Resumo:
Trafaria, terra no extremo noroeste da península de Setúbal, era no século XVII um lugar isolado no fim da margem sul do Tejo. Começou por ser povoada no vale do Ribeiro que se abria para sul desde a praia areenta e desabrida (na expressão de Perestrelo da Câmara no século XIX). Na passagem do século XVI para o XVII, precisamente no Ribeiro é detetada a presença de escravos, indivíduos trazidos por Capitães da Carreira da Índia, Vaz de Melo e Zagalo, proprietários fundiários no Ribeiro. Desde então e até ao princípio do século XIX são várias as referências à presença de população escravizada na Trafaria, sendo possível perceber a sua origem, as suas atividades e relacionamento com os respetivos amos. A partir da segunda metade do século XVIII quando, com a legislação do Marquês de Pombal, o estatuto de escravo foi desaparecendo na Trafaria sendo contudo possível perceber alguns pormenores da sua integração social e laboral.

Uma página do Arquivo Revolucionário de José Manuel Sarmento de Beires – A Revolução de Agosto de 1931

Iracema de Matos Vilarigues Maia (HTC – NOVA FCSH / CFE–UC)

Doutoranda em História Contemporânea (NOVA FCSH) Em fase de preparação de Tese, subordinada ao tema da “Revolução de 26 de agosto de 1931”, sob a orientação científica da Profª Doutora Maria Fernanda Rollo. Investigadora do HTC- CFE – NOVA FSCH. Em sede de comunicação, apresenta “Ler e propagar a Liberdade é o dever de todo o Republicano” (Colóquio “A Imprensa Estudantil: da ditadura à democracia”, 2022). “Lisboa uma cidade insubordinada. “E durante a marcha para Lisboa, por várias vezes, deram morras à Dictatura” (VI Congresso de História Local, 2022). “Heróis ou Anti-Heróis. Uma leitura historiográfica da intervenção contrarrevolucionária da G.N.R. no 26 de agosto de 1931” (Polícia(s) e Regime(s), 2023). “Sindicâncias ao movimento revolucionário de 26 de agosto de 1931. A questão dos processos políticos dos militares implicados” (Seminário Modernidade e Tradição, 2024). “A PSP no 26 de agosto de 1931pela lente da imprensa” (Polícia(s) e Regime(s), 2024). E “Os estudantes pelo 26 de agosto de 1931 – Da rede histórica às dinâmicas de sociabilidade” (VIII Congresso de História Local, 2024).

 

Resumo:
O “Ano de todas as revoltas”, 1931, traduz eximiamente o sentimento de indignação generalizada vivenciado em Portugal, desde o Golpe de 1926. De janeiro a agosto. Das colónias, às ilhas e ao continente, os movimentos socais de descontentamento vão ganhando, cada vez mais, força de expressão. Expoente máximo da expressão de todas as indignações, o dia 26 de agosto de 1931 constitui inequivocamente um marco na História da Oposição à Ditadura, por se tratar do maior desafio revolucionário, do ano, colocado ao regime por centenas de militares e de civis, que saem às ruas da capital com um único intuito: derrubar a ditadura.

As fontes e a literatura historiográficas, consagradas à temática da sublevação de 26 de agosto de 1931, facultam-nos evidência historiográfica indiciante que este combate à ditadura militar terá contado com o comprometimento revolucionário de várias esferas da atividade humana da sociedade portuguesa. A nosso ver, a diversidade de grupos sócio históricos, implicados na sublevação de 26 de agosto de 1931, é convidativa a uma reflexão historiográfica da qual poderá surgir um rol de dados historiográficos agregador ao seu conhecimento histórico.

Neste sentido, e no âmbito do VIII Congresso de História Local, apresentamos a proposta de comunicação “Os estudantes pelo 26 de agosto de 1931 – Da rede histórica às dinâmicas de sociabilidade”, que enquadramos no eixo temático “Organizações, resistência e violência política na história local”.
Pese embora a nossa proposta de comunicação convirja com a linha de reflexão historiográfica enunciada, circunscrevemos o nosso objeto de estudo ao grupo sócio histórico dos estudantes de Lisboa com o objetivo último de entender a sua experiência histórica aquando deste fenómeno histórico, com respaldo nas dinâmicas suscitadas pelas rede histórica de sociabilidades com a qual se relaciona.

Destarte, partindo do pressuposto que uma resistência estudantil, em Lisboa, trabalha ativamente em prol da eclosão da revolução de agosto, tencionamos desenvolver um exercício da sua observação histórica, vislumbrando-a como um grupo sócio histórico cujos sujeitos históricos – que o representam neste momento histórico específico – se tratam de criadores de interações históricas, que concorrem para explicar e entender o momento histórico em apreço.

Pelo exposto, prevemos ensaiar metodologicamente uma microanálise histórica, deste grupo sócio histórico, com ênfase no binómio “sujeito histórico e contexto(s) histórico(s)”, no seio e no exterior do grupo de pertença, com o objetivo de desvelar uma tipologia de dinâmicas históricas suscetível de descrever e de explicar como se organiza, como opera, e qual o seu contributo no âmbito do movimento revolucionário de 26 de agosto de 1931.
Em suma, com esta comunicação, expectamos apresentar um contributo para o conhecimento histórico “do canto do cisne do combate à ditadura” e, mais concretamente, um contributo historiográfico pela lente dos estudantes.

Dinâmicas da oposição republicana à iminência do Estado Novo: O caso da célula revolucionária de Santarém (1932-1933)

Luísa Teixeira Barbosa (NOVA/FCSH) e Iracema de Matos Vilarigues Maia (HTC – NOVA FCSH / CFE–UC)

 

Iracema Maia
Doutoranda em História Contemporânea (NOVA FCSH) Em fase de preparação de Tese, subordinada ao tema da “Revolução de 26 de agosto de 1931”, sob a orientação científica da Profª Doutora Maria Fernanda Rollo. Investigadora do HTC- CFE – NOVA FSCH. Em sede de comunicação, apresenta “Ler e propagar a Liberdade é o dever de todo o Republicano” (Colóquio “A Imprensa Estudantil: da ditadura à democracia”, 2022). “Lisboa uma cidade insubordinada. “E durante a marcha para Lisboa, por várias vezes, deram morras à Dictatura” (VI Congresso de História Local, 2022). “Heróis ou Anti-Heróis. Uma leitura historiográfica da intervenção contrarrevolucionária da G.N.R. no 26 de agosto de 1931” (Polícia(s) e Regime(s), 2023). “Sindicâncias ao movimento revolucionário de 26 de agosto de 1931. A questão dos processos políticos dos militares implicados” (Seminário Modernidade e Tradição, 2024). “A PSP no 26 de agosto de 1931pela lente da imprensa” (Polícia(s) e Regime(s), 2024). E “Os estudantes pelo 26 de agosto de 1931 – Da rede histórica às dinâmicas de sociabilidade” (VIII Congresso de História Local, 2024).

Luísa Barbosa
Licenciada em Antropologia, pela FCSH, da UNL; mestre em História e Cultura do Brasil, pela FLUL; concluiu o diploma de Estudos Avançados em História Contemporânea da FCSH, UNL, onde é doutoranda, sob a orientação científica da Profª Doutora Ana Paula Pires e da Profª Doutora Maria Fernanda. É Professora de História do Ensino Básico, no Agrupamento de Escolas D. Sancho I, Pontével.
Integrou diversas comissões executivas, participou e dirigiu diversas exposições
comemorativas e organizou, dirigiu e foi oradora em vários colóquios, palestras e conferências. Coordenou a edição do Guia Turístico de Santarém, em 2000 e dirigiu a revista Centros Históricos, da ANMCH, entre 1998 e 2003. É autora da obra Feira Nacional de Agricultura, Feira do Ribatejo, Retrospectiva, 1954-1988, de 1988 e co-autora de Caneiras e o Tejo – História de uma paixão, em 2013.
Integra o Conselho de Pesquisa do Museu das Migrações e das Comunidades, Fafe, desde 2003 e a Assembleia de Investigadores do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão, desde 2012. Tem publicado vários artigos em jornais locais e revistas relacionados com Santarém e a sua relação com o Tejo, com os movimentos culturais contemporâneos e, ainda, com o republicanismo e 1ª República.

 

Resumo:
O desaire da revolução de 26 de agosto de 1931 obriga a oposição republicana a repensar a sua estratégia política e militar para derrubar o regime. A reunião de Beyris, realizada em novembro de 1931, não reflete um consenso entre os diversos grupos de exilados republicanos.

De finais de 1931 a finais de 1932, período da desunião, cada grupo trabalha autónoma e descoordenadamente, pese embora coincida com a constituição do Comité Supremo (setembro, 1932). De 1933 a setembro de 1934, período da unidade, grupo dos Budas coordena uma intensa atividade conspirativa.

Após o fracasso da revolução de 26 agosto de 1931, o revilharista José Manuel Sarmento de Beires regressa à clandestinidade, continua a sua atividade revolucionária ao serviço da causa republicana, conspirando entre Portugal e Espanha, de 1931 a 1933, destacando-se na reorganização da frente militar revolucionária, em Portugal, de 1932 a 1933.

Em Portugal, supõe-se que José Manuel Sarmento de Beires – agora um dos líderes do Comité Militar do Sul e próximo do movimento operário – organiza uma rede revolucionária que ter se-á multiplicado em várias células revolucionárias.

As fontes historiográficas oficiais da época, apontam para a existência de uma célula revolucionária na região de Santarém, que convencionamos de denominar de “célula revolucionária de Santarém” para o presente efeito, que terá operado entre 1932 e 1933, sob a coordenação de um agente de ligação de José Manuel Sarmento de Beires.

A comunicação “Dinâmicas da Oposição Republicana à iminência do Estado Novo: O caso da célula revolucionária de Santarém (1932-1933)”, inscrita no eixo temático “Organização, resistência e violência política na história local” debruça-se sobre a célula revolucionária de Santarém com o objetivo de entender a sua atuação.

Deste modo, propomos uma observação histórica dividida em duas fases:
A primeira, uma análise macro-histórica desta célula revolucionária que evidencia a relação sujeito histórico e espaço histórico, entrelaçada nos conceitos de tempo histórico e de objetivo histórico, com o propósito de reconstituir o processo histórico da atuação da célula revolucionária.
A segunda, uma análise micro-histórica que contempla cada um dos momentos históricos, deste processo histórico, com o objetivo de identificar as dinâmicas históricas que desencadeiam.

Por último, pretendemos construir uma tipologia de dinâmicas históricas explicativas que dialoga com os dados historiográficos decorrentes quer da análise macro-histórica, quer micro-histórica; e que traduza um conhecimento histórico da atuação da célula revolucionária.

Com esta comunicação, desejamos revisitar um dos muitos fenómenos históricos de células revolucionárias documentados nas fontes historiográficas oficiais do futuro Estado Novo, sendo o nosso maior propósito trazer um entendimento histórico e uma reflexão histórica subordinados à atuação desta célula revolucionária específica, bem como subordinados às implicações que o seu sucesso – e ou fracasso – reflete tanto no aparelho da Oposição Republicana e na região de Santarém quanto no aparelho do futuro Estado Novo.

TERRITÓRIOS, MILITARES E GUERRA

Entre a Serra e o Mar: nível de vida biológico no sul de Portugal no final do Antigo Regime

Carlos Manuel Faísca (CEIS20 – UC) e Renato Pistola (ICS-UL)

 

Carlos Manuel Faísca
Carlos Manuel Faísca é Investigador Auxiliar do Centro de Estudos Interdisciplinares, Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e Presidente da Associação Portuguesa de História Económica e Social. Licenciado em História, doutorou-se em Economia pela Universidad de Extremadura. A sua Tese de Doutoramento, sobre o negócio corticeiro ibérico, recebeu o Premio Extraordinario de Doctorado da U. Extremadura, bem como a Primeira Menção Honrosa do Prémio Jorge Gelman, atribuído pela Sociedad de Estudios de Historia Agraria. Através de outras publicações, foi agraciado com o Prémio Joaquim Romero Magalhães, outorgado pelo Município de Loulé, e o Prémio Santiago Zapata Blanco,

Renato Pistola
Renato Pistola é Investigador Auxiliar do ICS-ULisboa e Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Doutorou-se pela Universidade de Lisboa em 2018 com uma tese dedicada ao estudo da evolução do mutualismo em Portugal, em particular sobre a Montepio Geral, como associação mutualista e como caixa económica. Recebeu, no contexto desse trabalho, um prémio atribuído pelo European Savings and Retail Banking Group no concurso académico Savings & Retail History Award.
Os seus interesses de investigação incluem História Económica, História Social e do Associativismo, História Bancária e estudo dos Padrões de vida e Desigualdade Económica.

 

Resumo:
A análise do nível de vida biológico constitui uma metodologia amplamente consolidada na historiografia económica internacional, mas ainda pouco explorada no caso português. Trata-se de uma via alternativa para aferir padrões de bem-estar em períodos históricos em que faltam dados de salários reais ou de rendimento, ou em que estes revelam enviesamentos significativos. A estatura humana, variável central deste método, resulta da interação entre fatores genéticos e contextuais — nutrição, saúde, esforço físico e condições ambientais —, refletindo de forma integrada o bem-estar material e social.

Este estudo aplica o conceito de nível de vida biológico ao sul de Portugal no final do Antigo Regime, a partir da análise de 1.583 registos de militares do Regimento de Infantaria de Tavira, datados de 1801-1803. Estes registos fornecem informação sobre idade, altura, origem geográfica, filiação e estatuto social na hierarquia militar. A amostra, embora exclua o topo da pirâmide social, é suficientemente diversificada para permitir avaliar as diferenças de bem-estar entre contextos urbanos e rurais, litorais e interiores, bem como entre distintos grupos sociais.
Os resultados apontam três conclusões principais. Em primeiro lugar, confirma se a existência de um diferencial urbano-rural: os naturais de áreas urbanas apresentavam, em média, estaturas mais elevadas do que os provenientes de zonas rurais, independentemente da sua localização litoral ou interior. Em segundo lugar, verifica-se uma clara desigualdade social, com militares graduados a registarem alturas superiores às dos soldados rasos, e com os filhos de pais incógnitos a apresentarem valores significativamente inferiores. Em terceiro lugar, observa-se uma tendência decrescente da estatura ao longo das décadas de nascimento (1750-1780), em consonância com o quadro macroeconómico recessivo que a economia portuguesa atravessava desde a segunda metade do século XVIII.

Estes resultados reforçam, por um lado, a ideia de que os centros urbanos de média e pequena dimensão no sul de Portugal proporcionavam melhores condições de vida, fenómeno até agora apenas documentado para Lisboa. Por outro lado, revelam sinais consistentes de desigualdade social, expressa biologicamente, num período em que as diferenças de rendimento eram particularmente acentuadas. Além disso, a ligeira superioridade de altura da população algarvia em relação à média nacional abre novas pistas de investigação, possivelmente relacionadas com especificidades dietéticas da dieta mediterrânica ou com fatores estruturais da economia regional.

A investigação contribui, assim, para colmatar duas lacunas da historiografia portuguesa: a aplicação sistemática da antropometria histórica e o estudo da desigualdade económica e social no período pré-industrial. Em termos mais amplos, o trabalho reforça a importância de articular métodos quantitativos inovadores com a história económica e social, permitindo aprofundar o conhecimento sobre os determinantes do bem-estar e do desenvolvimento em Portugal na longa duração.

Rumo a Lisboa: a passagem de Junot pelo Cartaxo no contexto da Guerra Peninsular

Miguel Montez Leal (IHA- NOVA FCSH)

Investigador do Instituto de História de arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas desde 2007. É doutorado e mestre em História da Arte e licenciado em História, graus académicos obtidos na mesma Faculdade. Possui a pós-licenciatura no Ramo de Formação Educacional em História (na NOVA fcsh) e a pós-graduação de Estudos Europeus (dominante Jurídica), pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa. Tem participado em inúmeros congressos e colóquios da sua especialidade, dedicando-se maioritariamente ao século XIX em Portugal, tendo obra publicada, livros e papers académicos. É também poeta, assim como genealogista, com obra publicada e cronista na imprensa regional. Foi professor do ensino superior no Instituto Politécnico de Santarém.

 

Resumo:
Em 1807 as tropas francesas comandadas por Junot entram em Portugal pela Beira Baixa tendo como objectivo alcançar Lisboa, a capital do reino e de um então império pluricontinental. Parando em Abrantes, Junot, parte de madrugada rumo ao Cartaxo, na época ainda uma aldeia, embora fosse uma povoação com uma localização estratégica e de alguma importância. Nesta comunicação descreverei este importante episódio no contexto da Guerra Peninsular, suportado por informação investigada a partir dos registos paroquiais locais e por outro tipo de fontes. Esta passagem da soldadesca francesa e pelo Cartaxo e seu hinterland foi dramática e deixou sequelas nesta terra durante ainda muitos anos. O Cartaxo demorou pelo menos quase duas décadas a recompor-se.

A Terceira Invasão Francesa na Marinha Grande: Impactos Materiais e Humanos, Tributação e a Passagem do IX Corpo do Exército Francês

Diogo Moreno (IHC – UÉvora / IN2PAST)

Diogo Moreno é investigador integrado do Instituto de História Contemporânea. É bolseiro de investigação do IHC – Polo da Universidade de Évora. É licenciado em História e Arqueologia pela Universidade de Évora e mestrando em História na mesma instituição. Foi coautor da Exposição “Celebrar a Paz” (2023) e participou com comunicação nos seguintes congressos: 7º ENHCT (2023); 14th ICHC (2025); 27th ICHST (2025); 8º ENHCT (2025). Tem uma submissão aceite de um congresso ainda a realizar: 7th ICRH (2025). Publicou dois artigos com avaliação científica externa na revista Fragmenta Historica (2024). O desenvolvido da sua investigação tem sido em redor da indústria de alcatrão e pez no Pinhal de Leiria, entre os séculos XVIII e XIX.

 

Resumo:
A terceira invasão francesa a Portugal, no contexto das Guerras Napoleónicas, teve um impacto negativo para o território português. Os elevados danos deste conflito são principalmente materiais e humanos, e a História Local tem um papel importante para a uma compreensão mais completa dos impactos deste período. No entanto, para além da análise demográfica e sobre danos em infraestruturas existem outra vias de investigação a considerar. Um desses exemplos é o estudo de conflitos sociais relacionados com o pagamento tributações, por vezes pouco considerados em períodos de guerra, e que para além de representarem uma condicionante à subsistência da população, neste caso da Marinha Grande, reflete também uma vontade de adquirir maior autonomia face às autoridades estabelecidas em Leiria. Outra via de investigação baseia-se no uso de documentação francesa, a qual permite identificar com maior precisão que forças militares passaram em cada localidade, nomeadamente a Marinha Grande, e de forma a perceber qual o seu objetivo naquela região.

O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO PORTUGUÊS

Em 1974 «na Brogueira o Povo disse PRESENTE!»

Margarida Freire Moleiro (C.M. de Torres Novas)

Licenciada em História, com pós-graduação em Património Cultural e mestrado em Estudos Editoriais. Possui o curso de Técnicas Editoriais e o certificado de Formação Avançada do Programa Doutoral em Estudos Culturais. Assume atualmente o cargo de chefia intermédia da unidade Museus e Património Cultural no Município de Torres Novas.

 

Resumo:
Uma breve resenha dos acontecimentos de 22 de setembro de 1974, no concelho de Torres Novas, a partir da reportagem do dia realizada pela RTP, dois jornais da época e do relato de um dos participantes. Esta comunicação decorre do trabalho realizado no âmbito do GEPE – Gabinete de Estudos e Planeamento Editorial do Município de Torres Novas e do CHUDE – Centro Humberto Delgado no ano 2024, que deu origem ao artigo «Há 50 anos “na Brogueira o Povo disse: PRESENTE!” 22 setembro de 1974, a Homenagem Nacional a Humberto Delgado».

Uma vila em revolução: o processo revolucionário em Vinhais (1974-1976)

Leonardo Aboim Pires (ISEG/UL)

Leonardo Aboim Pires é licenciado em História e Mestre em História Contemporânea, pela FCSH/UNL, e doutorando em Ciências da Sustentabilidade, pelo ICS/UL. É investigador do ISEG Research in Economics and Management e membro da European Rural History Organisation.

 

Resumo:
Situado no Nordeste Transmontano, o concelho de Vinhais esteve incluído na dinâmica popular e na mobilização política desencadeadas pelo 25 de Abril de 1974. No contexto da edificação de um país democrático e na superação do passado autoritário, a população vinhaense manifestou adesões, resistências e incertezas perante o processo de transformação política e social em curso, evidenciando a complexidade das reações locais às mudanças vividas, expressa nas duas comissões administrativas que se sucederam entre 1974 e 1976, na extinção do Grémio da Lavoura, entre outros episódios. Identificam-se também neste território iniciativas como parte das Campanhas de Alfabetização da Pró-União Nacional dos Estudantes Portugueses, sob a influência do PCP e do MDP/CDE, bem como ações enquadradas na esfera estatal, entre as quais as Campanhas de Dinamização Agrícola e Sanitária e, com particular relevo, as Campanhas de Dinamização Cultural e de Acção Cívica do MFA.

Num tempo verdadeiramente poliédrico, a atmosfera revolucionária do pós-25 de Abril trouxe a público um vasto leque de reivindicações sociais em Vinhais, que abrangiam desde a carência de infraestruturas básicas (abastecimento de água, habitação, eletricidade, arruamentos e saneamento) à assistência médico-social, passando pela denúncia de problemas locais e pelas exigências no domínio da educação. Entre estas últimas, destacou-se a petição de julho de 1975, subscrita por residentes de 14 aldeias, que solicitava a criação do ciclo preparatório na aldeia de Passos de Lomba. Outro exemplo foi a ocupação do palacete dos antigos Condes de Vinhais, conhecido como Casas Novas, para aí se instalar o ciclo preparatório do ensino secundário, gesto que simbolizava a apropriação comunitária de espaços antes associados à elite local, mas também a prioridade atribuída à democratização do acesso ao ensino. A institucionalização do poder popular constituiu igualmente uma dimensão deste processo, viabilizada pelo apoio do MFA, materializando-se nas 19 comissões de aldeia formadas durante o “Verão Quente” de 1975.

No quadro da história local, esta comunicação propõe-se, através de documentação dos Arquivos de Defesa Nacional, do Arquivo Distrital de Bragança, do Arquivo Municipal de Vinhais, entre outros, e da imprensa periódica regional e nacional coeva, examinar o período revolucionário em Vinhais, evidenciando as suas múltiplas dimensões e procurando constituir um contributo para o aprofundamento da investigação histórica local acerca da Revolução de Abril em Trás-os-Montes.

“Um Trás-os-Montes desprezado, esquecido e emigrado”: O processo revolucionário português em Mirandela (1974-1976)

Patrícia Freitas (FLUP)

Licenciada em História e Mestre em História Contemporânea. Doutoranda em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

 

Resumo:
O golpe militar que se inicia com o 25 de Abril de 1974, por iniciativa do Movimento das Forças Armadas, abriu espaço ao desenvolvimento de um processo revolucionário amplamente participado por vários setores da sociedade portuguesa. Tendo em consideração as assimetrias regionais e as diferenças socioeconómicas e culturais entre as regiões do país, é natural que a revolução não se fizesse sentir de igual forma nos distritos do Norte e do Sul. A partir desta ideia, e tentando contribuir para uma análise da realidade revolucionária a nível local, esta comunicação pretende analisar a situação do concelho de Mirandela durante o processo revolucionário português, enquadrando as suas características no panorama mais global do distrito de Bragança, necessariamente articuladas com o desenvolvimento da revolução nesta região do país. Neste caso, o foco da investigação direciona-se para aspetos relacionados com as vivências sociais, políticas e culturais que se registaram na cidade e nas freguesias. Através da análise dos Boletins do MFA, dos debates parlamentares da Assembleia Constituinte, da imprensa regional e da documentação presente no fundo do Estado-Maior General das Forças Armadas, relativa à Comissão Dinamizadora Regional do Norte, procurar-se-á compreender este processo de mudança que teve alcance e eco fora das fronteiras do concelho e do distrito. Salienta-se aspetos tão relevantes como o papel do MFA no auxílio à população, na promoção de obras públicas e criação de novas infraestruturas, mas também a sua intervenção cultural em atos de proximidade com os habitantes do concelho, especialmente das aldeias. Destaca-se ainda como elementos centrais para a compreensão da história local deste período a criação de várias Comissões de Moradores e Comissões de Aldeia que, juntamente com elementos do MFA, identificavam os problemas e as necessidades das freguesias. Espera-se que esta comunicação possa contribuir para o estudo das particularidades locais do processo revolucionário, bem como para a compreensão do envolvimento da população na construção de um concelho mais dotado de infraestruturas e política e culturalmente mais ativo.

MEMÓRIA E IDENTIDADES RELIGIOSAS

Redes e mecanismos locais de recolha de esmolas para sustento e manutenção dos Lugares Santos (sécs. XVII-XIX)

António Marques Rodrigues

Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2019-2022), onde defendeu a sua dissertação intitulada “«Esmola do sereníssimo Rei e de seus vassalos»: Portugal e a Custódia da Terra Santa (séc. XVII-XVIII)” no âmbito do Mestrado em História e Património (2024). Nas suas pesquisas tem investigado sobre as redes de sociabilidade, esmolas e legados pios durante o período moderno, tendo participado em diversos encontros nacionais e internacionais da especialidade e publicado em revistas da área. Exerce atualmente as funções de docente no ensino básico e secundário.

 

Resumo:
Depois da formação do Comissariado da Terra Santa em Portugal, em 1621, foi criada uma rede organizada de recolha de esmolas destinada ao apoio dos Lugares Santos que se foi densificando ao longo do século XVIII. Esta rede estruturou-se a partir da fundação de hospícios instalados nos conventos dos frades menores, onde as esmolas recolhidas pelos frades — devidamente autorizados pelos prelados locais — eram guardadas sob a supervisão de um síndico. Cada hospício não era apenas um elo administrativo: era também um espaço de mobilização comunitária, onde a população local, confrarias e benfeitores contribuíam, expressando a sua fé através de ofertas regulares ou legados testamentários. Posteriormente, esses valores ou outros bens eram enviados, em dinheiro ou por letras de câmbio, para Lisboa. Aí eram reunidos e preparados para envio até à Terra Santa.

A documentação, especialmente os livros de contas do Hospício de Lisboa, permite reconstituir esta densa malha de agentes locais distribuídos por Portugal e pelos territórios ultramarinos (Apêndice I). Revela-se, assim, um quadro detalhado dos circuitos de transporte, entrega e encaminhamento das esmolas, bem como a variedade de intervenientes envolvidos — desde frades a leigos e comerciantes. Destaca-se ainda a presença de legados e ofertas diversas, testemunho claro do forte compromisso espiritual e material dos fiéis portugueses na manutenção dos Lugares Santos. A título exemplificativo, sobressaem as esmolas enviadas pelo hospício de Santarém entre 1748 e 1793, ilustrando concretamente a importância e vitalidade destas redes locais.

“Quadros Regionaes. Um dia na Escudeira" - Contexto e características de um folhetim ímpar na imprensa local setubalense

Pedro Fernandes (HTC-CEF NOVA FCSH)

Licenciado em Comunicação Social/Jornalismo, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais e Doutorando em História Contemporânea. Investigador Integrado do Pólo História, Territórios e Comunidades (FCSH UNL). O seu trabalho de investigação assenta no domínio da História Local.

 

Resumo:
A Quinta da Escudeira, junto a Vale dos Barris (Palmela), constitui a única propriedade agrícola privada, na zona circundante a Setúbal e Palmela, que ainda acolhe correntemente uma celebração de cariz popular. As denominadas Festas de Nossa Senhora da Escudeira terão reportadamente tido início com a construção da capela da Quinta, da referida invocação, em meados do século XVIII, com a propriedade a receber a partir de então uma colorida festividade anual, ancorada na romaria de foro religioso.

É graças a este evento que a Quinta da Escudeira se torna igualmente no único espaço agrícola do referido contexto geográfico a ser imortalizado em obra literária, com uma edição das ditas Festas a providenciar o pano de fundo para os “Quadros Regionaes” do autor Manuel Envia, sob o subtítulo “Um dia na Escudeira”, uma série de episódios que surgem, em modelo de folhetim, ao longo de 17 edições do periódico A Folha de Setúbal, com início em 04 de Outubro de 1914 e fim em 25 de Março de 1915. Esta série de folhetins, os quais viriam mais tarde a ser compilados e editados em formato livro, permite ao leitor acompanhar o fim-de-semana da Festa da Senhora da Escudeira de Agosto de 1914, ao longo do qual o próprio autor e dois companheiros se encontram imersos numa narrativa que privilegia a comédia física e situacional, delineada sobre circunstâncias improváveis e protagonizadas por personagens-tipo unidimensionais, com o folhetim a assumir um tom de aparente inspiração no emanado por obras como o Serões da Província (1870) de Júlio Dinis, embora com uma inclinação ainda mais marcadamente popular.

O formato folhetim-romance foi cimentado em 1842 pelos Mistérios de Paris de Eugène Sue, no Journal des Débats, disseminando-se depois rapidamente pelos periódicos europeus, passando a constituir uma relevante parceria entre imprensa e literatura e fidelizando o leitor ao periódico. Um dia na Escudeira assume-se como um caso singular na imprensa setubalense, pois embora diversos títulos tenham publicado conteúdos neste formato, nenhum outro folhetim foi associado a uma realidade local/regional.

A comunicação delineada nesta proposta pretende focar as particularidades do “Um dia na Escudeira”, ponderando a relevância deste folhetim no contexto do percurso histórico da imprensa de Setúbal, ponderando paralelamente o conceito de “lugar” e respetiva influência na trajetória das narrativas, assim como a noção de “festa” como património imaterial e fenómeno indissociável da civilização, dotado de uma relevante função social de difusão de valores e sentimentos coletivos, e criação de uma identidade partilhada.

ASSISTÊNCIA, SOCORRO E SAÚDE

A Misericórdia de Leiria e o auxílio aos viajantes pobres nas primeiras décadas de Oitocentos

Ricardo Pessa de Oliveira (IECCPMA – Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes; e CEG-UAb – Centro de Estudos Globais, Universidade Aberta)

Licenciado em História, ramo Científico, pela Universidade do Minho (2005); Mestre em História Moderna, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2007); e Doutor em História, na especialidade de História Moderna, pela mesma instituição (2014). Investigador Auxiliar da Carreira de Investigação Científica, é autor de livros, capítulos de livros e de artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras, tendo participado em colóquios, congressos e seminários realizados em Portugal e no estrangeiro (Brasil, Espanha, França e Itália). As suas principais áreas de investigação têm sido a história da assistência, a história das misericórdias e a história religiosa. Recebeu uma Menção Honrosa pela Academia Portuguesa da História (2016), o Prémio Dr. João Lobo – História, atribuído pela Academia Portuguesa da História (2022), o Prémio Júlio Fogaça, atribuído pela Academia das Ciências de Lisboa (2022) e o Prémio Fundação Eng.º António de Almeida, pelo Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão (2025).

 

Resumo:
A localização geográfica da cidade de Leiria, o facto de ser servida pela estrada real que ligava Coimbra a Lisboa e de existir na urbe uma misericórdia, motivaram a passagem anual de centenas de pobres pela localidade, num fluxo que se tornava mais evidente nos meses em que a procura do hospital termal das Caldas da Rainha se intensificava. Através da análise das respostas desta Santa Casa às portarias régias de 4 de dezembro de 1822 e de 9 de julho de 1827, das contas da instituição enviadas pelo provedor da comarca para o Desembargo do Paço e dos mapas de cartas de guia remetidos à Intendência Geral da Polícia, tudo em cumprimento do alvará de 18 de outubro de 1806, pretende-se apurar o peso que a ajuda à população em trânsito teve nesta irmandade, tentando perceber, entre outros aspetos, quanto é que se gastava com essa modalidade assistencial, quantos indivíduos foram providos, qual o seu género, a sua naturalidade, a sua proveniência, o seu destino e o apoio que efetivamente receberam para conseguir prosseguir viagem, não deixando de tentar comparar a realidade desta misericórdia com a de outras da região e do país.

Profissionais de saúde municipais no Portugal de oitocentos

Paulo Jorge Leitão (IHC-NOVA FCSH)

Licenciado em História pela Faculdade de Letras da UL, Pós-Graduado em Ciências Documentais pela mesma Universidade (1991), Mestre em Estudos de Informação e Bibliotecas Digitais (ISCTE, 2004), Doutorado em Ciências da Informação e da Documentação (UÉ, 2014), Doutorado em História (UNL, 2022).
Desde 1991, desenvolve a sua atividade profissional como bibliotecário com responsabilidades de gestão em vários tipos de bibliotecas. Atualmente responsável pelo Setor de Sistemas de Informação na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian.
Paralelamente, tem desenvolvido atividade docente em pós-graduações e mestrados na área das Ciências da Informação e publicado vários artigos em publicações da especialidade.

 

Resumo:
O funcionalismo municipal durante oitocentos é tema praticamente ausente dos interesses da historiografia portuguesa. Excetua-se o caso dos profissionais de saúde, particularmente o caso dos facultativos de partido, que têm sido objeto de algumas análises de âmbito regional ou local. No entanto, estamos ainda longe de conhecer esta realidade à escala nacional nas várias dimensões possíveis de análise, desde a sua distribuição e áreas de atuação até às formas de contratação, passando pelos vencimentos e frequência de exercício do respetivo cargo. E, no entanto, a existência de médicos partido, realidade de longíssima duração (a sua existência prolonga-se até abril de 1981), constituiu uma das principais formas de concretização das missões municipais na área da saúde individual, fundamentalmente de carácter assistencial, e da saúde pública, missões que se vão diversificando ao longo de oitocentos, quer por iniciativa municipal, quer por pressão do Poder Central. No caso de outros profissionais, como Boticários, Parteiras e Veterinários, a realidade é ainda mais desconhecida.

O que se pretende, então, com este estudo é analisar e compreender esta realidade à escala nacional através de um conjunto diversificado de casos oriundos de concelhos do litoral e do interior e do norte e sul do território, sobretudo no período da segunda metade do século XIX.
O conjunto de casos analisado revela, em primeiro lugar, que, sobretudo nos casos dos maiores concelhos, se assiste a um crescimento do número de médicos de partido, por via de uma cobertura mais fina do território concelhio. Se, na maior parte dos casos, este crescimento parece ter ocorrido ao sabor dos tempos, a partir de uma concentração inicial apenas na sede do concelho, nomeadamente do crescimento populacional, outras câmaras, como Vila Nova de Gaia, definiram cedo no tempo uma estratégia de cobertura para o território. Estes são sempre os profissionais mais bem pagos em todos os concelhos, até porque são praticamente os únicos que detém formação especializada de nível superior e um estatuto social diferenciado. Isto explica alguma da resistência municipal em assumir a sua contratação e não os inibe, como outros profissionais ao serviço das câmaras, do flagelo das dívidas no pagamento atempado do seu vencimento, que se verifica até bastante tarde.

Os contratos estabelecidos com as administrações municipais são, na sua maioria, de “pulso livre”, ou seja, conjugam a clínica pública (grátis), destinada aos pobres e desfavorecidos, como, aliás, previa a legislação; com a clínica privada, que pode ser altamente regulamentada quanto ao tipo de atos médicos praticados e respetivos preços. São os mais pequenos concelhos e do interior do território que, sobretudo no início do período estudado, conhecem mais dificuldades em contratar e manter este tipo de profissionais, apesar de praticarem vencimentos tendencialmente superiores. Diacronicamente, a presença destes profissionais é cada vez mais frequente no todo nacional, particularmente a partir dos anos 70, e o início século XX parece tendencialmente conhecer uma cobertura nacional, até porque como se afirma em 1901 no Regulamento dos Serviços de Saúde Pública e Beneficência, “fica sujeito à supressão o concelho que por falta de recursos não puder suportar a despesa de um partido”.
A frequência das outras categorias profissionais referidas é claramente muito menor, apesar de ser visível um certo crescimento no final do período em análise. Enquanto que parteiras e veterinários são objeto de um mesmo tipo de contrato que os médicos, as funções do boticário de partido podem limitar-se apenas ao fornecimento de medicamentos aos pobres. Vencimentos de boticários e parteiras são claramente inferiores aos dos médicos, o que não acontece no caso dos veterinários. No entanto, a variação é significativa neste último caso e depende da extensão das funções a desempenhar.

Em síntese, o quadro que esta investigação revela é, apesar da diversidade regional, a do crescimento da cobertura municipal dos serviços de saúde prestados por estes profissionais, que se vai progressivamente estabilizando ao longo do tempo, sem que, no entanto, não deixem de ocorrer, até tarde no tempo, fenómenos de irregularidade na sua frequência.

Assistência na doença no concelho de Ponte de Sor no século XIX: entre as misericórdias e os partidos municipais de medicina e farmácia

Ana Isabel Coelho Silva (Universidade de Coimbra, CEIS20; Município de Ponte de Sor)

Licenciada em História (2004), especializada em Ciências Documentais, vertente Arquivo (2006) e Doutorada em Altos Estudos em História, ramo Época Contemporânea (2018), com a tese Assistência social em Portugal na Monarquia Constitucional (1834-1910): da doutrina à prática no Alto Alentejo, em todos os casos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi Professora Auxiliar convidada da mesma Faculdade, entre 2020 e 2024. É atualmente Chefe de Divisão de Cultura e Turismo do Município de Ponte de Sor, onde trabalha como Técnica Superior desde 2009. Investigadora Integrada do Centro de Estudos Interdisciplinares – CEIS20, da Universidade de Coimbra, tem publicadas monografias, capítulos de livros e artigos nos campos da História da Assistência e da Saúde, com destaque para o tema das Misericórdias portuguesas, e da História Local, principais áreas de interesse e investigação.

 

Resumo:
Proponho traçar o quadro institucional da assistência na doença no território do atual concelho norte-alentejano de Ponte de Sor, no período da Monarquia Constitucional (1834-1910), inserido no contexto regional e nacional. A análise será feita tendo no horizonte, por um lado, o confronto entre a teoria e a prática, ou seja, entre o que estava legislado e regulamentado e as ações efetivas; e, por outro lado, a titularidade pública, privada ou mista da assistência, assinalando as particularidades locais e regionais em relação ao panorama nacional. Em investigação anterior, constatámos para o caso do Alto Alentejo um cenário misto, com a forte participação do setor público no plano assistencial, não só enquanto regulador ou fiscalizador da ação privada, mas com intervenção direta ao nível da gestão e do financiamento do socorro à infância desvalida e na doença, a par da manutenção da importância histórica das misericórdias no setor privado, principalmente na assistência hospitalar, e de alguns contributos individuais inspirados em sentimentos filantrópicos e/ou caritativos, destinados à infância e à pobreza inválida. No caso específico dos cuidados de saúde, o grande contributo era dado pelas misericórdias, através dos seus hospitais, que representavam, juntamente com os partidos municipais de saúde, as únicas formas de combate à doença acessíveis aos pobres. As Santas Casas assumiram também frequentemente as despesas com os doentes das suas localidades no Hospital de S. José, em Lisboa, apesar dos conflitos com as câmaras, e participaram no financiamento dos partidos municipais, de forma voluntária ou imposta. Recorrendo a diversas fontes manuscritas e impressas, proponho, concretamente, caraterizar a rede hospitalar concelhia de Ponte de Sor, apoiada na concentração da atividade das Misericórdias do território do atual concelho (Ponte de Sor, Galveias e Montargil) na gestão dos seus hospitais, considerando as respetivas instalações (estado e capacidade), frequência e população assistida; bem como analisar o funcionamento dos partidos municipais de saúde (medicina e farmácia), criados e mantidos pelas Câmaras Municipais de Ponte de Sor e Montargil (até à integração desde concelho no de Ponte de Sor), em particular os muitos condicionalismos que enfrentaram.

História Local e Identidade Coletiva: 150 anos da Companhia de Bombeiros Sapadores de Leiria (1874-2024)

Carolina Pereira Henriques (CHSC-FLUC)

Doutorada em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com uma tese intitulada “Fugindo à Guerra e ao Holocausto através de Portugal: os refugiados nas zonas de ‘residência fixa’ da Região Centro (1940-1946)”, pela qual recebeu o Prémio Victor de Sá de História Contemporânea (2024) e o Prémio Mário Soares – Fundação EDP 2024. É autora do livro Refugiados da Segunda Guerra Mundial nas Caldas da Rainha (1940-1946), publicado em 2017, e coautora de Refugiados em Portugal no século XX: entre a hospitalidade e a intransigência (Manuscrito, 2024). Integrou o Projeto Diálogos sobre a(s) Intolerância(s), coordenado por Jaime Gouveia, em resultado do Apoio Financeiro à Promoção da Cultura Científica (Universidade de Coimbra, edição de 2022) e foi consultora histórica do documentário brasileiro “Portugal, Trampolim para a Liberdade” (2023). Atualmente, é Professora Auxiliar convidada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Investigadora Integrada no Centro de História da Sociedade e da Cultura (CHSC-FLUC),além de colaborar em obras (individuais ou coletivas) de História Local.

 

Resumo:
A história da Companhia dos Bombeiros Sapadores de Leiria (CBSL) remonta à segunda metade do século XIX, mais precisamente, ao ano de 1850, e ao início (segundo a documentação que se conhece), do seu Serviço de Incêndios. Passou por diferentes fases de organização – Associação de Bombeiros Voluntários (1891-1940) e Bombeiros Municipais (1940-2019) – até se constituir, em 2019, como Companhia de Bombeiros Sapadores. No entanto, era o ano de 1893 (ano da chegada de Cristiano Schurmann à cidade, que se ofereceu para “tomar conta do material existente, obrigando-se gratuitamente não só à direcção e responsabilidade como a instruir todo o pessoal que se torne necessário”, vindo a tornar-se o primeiro comandante dos bombeiros leirienses), que estava convencionado como a data de fundação histórica desta corporação de bombeiros o que, se atentarmos aos diferentes momentos da sua existência, acabava por não fazer sentido, pois ignorava todo um conjunto de acontecimentos ocorridos décadas antes. Embora, em 1850, existisse já um Serviço de Incêndios, que havia sido instituído na cidade de Leiria após um forte incêndio, e que não se deve ignorar, esta data não compreende verdadeiramente a criação de uma companhia de incêndios na cidade, antes remete para um período em que o município se começou a preocupar com o combate a incêndios e, para isso, procurou adquirir os primeiros equipamentos, para uma futura corporificação. Assim, e na sequência de um trabalho de investigação apoiado pelo município de Leiria, publicado brevemente em livro, foi possível com recurso a novos dados históricos, definir uma nova proposta de datação (à semelhança do que ocorreu, recentemente, a 5 de fevereiro de 2024, com os bombeiros do município de Braga): o ano de 1874.

No fundo, a documentação analisada (atas camarárias, regulamentos, periódicos, entre outros) mostrou como o ano de 1874 pode ser apontado como aquele que marca a existência de uma primeira proposta de criação de uma corporação de bombeiros na cidade, por parte do vereador leiriense Luís Augusto do Souto (1835-1913), devendo ser àquela entregue uma Bomba de Incêndios (que viria a ser adquirida pela Câmara Municipal, no ano seguinte). Contudo, desconhece-se ainda um documento que comprove a sua efetiva corporalização nesse ano. Aliás, em 1876, isto é, quinze anos antes da constituição da Associação de Bombeiros Voluntários (1891), Leiria acolheu um instrutor dos Bombeiros Municipais de Lisboa, João Dias Dourado, para a preparação dos bombeiros leirienses, o que permitiu comprovar a existência, naquele momento, de um conjunto de elementos que tinham como função o combate e a prevenção a incêndios, ainda que numa fase bastante incipiente e sem uma composição conjunta. O primeiro Regulamento Interno da Corporação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Leiria (que tinha como fim “prestar soccorros contra incêndios e outras calamidades”, na cidade de Leiria, seus subúrbios e em qualquer parte do concelho “para onde sejam requisitados os seus serviços pela auctoridade administrativa”), só seria aprovado, porém, em 1894.

Estes novos dados foram apresentados ao município de Leiria que, sustentado dos pareces históricos devidos, deliberou no sentido de aprovar a alteração da data da fundação histórica da companhia para o ano de 1874 (CML, Deliberações, Edital n.º 78/25, Ponto 39, 15 de maio de 2025). A alteração, por outro lado, abriu caminho à futura celebração dos 150 anos de existência dos bombeiros de Leiria (1874-2024). Esta comunicação tem como foco, fundamentalmente, os processos de construção do saber histórico, valorizando a História Local como elemento-chave na formação e fortalecimento da identidade coletiva das comunidades.

INFRAESTRUTURAS E OBRAS PÚBLICAS

"Os outros povos, que querem a derivação da linha para Cahide" - Um olhar sobre as influências no projeto de construção da Linha do Tâmega

João Fidalgo

Licenciado em História (2018), Mestre em Ensino da História no 3.º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário (2020) e Mestre em História Contemporânea (2023) com uma dissertação intitulada “A Linha do Tâmega (1900-1949) Da idealização à concretização”. Atualmente exerce funções de docência no Ministério da Educação, Ciência e Inovação.

 

Resumo:
Apesar de legislado e estabelecido desde 1900, o trajeto da Linha do Tâmega ainda provocava, em 1904, um choque entre duas localidades da Região que hoje denominaríamos como Tâmega e Sousa. Em meados desse ano, por iniciativa dos interesses económicos e com apoio do poder político local, Felgueiras consegue interceder junto do governo para uma mudança substancial no projeto. Ignorando o Plano decretado no dealbar do século, exigem o início do caminho de ferro em Caíde, com passagem pela Lixa, seguindo apenas aí em direção a Amarante. É iniciado então um conflito envolvendo os agentes económicos e políticos da Região, na defesa dos respetivos interesses.
Através da análise de periódicos locais, bem como das Atas de Vereação de Amarante e Felgueiras, é possível reunir informação sobre todo o processo relativo ao estudo deste projeto, mas sobretudo sobre as vontades e influências exercidas quer pelo poder económico, quer pelo poder político.

A investigação apresentada visa compreender o impacto dos interesses estabelecidos e a sua intromissão no processo de tomada de decisão final. São vários os atores que, através da sua posição na hierarquia da sociedade local ou nacional, tomam partido por um dos Concelhos, na defesa das suas pretensões. Através desta análise é possível, num exercício hipotético, reconstituir cartograficamente o possível trajeto alternativo.
Com a apresentação do traçado alternativo, inicia-se um processo de defesa das respetivas posições, em primeiro lugar, através da Imprensa, com cidadãos notáveis de ambos os lados a assumir uma posição de proteção das pretensões. Seguidamente, com a entrada em cena de Associações de comerciantes, quer formais, como o “Centro Comercial do Porto”, quer informais, como a associação de comerciantes em Amarante. Por fim, o poder político envolve-se através das autarquias e inclusivamente outras esferas superiores da governação nacional, tais como o Ministro da Justiça, Campos Henriques, bem como o Conselheiro António Cândido.

Nestes curtos meses de contestação e tentativa de influência sobre a política de Obras Públicas do País, o projeto patrocinado em grande medida pelo Dr. Cerqueira Magro, dono do Sanatório do Seixoso, acaba por esbarrar nas óbvias dificuldades técnicas, mas sobretudo financeiras, do plano.
Apesar da tração obtida pela proposta de Lousada e Felgueiras, conseguindo que o estudo à variante do projeto original fosse efetuado, este acabou por não resistir às condições da engenharia. Foi Fernando de Sousa, notável engenheiro dos caminhos de ferro que, após os estudos, afirmou inequivocamente que a variante por Caíde não trazia qualquer vantagem ao projeto. Pois esta atrasaria substancialmente a viagem até Amarante, além de se cifrar num custo perto do dobro ao plano já legislado.

É possível, através deste estudo de caso, compreender como a influência política e económica foram capazes de levar avante uma pretensão que, apesar de antiga, estava descartada há mais de quatro anos. Através das proximidades entre o poder local, os atores políticos nacionais e as associações de comerciantes, foi possível por um lado, reabrir um processo até então resolvido, mas por outro, defender as ambições já conquistadas. Trata-se de um caso indissociável do contexto político nacional, influenciador do desfecho desta questão, independentemente do parecer técnico que não pretendia alterar o projeto.

Infraestruturas da modernidade: a cobertura das ribeiras de Alcains como objeto de história local

Rúben Torres Martins

Rúben José Torres Martins é licenciado em História pela Universidade Nova de Lisboa (2014), onde concluiu também o Mestrado em Ensino da História (2018). Frequenta desde 2022 o Doutoramento em Educação na Universidade da Beira Interior, desenvolvendo a tese O Museu como plataforma de comunicação entre a Educação Histórica e a Cultura Científica.
É professor de História desde 2018, tendo lecionado no Colégio do Sagrado Coração de Maria de Lisboa e no Agrupamento de Escolas de Paço de Arcos. Atualmente exerce funções no Agrupamento de Escolas Vergílio Ferreira, em Lisboa. Dedica-se ainda à investigação do património cultural de Alcains, em colaboração com a Junta de Freguesia, estando a escrever o livro Almas da Pedra – A História de Alcains.

 

Resumo:
A comunidade de Alcains cresceu em torno de duas ribeiras, que marcaram o espaço natural e social da comunidade ao longo de séculos. No entanto, no século XX, o rápido crescimento demográfico revelou as fragilidades das infraestruturas locais existentes. Durante a II Guerra Mundial, a escassez de recursos agravou-se e a população enfrentou fome, pobreza e graves problemas de abastecimento. Os fontanários e chafarizes da então aldeia revelaram-se insuficientes para as necessidades quotidianas. Em 1946, o Jornal Reconquista destacava a falta de água potável para consumo e higiene e em 1949 vários artigos reforçavam a precariedade da situação. Ao mesmo tempo as ribeiras acumulavam descargas poluentes, refletindo a ausência de saneamento básico.

A pressão da comunidade e a ação política local (Junta de Freguesia, Governo Civil e Câmara Municipal) levaram ao lançamento das obras de cobertura da ribeira, publicadas oficialmente em 1951 no Diário da República. Não obstante, os trabalhos arrastaram-se por demasiado tempo, e em 1963 ainda havia notícias da sua inacabada execução. Só no final da década de 1960 se consolidou a cobertura, coincidindo com a fase de industrialização, crescimento populacional e ascensão de Alcains ao estatuto de vila já em 1971.
A cobertura da ribeira não foi apenas uma obra de engenharia: representou uma transformação radical da paisagem, da vivência coletiva e da identidade local. O espaço natural foi substituído por galerias cobertas em pedra, debaixo do cimento e do alcatrão à superfície por onde Alcains se desenvolveu.

A presente comunicação, assente em fontes primárias (imprensa regional, publicações oficiais, entrevistas) e complementada por registos fotográficos inéditos das galerias cobertas, pretende discutir como Alcains enfrentou, no pós-guerra, os desafios da modernização urbana, da gestão da água e da redefinição da memória coletiva em torno das suas ribeiras.

A importância da obra do arquiteto António Rodrigues da Silva Júnior – O caso da Central do Caldeirão de Torres Novas

Maria Elvira Marques (Câmara Municipal de Torres Novas)

Licenciada em História e Mestre em História Social Contemporânea e pós-graduada em Museologia e Estudos do Património Cultural, desenvolve a sua atividade profissional na região de Santarém, de onde é natural e onde reside, no âmbito da cultura, da história regional, do património cultural e da museologia. Atualmente dedica-se ao nível da investigação às áreas do estudo e valorização do Património Industrial e exerce funções na Divisão de Cultura do Município de Torres Novas.

 

Resumo:
Apresentam-se algumas notas sobre a importância da obra do arquiteto António Rodrigues da Silva Júnior (1868-1937), autor do projeto da Central do Caldeirão, resultado de algumas pesquisas, realizadas para a elaboração de levantamentos e estudos do domínio do património industrial de Torres Novas, concretamente no âmbito da produção hidroelétrica e da construção do edifício da central do Caldeirão, a estação hidroelétrica de Torres Novas, inaugurado em 1940. Figura proeminente nas áreas da engenharia e arquitetura portuguesa, recebeu uma distinção do Prémio Valmor de Arquitetura e foi fundador e presidente da Sociedade Teosófica Portuguesa, e da Liga Portuguesa de Defesa dos Animais de Lisboa. Foi membro da Academia das Ciências e pertenceu à primeira Associação de Classe, depois Grémio Técnico Português, onde exerceu funções nas secções de Engenharia Geral, Arquitetura e Construção Civil. No contexto da musealização e reabilitação do edifício, foram realizados levantamentos das plantas originais de construção do edifício assinadas pelo autor, e dados alguns contributos para a recolha de espólios particulares, identificação, classificação, e estudo, concretamente do património elétrico, contemplando a realização de operações técnicas no domínio do inventário de peças e equipamentos, e ainda de recolhas de memórias do trabalho e dos trabalhadores e correspondente tratamento documental.

Drinking Water Supply in Tavira, Faro and Ayamonte (1910-1974)

Ignacio García Pereda; Beatriz Barroso (FCUL)

 

Ignacio García Pereda (ORCID: 0000-0003-1956-3412). Contracted researcher (FCT-CEEC) in the Department of History of Science of the University of Lisbon (FCUL). He studied forestry and history of science at the Universidad Politécnica de Madrid (Spain), ENGREF (France), and the Universidade de Évora (Portugal). He held academic positions in Spain (Universidad de Extremadura), Portugal (Faculdade de Letras de Lisboa). He has published twelve monographs and more than 15 articles in edited books and peer-reviewed journals such as Notes and Records, Media History, Social History of Medicine, Historia Agraria, Ler História. His research interests lie in the History of Science, in the Environmental History, namely forests and agriculture, in Historical-Cultural Heritage and Material Culture.

Beatriz Barroso is a student of the undergraduate academic program in Biochemistry (FCUL). During high school, she took part in various projects, including the Parlamento dos Jovens (Youth Parliament), where participated in the competition Euroscola, presenting a paper on the subject of corruption, winning the district session and taking part in the national session. She also coordinated the fifth edition of the Conferência Estudantil de Adaptação às Alterações Climáticas at the Campus da Penha da Universidade do Algarve. She has taken part in programmes such as DiVaM

 

Resumo:
Water supply has historically been one of the most important, expensive, and complex urban public services. In the 20th century, some medium-sized cities, sometimes not provincial capitals, experienced significant growth thanks to industry, finding the supply of drinking water a major problem and challenge. This article analyzes three cases of this kind: Tavira, Faro (both in Algarve, Portugal) and Ayamonte (Huelva, Spain). Therefore, the objective of this paper is to analyze, with a comparative perspective, how a modern drinking water supply system was built with limited financial resources and a complete lack of local experts.

ECONOMIA, AGRICULTURA E INDÚSTRIA I

A filoxera no concelho de Almeirim (1882-1900)

Fábio Emanuel Oliveira (CH-UL/ACL)

Mestre em História Moderna e Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 2022, é estudante bolseiro de Doutoramento em História Contemporânea na mesma instituição. Interessa-se pelo estudo de temas relacionados com agricultura, indústria, comércio e sociedade nos séculos XIX e XX, com especial incidência a nível local e regional

 

Resumo:
A Europa vitícola da segunda metade do século XIX foi invadida pela filoxera. Altamente mediatizada, realizaram-se inúmeros congressos internacionais, publicaram-se livros e artigos e, revolucionou-se o sector vitícola tecnológica e culturalmente. Presente em Portugal desde os finais dos anos de 1860, a praga fez-se sentir primeiramente na região do Douro e só a partir da década de 1880 se estendeu ao restante território português. “O terrível afídio”, como os coevos de então nomearam, transformou vinhas em mortórios, alterou a paisagem, aumentou os custos de produção, fomentou a vinha americana, provocou a emigração de inúmeras famílias e originou crises vinícolas.

Marcadamente vitivinícola, o concelho de Almeirim não escapou a esta dura conjuntura. Portanto, onde e a que ritmo se disseminou a praga pelo concelho? Que papel desempenhou a Câmara Municipal na adopção de medidas anti-filoxéricas? Que soluções foram adoptadas para debelar a filoxera? Qual a relação entre os resultados dos tratamentos sulfocarbónicos e o empenho dos viticultores almeirinenses na luta contra a praga? O insecto impôs a nova vinha, surgindo outras necessidades, como novos métodos de plantação, poda, enxertia e adubação. Como tal, será que os viticultores almeirinenses aderiram e aplicaram novos granjeios?

Do ponto de vista do impacto na produção vinícola na província da Estremadura, a historiografia afirma que até meados da década de 1880, a produção aumentou, verificando-se a sua diminuição gradual até meados da década de 1890; recuperando depois até ao final do século XIX. Portanto, será que o concelho acompanhou estas conjunturas produtivas? Qual terá sido o real impacto na produção vinícola no concelho de Almeirim?

O contributo de Santarém para o estudo da produção oleícola nacional do azeite e da azeitona (1936-1972)

Tiago Gomes (Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia – FCUL)

Doutorando, com bolsa mista da Fundação para a Ciência e Tecnologia, em História e Filosofia das Ciências, com especialização em História das Ciências, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Afiliado do Centro Interuniversitário de História da Ciência e das Tecnologias, trabalhando sob a orientação de Ana Simões, Ignacio García-Pereda e Ignacio Suay-Matallana (Instituto Interuniversitário López Piñero –
Universitat de València). Detentor de graus de licenciado e mestre em Química, obtidos na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Na anterior área de formação, com participação frequente em congressos de alcance institucional, nacional e/ou internacional – como elemento da organização ou participante com comunicação oral/em poster – tendo publicado, enquanto co-autor, no campo da química organometálica. As principais linhas de investigação atual são as seguintes: História da Ciência no Século XX; História das Ditaduras no Século XX; História da Agricultura no Século XX e História da Química no Século XX.

 

Resumo:
O princípio de autarcia do estado, no que respeita aos recursos naturais, conduziu à criação do primeiro Laboratório de Estado – a Estação Agronómica Nacional (1936). Mas a agenda científica do regime não se restringiu aos grandes Laboratórios de Estado.
Alicerçou-se também na criação de entidades corporativas, em concordância com os objetivos ideológicos do regime, que viessem a assegurar a massificação da produção de alimentos essenciais – o trigo, o vinho, o azeite e as frutas. Assim, a partir de 1936, surgiram a Junta Nacional das Frutas, a Junta Nacional do Azeite e a Junta Nacional do Vinho.

Apesar da importância do azeite para o regime do Estado Novo, os mecanismos de funcionamento e de ação da Junta Nacional do Azeite ainda não foram alvo de uma reflexão histórica, que destaque o seu real impacto no setor, entre 1936 e 1972, ano em que é convertida, por agregação com a Comissão Reguladora de Oleaginosas e Óleos Vegetais, no Instituto do Azeite e Produtos Oleaginosos.

Ao abrigo da Junta Nacional do Azeite, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970, foram criadas diversas cooperativas e grémios, com o intuito de agregar os produtores e trabalhadores do setor do azeite e da azeitona sob a mesma tutela, com a aplicação de procedimentos de colheita e posterior produção uniformizados, ao longo do território nacional.

No entanto, e apesar de tal ação seguir os princípios ideológicos do regime corporativista, não impediu a criação e a proliferação de pequenos empreendimentos, produtores de dimensão regional ou empresas com alcance nacional, estabelecendo se enquanto viáveis alternativas às cooperativas e aos grémios criados pela Junta Nacional do Azeite – sem que, contudo, operassem à revelia desta.

Em função da necessidade de reportar à Junta Nacional do Azeite as quantidades de azeitona colhida e de azeite produzido, assim como da possibilidade de receção de avales ou outras vertentes de financiamento a partir dos fundos da Junta, diversos registos financeiros e legais foram sendo mantidos em arquivo, com parte deles a chegarem à atualidade.

Assim, a partir do arquivo pessoal e profissional de Manuel de Lucena, tutelado pelo Arquivo de História Social, associado ao Instituto de Ciências Sociais, foi possível consultar esta diversa e aprofundada informação, que permite um primeiro olhar sobre o estado do setor do azeite e da azeitona, no período de existência da Junta Nacional do Azeite – nomeadamente sobre Santarém, o distrito onde se observou, no tempo considerado, a maior densidade de cooperativas, grémios e empresas/negócios particulares, assim como a maior capacidade de colheita de azeitona e posterior produção de azeite, em todo o país.

No que diz respeito à região de Santarém, adquire especial interesse a história regional do setor, em função dos dados enunciados, pelo seu papel crucial, não apenas para a azeitona e para o azeite, mas para a agricultura como um todo – a destacar, nesse aspeto, a relevância da Escola Agrária de Santarém na formação de técnicos que vieram a fazer parte dos quadros da Junta Nacional do Azeite.

Por conseguinte, propõe-se, com este trabalho evidenciar o real papel do distrito no panorama económico do setor do azeite e da azeitona, com base nos dados recolhidos no Arquivo de Manuel de Lucena, num primeiro plano; num segundo aspeto, pretende se conferir um primeiro olhar aos intervenientes de maior relevo, com ligação à Junta Nacional do Azeite, no setor, que sejam originários ou se tenham formado na região de Santarém.

O vinho do Cartaxo: marcas de modernidade num setor de tradição

Ana Carina Azevedo (HTC-CEF NOVA FCSH)

Ana Carina Azevedo é Doutorada em História e investigadora no História, Territórios e Comunidades (CFE-UC/NOVA FCSH). Os seus principais interesses de investigação são a História Portuguesa do século XX, nomeadamente a História Social e do Trabalho, a História Local e estudos do Património. Colaborou em vários projetos de investigação e, atualmente, desepenha o cargo de Mediadora Linguística e Cultural no Agrupamento de Escolas Marinhas do Sal, em Rio Maior.

 

Resumo:
O concelho do Cartaxo é sinónimo de vinho. Porém, o desenvolvimento do seu setor vitivinícola ao longo do século XX não é ainda convenientemente conhecido. De facto, na memória coletiva permanece ainda a imagem do “carrascão”, o vinho que era possível “cortar à faca”, não obstante os padrões de qualidade atuais que têm elevado o vinho do Cartaxo a níveis premiados internacionalmente. Menos conhecidas são as marcas de modernidade que, desde finais do século XIX, pautaram esta produção. O vinho que arrecadava prémios nas Exposições Internacionais. As dezenas de produtores engarrafadores que, desde meados do século XIX, marcaram o cenário económico do Cartaxo – paralelamente aos muito mais numerosos produtores a granel -, estando alguns deles dotados dos mais modernos equipamentos destinados à produção, armazenamento
e engarrafamento/engarrafonamento do vinho. Ou ainda aqueles que fizeram das suas vinhas campos experimentais para novos produtos e técnicas, inclusivamente por associação a empresas internacionais.

Além disso, no Cartaxo o vinho sempre foi mais do que uma produção. Foi um elemento que influenciou vivências, formas de trabalho, organização social, posse da terra e a própria estrutura habitacional. A história do Cartaxo ao longo do século XX não pode, assim, ser dissociada da evolução do setor. Uma evolução que não é puramente local, mas devedora de fatores políticos e económicos nacionais, visíveis sobretudo durante o período do Estado Novo.

Esta comunicação tem, assim, como objetivo apresentar uma breve síntese da evolução do setor vitivinícola no concelho do Cartaxo ao longo dos três primeiros quartéis do século XX. Pretende-se, sobretudo, atentar nos elementos de modernidade que, mesmo durante as épocas em que se privilegiava a quantidade em prol da qualidade, marcaram as prioridades de vários produtores, num setor que determinou a matriz social e económica do concelho durante décadas.

ECONOMIA, AGRICULTURA E INDÚSTRIA II

History and Profile of the Sociedade Nacional de Cortiças: Actores, Spaces and Strategies

Juan Carlos Mangas Puente (Universidade da Extramadura)

Juan Carlos Mangas Puente holds a degree in Economics and a Master’s in Research in Social and Legal Sciences from the University of Extremadura. He is currently a doctoral candidate at the same institution, where his research focuses on the historical development of the cork industry in the Lisbon región and also in the SouthWest of Spain. His academic work is complemented by professional experience in the accounting and financial sector in Gibraltar.

 

Resumo:
Few traditional areas of industry have been studied as extensively by economic historians as the cork industry, particularly in Spain and Portugal. This has made it possible to trace with considerable precision the evolution of the sector in both countries throughout the 19th and 20th centuries and, by extension—given their prominent role in the international cork trade—its global trajectory. It has also helped to define with accuracy the phases of growth and decline, while identifying the underlying factors of these cycles (Zapata, 2002; Parejo, 2009); to shed light on technical, logistical, organizational and other changes related to cork production (Faísca & Parejo, 2023); and to highlight the divergent entrepreneurial and national dynamics within the sector, especially with regard to the shifting leadership of firms and countries in international cork manufacturing and trade (Zapata, 2002; Parejo, 2010; Lopes et al., 2016).

This study adds to the growing body of research on cork companies by focusing on one with deep historical roots (tracing back to the family firm Reynolds & Sons) and with a distinctive strategy of productive specialization: the Sociedade Nacional de Cortiças (hereafter SNC). The company was characterized by its international outlook, with a strong presence in major European markets and, above all, in North America. Its productive strategy was, however, somewhat undefined: from its founding in the late 19th century, SNC entered the business with a clear specialization in the preparation of raw cork, only consolidating itself as a producer and trader of cork discs during its phase of growth and maturity from the 1930s onwards. Other notable features include its medium size, with a workforce of between 250 and 500 employees during the period under study (Neves, 2007); the capital-intensive nature of its production processes; its strong visibility in international trade, owing to longstanding recognition as a producer of high-quality cork manufactures; and, finally, its remarkable longevity, with a business trajectory of over a century spanning the 19th, 20th and 21st centuries.

A indústria cuteleira no distrito de Leiria nos anos 50 a 74 do século XX – O caso da IVO Cutelarias, Santa Catarina, Caldas da Rainha

Madalena Marques Costa (FLUL); Miguel Fernandes Vilão (NOVA FSCH)

 

Madalena Marques Costa
Licenciada em História com minor em História da Arte em Portugal pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Atualmente estagia no Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta e está a realizar o Mestrado em História, com especialização em História Moderna e da Expansão Europeia, na Universidade de Letras da Universidade de Lisboa.

Miguel Fernandes Madalena Vilão
Licenciado em História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e a realizar o Mestrado em Filosofia Teórica na mesma instituição.

 

Resumo:
A indústria da cutelaria desenvolveu-se nas décadas de 1950 e 1960 e impactou todas as casas das pessoas das freguesias da Benedita e Santa Catarina, localizadas na região sul do distrito de Leiria; pois impulsionou melhorias nas infraestruturas locais, como as vias de comunicação e a eletrificação. Desempenhando assim, um papel bastante importante sobretudo no âmbito social e económico nas freguesias em questão. A proposta de comunicação centra-se na análise desse processo, em especial em Santa Catarina, através da história da IVO Cutelarias, uma das maiores empresas cuteleiras a nível nacional.

A partir da década de 1960, o Estado Novo Português começou a intervir de forma mais direta neste setor, nomeadamente através do Decreto n.º 4692 (1966), que regulamentava a indústria, e do Despacho Ministerial de 8 de novembro de 1960, que beneficiava os concelhos de Alcobaça e Guimarães no desenvolvimento da cutelaria. Este despachou gerou descontentamento em Santa Catarina, expresso no jornal local O Catarinense, nº2, Ano IV, onde se defendia o mérito da freguesia no setor, sublinhando o seu dinamismo industrial e o esforço local na melhoria das vias de comunicação, algo reconhecido pela edição número 1126 da Gazeta das Caldas.

Apesar de ser já uma freguesia com forte presença na produção de cutelaria, Santa Catarina em 1954 não estava eletrificada. Até então, os negócios locais eram essencialmente artesanais, familiares e em pequenas barracas de madeira – as chamadas “bitáculas” na localidade – o que obrigava os cuteleiros a operar apenas quando tinham luz solar. A luta pela eletrificação, documentada em vários números da Gazeta das Caldas, foi decisiva para a consolidação da indústria, permitindo o surgimento e crescimento de empresas como a IVO Cutelarias.
Fundada em 1954 por João Ivo e Maria das Dores quando estes se casaram, a IVO Cutelarias nasceu como uma pequena oficina familiar, e na generalidade, cresceu de forma gradual, atravessando momentos de especial dinamismo durante a Guerra Colonial (1961-1974), quando exportava navalhas e facas para Cabo Verde, Angola e Moçambique. Mesmo com as dificuldades da época geradas pela guerra, nesse período a freguesia dispunha de muita mão de obra jovem, o que favoreceu a expansão da empresa.

Os testemunhos de Maria das Dores, cofundadora da empresa, e António Ivo, atual proprietário da cutelaria, revelam uma perceção de crescimento assente no esforço por parte tanto dos proprietários quanto dos funcionários, sem apoio direto do Estado Novo Português, para além do enquadramento económico geral. A rivalidade com a Benedita, embora presente no discurso público local, não teve eco na narrativa da IVO Cutelarias, sendo mesmo expressa, na década de 1960, a abertura a uma fusão com a ICEL, empresa da freguesia vizinha.

Deste modo, com recurso a fontes históricas escritas, fotográficas e orais, esta proposta para comunicação propõe refletir sobre o papel da indústria de cutelaria, com destaque para a IVO Cutelarias, enquanto motor de transformação económica, social e territorial na região sul de Leiria, em particular em Santa Catarina entre os anos 50 a 74 do século XX.

Da Desindustrialização: Perspetivas de Políticas para o Património Industrial em Portugal

Sandra Pereira (IHC-IN2PAST-U. Évora)

Doutoranda em História e Filosofia das Ciências com especialização em Museologia na Universidade de Évora e Mestre em Património Cultural e Museologia pela Universidade de Coimbra.
Professora do ensino básico e secundário desde 2018 desenvolveu competências pedagógicas fundamentais para a comunicação e disseminação do conhecimento histórico.
Participou ativamente em congressos e encontros científicos e é bolseira de doutoramento em ambiente não académico com um projeto que propõe um estudo aprofundado sobre a relação entre a indústria e a sociedade, promovendo novas abordagens para a valorização do património industrial e cultural, com impacto tanto no mundo académico quanto na sociedade em geral.

 

Resumo:
Fruto da desindustrialização iniciada nas últimas décadas do século XX, encontram-se, nas áreas urbanas portuguesas, inúmeros espaços industriais abandonados, ocupando áreas relevantes, bem infraestruturadas e, habitualmente, localizados junto de eixos de circulação importantes. Em número mais reduzido, mas com expressão crescente, alguns destes espaços têm sido reutilizados com as mais diversas funções – culturais, empresariais e até habitacionais.

Adicionalmente, muitos destes espaços representam um marco identitário para as comunidades locais devido a terem sido uma fonte de trabalho e de vivências durante décadas, representando a reutilização uma valorização social das pessoas e, por vezes, de gerações inteiras, que ali passaram grande parte das suas vidas.

Numa época em que a sociedade portuguesa enfrenta diversos desafios relacionados com a reabilitação urbana, incluindo a escassez significativa de oferta de habitação, mas também na procura de espaços empresariais esta comunicação apresenta um estudo em curso, desenvolvido junto dos autarcas de um conjunto selecionado de municípios com património industrial relevante, com o objetivo de identificar a existência, ou inexistência, de políticas públicas, europeias, nacionais e locais, direcionadas para com o património industrial.

ESTADO, POLÍTICA E PODER LOCAL

Prosopografia da primeira vereação republicana de Lisboa

João Fortes Rocha (ISCTE-IUL)

Licenciado e Mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE-IUL é autor de várias obras, entre as quais “Estoril Praia, 80 Anos, 80 Figuras”, “Cascais 2018 – A História de uma Capital Europeia da Juventude” e “Agostinho José Fortes – Um filho de Mourão”.
É palestrante assíduo em vários congressos de história e doutorando em História Moderna e Contemporânea no ISCTE-IUL.

 

Resumo:
A primeira vereação exclusivamente eleita por um Partido Republicano em Lisboa, em 1 de novembro de 1908, apresentava uma particularidade singular: a inexistência de um presidente da edilidade da capital, uma vez que a legislação vigente atribuía essa nomeação ao poder régio — algo que nunca chegou a concretizar-se até à queda da monarquia, em 5 de outubro de 1910.

Apesar desta limitação, a coordenação política, institucional e quotidiana do município ficou a cargo de Anselmo Braamcamp Freire, antigo par do reino que se converteu aos ideais republicanos. Na primeira reunião de cada ano civil, era eleito pelos seus pares para exercer o cargo de Vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), assumindo, na prática, a liderança do executivo municipal.
Esta comunicação tem como objetivo apresentar um estudo sobre as políticas desenvolvidas pela primeira vereação republicana da CML, a partir de uma abordagem prosopográfica, que nos permita compreender quem foram os homens que integraram este órgão e de que forma contribuíram para projetos estruturantes na cidade. Entre estes destacam-se o impulso urbanístico das Avenidas Novas, a criação da primeira paragem de táxis de Lisboa e a construção da escola João de Deus.

A análise evidencia a heterogeneidade na formação académica e nas atividades profissionais dos vereadores, elemento que abre caminhos de interpretação e oferece pistas para compreender algumas das opções políticas adotadas.

O estudo centra-se no período compreendido entre 1 de novembro de 1908 e 5 de outubro de 1910, delimitando assim o intervalo cronológico da atuação desta primeira vereação republicana.

Estado, poder local e subsistências: o caso dos armazéns reguladores de preços (1920-1925)

Inês José (HTC-CEF NOVA FCSH; IHC-NOVA FCSH IN2PAST)

Licenciada em História (NOVA/FCSH, 2014) e Mestre em História Contemporânea (NOVA/FCSH, 2017), com a dissertação A fundação e a organização da Manutenção Militar de Lisboa (1886-1914). Doutoranda em História na mesma faculdade, tem desenvolvido a sua investigação em torno dos impactos da I Guerra Mundial e da transição para o pós-guerra no plano da alimentação e do abastecimento alimentar. Tem como principais áreas de investigação a história económica e social, a história da indústria e do abastecimento alimentar.

 

Resumo:
A I Guerra Mundial levou os poderes públicos a intervir de forma mais incisiva nos circuitos de abastecimento dos géneros de primeira necessidade, atuação que se manteve para além do término do conflito. A permanência das dificuldades na circulação desses produtos e no acesso aos mesmos verificou-se ao longo de toda a década de 1920, justificando o sucessivo adiamento do fim dessa intervenção. Para fazer face ao problema, e atendendo em particular à escassez e à carestia sentidas nos principais centros urbanos, foram sancionadas inúmeras medidas e criados diversos organismos que procuraram, simultaneamente, dar resposta às necessidades do consumo público e da indústria e atender aos interesses dos vários agentes da cadeia de distribuição, recuperando mecanismos experimentados na recente economia de guerra – esforço que dependia de uma contínua articulação com as autoridades locais.

Uma dessas iniciativas foi o estabelecimento de armazéns reguladores de preços de géneros e artigos de primeira necessidade. Previa-se que facilitassem o acesso das classes mais desfavorecidas aos bens essenciais, fornecendo diretamente esses produtos. Ao mesmo tempo, através da concorrência direta com o comércio a retalho, serviriam de reguladores de preços. Os armazéns reguladores começaram por se estabelecer em Lisboa, expandindo-se depois por muitos outros pontos do país, por vezes a pedido dos poderes locais. O tema, porém, foi ainda pouco estudado pela nossa historiografia, e essa identificação está ainda por desenvolver, pese embora o seu interesse na medida em que reflete as ruturas impostas pelo conflito, entre elas emergência, no período do pós-guerra, do «Estado comerciante», como várias vezes apontado nas fontes coevas.
A presente comunicação pretende analisar a implementação e expansão geográfica desses armazéns reguladores, entre 1920, ano em que se determinou a sua criação, e 1925, quando, com a criação da Bolsa Agrícola, se ditou que fossem progressivamente transformados em cooperativas de consumo. Com recurso à produção legislativa que enquadrou a sua atividade, aos debates dos órgãos legislativos sobre o tema, à imprensa da época e a fontes de arquivo, procurar-se-á ainda atentar nas motivações que sustentaram a criação destes organismos e as reações suscitadas pelo seu estabelecimento. Pretende-se, sobretudo, lançar pistas que possam motivar sinergias e investigações que permitam reconstituir a existência e a atividade desenvolvida por estes organismos, permitindo compreender melhor esta rede de abastecimento desenhada pelo poder central e as suas ramificações à escala local, com o fim de contribuir para uma reflexão sobre os desafios da transição para a paz e sobre a interferências dos poderes central e local na questão das subsistências.

A concretização de uma “velha aspiração”: A reforma administrativa de 22 de dezembro de 1926 e a criação do distrito de Setúbal

Diogo Ferreira (HTC-CEF NOVA FCSH; Câmara Municipal de Setúbal)

Diogo Ferreira é licenciado em História, mestre em História Contemporânea e doutorado em História Contemporânea. Todo o seu percurso académico decorreu na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A sua tese de doutoramento intitulou-se: “Setúbal entre a República do pós-guerra e a Ditadura Militar”.
Publicou mais de uma dezena de livros e múltiplos artigos na imprensa periódica e em revistas da área dedicados, na sua maioria, à história local de Setúbal. Esta é a sua área de especialidade, cujas investigações tiveram início em 2014. É técnico superior da C.M. de Setúbal, no Gabinete de Promoção e Divulgação do Património Histórico e Cultural e é investigador do centro História, Territórios e Comunidades.

 

Resumo:
O processo de industrialização associado ao setor da produção de conservas de peixe, que teve lugar no concelho de Setúbal na segunda metade do século XIX, promoveu uma intensa vaga migratória que, em cerca de três décadas, tornou a cidade a terceira mais populosa do País. Na aurora da Revolução Republicana, contava com cerca de 55 mil habitantes.

Todavia, apesar deste franco desenvolvimento económico e social, este crescimento não foi sinónimo de maior autonomia político-administrativa, mantendo-se sob alçada do distrito de Lisboa. E este aspeto traduziu-se em dificuldades sérias de gestão para os sucessivos Governadores Civis de Lisboa, cuja administração ia de Mafra a Sines.

Uma das maiores dores de cabeça dizia respeito ao equilíbrio da distribuição de número de efetivos de segurança pública, aspeto repetidamente alvo de queixas pelos diferentes administradores do concelho.

Na transição de Oitocentos para a centúria de Novecentos, em Setúbal, foram-se levantando vozes no universo cívico e político local, reivindicando uma reforma administrativa que criasse um distrito a sul do Tejo, tendo à cabeça a cidade do Sado. Duas das mais destacadas personalidades que se dedicaram a esta iniciativa foram António Maria de Campos Rodrigues, que fundou o periódico O Distrito (1886), e o deputado do Partido Republicano Liberal, Joaquim Brandão, que, em mais que uma ocasião, no início da década de 1920, apresentou projetos-lei nesse sentido (sem sucesso).
Partindo desta contextualização histórica, a presente comunicação terá como foco os anos de 1926 e de 1927, uma vez que, após o 28 de Maio, os dirigentes da Ditadura Militar restauraram o concelho de Palmela (era uma freguesia de Setúbal), iniciando uma onda de contestação que acabou por culminar na concretização de uma aspiração regional com mais de cinquenta anos: a criação do distrito de Setúbal em 22 de dezembro de 1926.
Entre novembro e dezembro daquele ano, políticos, jornalistas, intelectuais, artistas, entre outros setubalenses mobilizaram forças para agir junto do Governo, exigindo uma compensação pela perda – que representava para o concelho sadino – do território de Palmela. Toda esta dinâmica será alvo de uma detalhada análise. Em simultâneo procurar-se-á demonstrar que a reforma administrativa foi uma das principais plataformas de angariação apoio político numa cidade que se pautava pelos movimentos libertários e socialistas. O republicanismo liberal, em boa parte, deixou-se seduzir por esta medida, enfraquecendo – na longa-duração – a oposição à ditadura.

Numa fase final da apresentação tentar-se-á expor de que forma ocorreu a instalação do Governo Civil do Distrito de Setúbal – e os problemas logísticos que daí advieram -, como foram homenageados os diferentes intervenientes (e.g. General Luís Domingues), pelo seu ativo papel na concretização deste anseio, e o que significou a obrigatória extinção da Polícia Cívica de Setúbal, substituída pelo Comando Distrital de Setúbal da PSP. Será, por último, avaliada a importância da fundação do jornal O Distrito de Setúbal, em fevereiro de 1927, na conjuntura da intentona revolucionária daquele mês.

Feriados Municipais e História Local: o caso de Viseu (1911-1974)

Luís Silva Fernandes

É licenciado em História pela Universidade de Coimbra e mestre em Arqueologia pela Universidade do Porto. Foi docente da Universidade Católica Portuguesa –Centro Regional de Viseu, entre 1996 e 2015. Exerceu funções de assessoria de História e Património no Município de Viseu entre 2018 e 2021. É docente do ensino básico e secundário. Desde 2007, integrou diversos Grupos de Trabalho relativos à valorização do Património Cultural de Viseu e foi membro da Comissão Municipal de Toponímia de Viseu. Atualmente desenvolve investigação em História Contemporânea e em História do Turismo.

 

Resumo:
Após a implantação da I República, o novo regime instituiu os feriados municipais (decreto de 12 de outubro de 1910), tendo cada município a possibilidade de escolher para o efeito uma data relevante a nível local.

Em Viseu existiram 13 diferentes datas para o feriado local, entre 1911 e 1942. A atual data de 21 de setembro (Dia de São Mateus) foi escolhida pela primeira vez em 1942; uma década depois, o feriado foi suspenso por força da nova legislação relativa aos feriados, tendo sido reinstaurado em 1969.
A escolha da data para o feriado municipal viseense não foi um processo uniforme e alheio a polémicas. Até 1920, o 1º de Maio foi a data com mais ocorrências, verificando-se a concorrência pontual do 13 de junho (Dia de Santo António), correspondente às tradicionais Festas da Cidade até aos anos 20 do século XX. Entre a I República e o Estado Novo, foram sendo escolhidas outras datas alusivas aos santos populares, a figuras e acontecimentos históricos, ou a inaugurações de monumentos comemorativos, entre outros aspetos. A opção pelo dia 21 de setembro, relacionada com a importância local da secular Feira de São Mateus, revitalizada em 1927 como o evento mais importante do calendário viseense, acabaria por fazer caminho até aos nossos dias.

A diversidade das datas escolhidas para feriado municipal em Viseu permite traçar um percurso pela história de Viseu, documentando clivagens políticas e ideológicas, personalidades, acontecimentos históricos específicos, elementos identitários locais e monumentos comemorativos relevantes na paisagem urbana. Em simultâneo, a análise das práticas envolvidas na celebração do feriado municipal suscita uma maior compreensão da cidade como espaço de comemoração, particularmente após as mudanças de regime político.
Nesse sentido, destaca-se a importância do estudo dos feriados municipais no âmbito da História Local, numa perspetiva diacrónica, a partir do caso de Viseu.

HISTÓRIA(S) NO FEMININO

Intimar para controlar: as intimações às mulheres grávidas do concelho de Torres Novas (1873-1884)

Tiago Cubeiro

Licenciado em História e mestre em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É professor/formador na Cooptécnica Gustave Eiffel, no Entroncamento. Nos seus tempos livres, dedica-se à investigação de temas de História da assistência à infância no concelho de Torres Novas, da qual resultou a sua tese de mestrado, intitulada “A assistência à infância no concelho de Torres Novas: estudo dos subsídios de lactação concedidos pela Câmara Municipal (1873-1910)”. Tem publicado artigos na Revista “Nova Augusta” relacionados com a infância abandonada e a assistência municipal no concelho de Torres Novas.

 

Resumo:
As intimações às mulheres solteiras ou viúvas, não recatadas, foi um procedimento administrativo de carácter repressivo do século XIX com o objectivo de combater as taxas elevadas de infanticídio e/ou abandono que existiam no Reino. Com base no livro de intimações existente no Arquivo Municipal de Torres Novas, correspondente ao período cronológico de 1873 a 1884, pretendemos caracterizar as mulheres intimadas, tendo em conta os dados por elas fornecidos. Assim, vamos caracterizá-las tendo em conta o estado conjugal, a filiação e a residência.

Os Serões do Colégio Andaluz: Sociabilidades femininas e o legado cultural do apostolado social de Madre Luiza Andaluz em Santarém (décadas de 1930-1940)

Ana da Silva (Centro de Investigação em Artes e Comunicação | Escola Superior de Educação do Politécnico de Santarém)

Professora Adjunta da Escola Superior de Educação (ESE) do Instituto Politécnico de Santarém. Doutorada Ciências da Educação – Intervenção Psico-Socioeducativa pela Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Vigo.
Especialista Educação Não Formal, Animação Sociocultural e Formação de Animadores/as (Título de Especialista). Mestre em Literaturas Comparadas Portuguesa e Francesa, Séculos XIX e XX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Investigadora integrada do Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve.
Membro do Conselho Científico e da Comissão de Ética da Unidade de Investigação do Instituto Politécnico de Santarém. Coordenadora da Tertúlia do IPSantarém.

 

Resumo:
O Colégio de Nossa Senhora dos Inocentes, mais tarde conhecido como Colégio Andaluz, fundado por Madre Luísa Andaluz e dirigido pela Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, constituiu em Santarém um espaço singular de formação de meninas e jovens mulheres. Para além do currículo formal, esta instituição desenvolveu práticas lúdicas e culturais designadas como Serões, que se configuravam como momentos festivos de expressão musical, dramática e coreográfica, marcando o quotidiano escolar e introduzindo experiências de sociabilidade e liberdade pouco usuais no contexto disciplinar da época.

A investigação a apresentar parte da análise do livro Serões do Colégio Andaluz, da Madre Maria de Jesus Rodrigues, e de fontes orais recolhidas em entrevistas a ex-alunas do Colégio, realizadas em 2002, depositadas no Arquivo Oral de Educação da Escola Superior de Educação de Santarém. Estes testemunhos permitem reconstruir as dinâmicas internas dos Serões — desde a preparação dos programas à sua execução —, bem como o papel central das alunas internas e externas, das religiosas e até de públicos externos que, em determinados momentos, assistiam às apresentações.
Os Serões constituíam um espaço performativo onde se encenavam peças de cariz religioso e social, muitas vezes adaptadas às próprias vidas das alunas, incorporando improvisações e diálogos com a realidade do Estado Novo e com os papéis sociais atribuídos às mulheres. Algumas personagens, como a “Gaivotinha”, exprimiam desejos de liberdade, resistência à normatividade e até críticas subtis à limitação das carreiras femininas, revelando uma pedagogia de abertura e criatividade conduzida pela Madre Maria de Jesus Rodrigues.

Este estudo evidencia a relevância dos Serões enquanto prática de educação não formal e de socialização feminina, permitindo compreender como, num colégio religioso, se produziam espaços de festa, liberdade e experimentação cultural, que marcaram percursos de vida de muitas alunas. Simultaneamente, contribui para a história local de Santarém, destacando a importância do Colégio Andaluz como instituição formadora e como lugar de memória coletiva.

A comunicação inscreve-se no cruzamento entre história da educação, história das mulheres e história local, oferecendo uma leitura sobre os modos como práticas culturais do Colégio Andaluz refletiam e, nalguns casos, desafiavam os valores sociais da época.

As Mulheres nas Bandas Filarmónicas da Lezíria Ribatejana

Bruno Filipe de Brito (CIES-ISCTE)

Licenciado em História Moderna e Contemporânea no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, tendo concluído o mestrado e continuado os estudos na mesma área e instituição. Encontra-se atualmente na fase final da conclusão da tese de doutoramento, sob a orientação da Professora Dra. Luísa Tiago Oliveira. Bruno tem-se dedicado ao estudo histórico das práticas musicais, tendo desenvolvido uma dissertação sobre o desenvolvimento da corrente musical do Rock Progressivo em Portugal entre 1967 e 1981. No doutoramento tem desenvolvido uma tese sobre o desenvolvimento de bandas filarmónicas na Lezíria Ribatejana, analisando períodos de fragilidade e robustecimento das mesmas.
Além da formação académica, o autor tem uma vasta experiência no associativismo, tendo pertencido a ranchos folclóricos e bandas filarmónicas desde a infância. Quanto a experiências profissionais, tem trabalho essencialmente como professor de História, Inglês, Música e Filosofia, além de ser músico multi instrumentista.
Tem por interesses de investigação o movimento associativo português, as expressões musicais, o ensino da música, o desenvolvimento cultural rural e, o panorama político associado às comunidades locais e à Cultura, sobretudo durante o regime ditatorial do Estado Novo e o Pós-25 de Abril de 1974.

 

Resumo:
Até aos anos de 1960, as bandas filarmónicas eram espaços exclusivamente masculinos. Contudo, após o 25 de Abril de 1974, a igualdade de direitos abriu caminho à participação feminina. Esta investigação focará na Lezíria Ribatejana, uma divisão interna da região histórica do Ribatejo. Na Lezíria Ribatejana, casos como os de Azambuja, Aveiras de Baixo e de Vila Franca de Xira foram pioneiros: jovens raparigas começaram a aprender música e a integrar as bandas, lado a lado com os rapazes.

A presença das mulheres não só ajudou a colmatar a falta de músicos, fugidos do destacamento para a Guerra Colonial ou emigrados em busca de uma vida melhor, como também renovou o ambiente filarmónico e transmitiu esta tradição às gerações seguintes. Assim, o contributo feminino tornou-se fundamental para a vitalidade e continuidade das bandas da região.

ProgramaLivro de Resumos

Organização

Comissão Organizadora

  • Catarina Pimentel Neto (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Catarina Veiga dos Santos (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Diogo Ferreira (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Eunice Relvas (HTC-CEF NOVA FCSH e GEO-CML)
  • Guilherme Sequeira (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Inês José (HTC-CEF NOVA FCSH e IHC – NOVA FCSH/IN2PAST)
  • João Francisco Pereira (HTC-CEF NOVA FCSH e CEHR-UCP)
  • João Pedro Santos (IHC – NOVA FCSH/IN2PAST)
  • Liliana Caldeira (HTC-CEF NOVA FCSH e Câmara Municipal de Lagoa)
  • Maria Fernanda Rollo (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Maria Miguel Fresco (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Mariana Reis de Castro (IHC – NOVA FCSH/IN2PAST e HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Pedro Serra (HTC-CEF NOVA FCSH)

Comissão Científica

  • Ana Cardoso Matos (CIDEHUS e UE)
  • Ana Paula Pires (HTC-CEF NOVA FCSH e Universidade Açores)
  • António José Queiroz (CEFi -UCP e CEPESE)
  • Diogo Ferreira (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Eunice Relvas (HTC-CEF NOVA FCSH; GEO-CML)
  • João Miguel Henriques (CMC e HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Jorge Fernandes Alves (FLUP)
  • Luís Alberto Alves (CITCEM-FLUP)
  • Manuela Tavares Ribeiro (FLUC)
  • Maria Conceição Meireles (FLUP)
  • Maria Fátima Nunes (IHC-NOVA FCSH/IN2PAST e UE)
  • Maria Fernanda Rollo (HTC -CEF NOVA FCSH)
  • Margarida Sobral Neto (FLUC)
  • Nuno Pousinho (IHC-NOVA FCSH/IN2PAST)
  • Paulo Jorge Fernandes (IHC – NOVA FCSH/IN2PAST)
  • Paulo Miguel Rodrigues (Universidade da Madeira e HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Pedro Serra (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Sérgio Rezendes (HTC-CEF NOVA FCSH)
  • Teresa Nunes (FLUL e HTC-CEF NOVA FCSH)