A Plataforma Lusófona de Memória e História Oral é promovida em colaboração entre o programa Memória para Todos, do HTC – História, Territórios e Comunidades / NOVA FCSH e a Fundação Getúlio Vargas, através de sua Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, estando aberta à parceria de todas as instituições, grupos, programas, e projetos que partilhem o seu compromisso com a cooperação, a democratização do conhecimento, o acesso aberto e a valorização crítica da memória e da história oral no espaço lusófono.
A criação de uma Plataforma Lusófona de História Oral responde à necessidade de constituir um espaço estável, visível e colaborativo de encontro entre pessoas, instituições, projetos e comunidades que, nos países de língua oficial portuguesa, trabalham no campo da história oral em sentido amplo.
Apesar da riqueza, diversidade e vitalidade das iniciativas existentes no espaço lusófono, este campo continua frequentemente marcado pela dispersão, pela fragmentação institucional, pela desigualdade de recursos e pela insuficiente circulação de informação, experiências, metodologias e oportunidades. Muitos projetos desenvolvem trabalhos de grande relevância científica, patrimonial, educativa, artística, cívica e comunitária, mas permanecem pouco conhecidos fora dos seus contextos imediatos, com reduzida capacidade de articulação internacional e limitada projeção pública.
A Plataforma Lusófona de História Oral pretende contribuir para promover essa articulação, afirmando-se como um espaço de agregação, partilha, visibilidade, formação, cooperação e divulgação, dedicado aos países lusófonos e às múltiplas comunidades que os constituem, bem como às que com eles se relacionam. Mais do que um repositório ou diretório, pretende ser uma infraestrutura de relação, capaz de fortalecer redes, promover intercâmbios, mapear iniciativas, estimular reflexão crítica e ampliar o reconhecimento público da história oral como campo de produção de conhecimento, prática cultural, instrumento pedagógico, espaço de ciência cidadã e recurso para a cidadania.
Esta plataforma parte de uma compreensão exigente da história oral: não apenas como técnica de coleta de entrevistas, mas como prática de escuta, método de pesquisa, espaço de mediação entre experiência e conhecimento, e instrumento de valorização de memórias plurais, incluindo vozes, trajetórias e comunidades frequentemente ausentes dos arquivos institucionais ou das narrativas dominantes. Nesse sentido, a plataforma inscreve-se numa visão da história oral como campo particularmente relevante para pensar temas como memória, património, território, identidades, mobilidades, trabalho, colonialismo e pós-colonialismo, género, ambiente, cultura, participação democrática e justiça epistémica.
No espaço lusófono, esta vocação é especialmente importante. A língua oficial portuguesa liga realidades históricas, culturais, sociais e políticas muito diversas, atravessadas por experiências comuns e por fortes assimetrias. Uma plataforma desta natureza pode, por isso, constituir um lugar de aproximação e diálogo, favorecendo uma circulação mais horizontal de saberes, experiências e práticas, sem apagar diferenças de contexto, escala, recursos e tradição institucional.
A Plataforma Lusófona de Memória e História Oral orienta-se por seis princípios fundamentais:
a) Pluralidade
A plataforma reconhece a diversidade de tradições, escolas, práticas e usos da história oral no espaço lusófono. Não pretende fixar uma única definição normativa do campo, mas antes acolher a sua pluralidade epistemológica, metodológica, institucional e geracional.
b) Cooperação
A sua lógica é colaborativa e relacional. A plataforma deve favorecer o encontro entre universidades, centros de pesquisa, escolas, arquivos, museus, bibliotecas, associações, projetos comunitários, artistas, documentalistas, ativistas e agentes culturais.
c) Rigor e reflexividade
A história oral requer exigência metodológica, atenção ética e reflexão crítica. A plataforma deve promover boas práticas no que respeita à produção, tratamento, preservação, interpretação, citação, partilha e uso público de testemunhos orais.
d) Acesso e circulação
Um dos seus objetivos centrais é ampliar a circulação de informação, recursos, experiências e oportunidades, tornando mais visível o que existe, facilitando contactos e reduzindo barreiras de acesso, especialmente para investigadores em início de carreira, estudantes e projetos com menor capacidade institucional.
e) Compromisso público
A história oral tem uma forte dimensão pública. A plataforma deverá valorizar não apenas a produção académica, mas também o trabalho com comunidades, o diálogo intergeracional, a educação, a mediação cultural, o património vivo, a ciência cidadã e a democratização do conhecimento.
f) Ciência aberta e acesso aberto
A plataforma orienta-se pelos princípios da ciência aberta e do acesso aberto, promovendo, sempre que possível e eticamente adequado, a disponibilização aberta de informação, recursos, instrumentos de trabalho, referências, publicações, materiais formativos e resultados de projetos. Este compromisso implica também defender práticas de colaboração, interoperabilidade, transparência metodológica e partilha responsável, reconhecendo que, no campo da história oral, a abertura deve ser sempre articulada com os direitos dos participantes, os regimes de consentimento, a proteção de dados e os contextos específicos de produção e uso dos testemunhos.
Constituir um espaço lusófono de referência para a articulação, visibilidade, partilha e fortalecimento da história oral, promovendo redes de cooperação, valorizando projetos e recursos existentes, ampliando oportunidades de formação e divulgação, e contribuindo para a afirmação pública e científica do campo nos países de língua oficial portuguesa
Objetivo geral
Consolidar uma plataforma colaborativa dedicada à história oral no espaço lusófono, entendida como infraestrutura de encontro, informação, cooperação e projeção pública.
Objetivos específicos
- Mapear e dar visibilidadea projetos, instituições, pesquisadores/investigadores, arquivos, iniciativas e recursos ligados à história oral nos países lusófonos e suas comunidades.
- Promover a circulação de informaçãosobre eventos, congressos, colóquios, publicações, chamadas de trabalhos, bolsas, cursos, oficinas e outras oportunidades relevantes.
- Estimular a partilhade metodologias, experiências e boas práticas, incluindo orientações éticas e técnicas.
- Favorecer a criação e consolidação de redesentre atores académicos, culturais, educativos e comunitários.
- Apoiar a formaçãode estudantes, jovens pesquisadores/investigadores e profissionais através da divulgação e, idealmente, da organização de ações formativas.
- Reforçar a dimensão pública da história oral, incentivando iniciativas de divulgação, mediação, ciência cidadã e envolvimento com comunidades.
- Contribuir para a preservação e valorização da memória oralcomo património documental, social, cultural e biocultural.
- Promover práticas de acesso aberto e ciência aberta, através da disponibilização, sempre que possível, de recursos, referenciais metodológicos, materiais formativos, informação estruturada e conteúdos de interesse coletivo, em formatos acessíveis, reutilizáveis e eticamente responsáveis.
- Incentivar o diálogo Sul-Sule as cooperações transnacionais dentro do universo lusófono, com atenção às assimetrias e à necessidade de formatos inclusivos.
A plataforma poderá estruturar-se em torno das seguintes linhas programáticas:
I. Mapeamento e agregação
Criação de um diretório vivo de:
- projetos de história oral;
- pesquisadores/investigadores e equipas;
- instituições e redes;
- arquivos orais, coleções e acervos;
- publicações e recursos digitais;
- iniciativas pedagógicas, comunitárias e culturais.
Esta linha permitirá conhecer melhor o ecossistema lusófono da história oral, identificar convergências, lacunas, potencialidades e oportunidades de cooperação.
II. Informação e divulgação
A plataforma funcionará como ponto de referência para a divulgação de:
- congressos, seminários, encontros e jornadas;
- calls for papers e chamadas para dossiês;
- cursos, workshops e oficinas;
- bolsas, concursos e oportunidades de financiamento;
- novas publicações, entrevistas, podcasts, videocasts, exposições e documentários.
O objetivo é oferecer um serviço útil, regular e confiável para a comunidade, favorecendo a circulação de informação relevante.
III. Formação e capacitação
A plataforma deverá apoiar a formação através de:
- partilha de guias e recursos metodológicos;
- divulgação de cursos e ações de curta duração;
- organização de webinars, oficinas e sessões temáticas;
- produção de conteúdos de iniciação e aprofundamento;
- reflexão sobre ética, consentimento, arquivo, preservação e uso público das entrevistas.
Esta linha poderá ser especialmente importante para estudantes, jovens pesquisadores/ investigadores, professores, técnicos de arquivo e agentes culturais.
IV. Reflexão metodológica e ética
A história oral exige permanente problematização. A plataforma pode acolher e promover reflexão sobre:
- entrevista e relação entrevistador-entrevistado;
- memória, subjetividade e temporalidade;
- autoria, citação e validação;
- catalogação e patrimonialização;
- preservação digital e acesso;
- consentimento informado e direitos de uso;
- usos públicos, escolares, museológicos e artísticos da história oral;
- descolonização dos arquivos e justiça epistémica;
- relação entre testemunho, território, comunidade e património;
- princípios de ciência aberta, partilha responsável de dados e recursos, documentação metodológica, reprodutibilidade possível e critérios de abertura compatíveis com as especificidades éticas da história oral.
V. Rede lusófona e cooperação internacional
A plataforma deverá afirmar-se como espaço de articulação entre contextos diversos, promovendo:
- parcerias entre instituições;
- encontros temáticos e fóruns de discussão;
- cooperação entre projetos já existentes;
- intercâmbio de experiências entre países e regiões;
- diálogo entre academia, cultura, escola e comunidade.
Esta linha é decisiva para evitar lógicas centradas apenas num país ou numa instituição, assegurando uma governação aberta e verdadeiramente lusófona.
VI. História oral, sociedade e esfera pública
A plataforma deverá contribuir para afirmar a relevância pública da história oral em áreas como:
- educação e cidadania;
- memória social e democrática;
- património cultural e biocultural;
- comunidades e territórios;
- história do trabalho, migrações, associativismo e movimentos sociais;
- memórias coloniais e pós-coloniais;
- género, desigualdade e exclusão;
- sustentabilidade, ambiente e ecologias da memória.
Trata-se de mostrar que a história oral não é apenas campo académico especializado, mas também recurso social e cultural com forte potencial de intervenção, participação e trabalho colaborativo com as comunidades.
Sem excluir outras, a plataforma poderá acolher projetos e iniciativas em áreas como:
- memória e património;
- comunidades e territórios;
- história local e regional;
- migrações e diásporas;
- mundo rural, marítimo e insular;
- trabalho e movimentos sociais;
- saberes tradicionais;
- colonialismo, descolonização e pós-colonialidade;
- género, família e gerações;
- artes, cultura e práticas performativas;
- educação, escola e infância;
- ambiente, paisagem e património biocultural;
- saúde, cuidado e experiências de vida;
- arquivos orais e humanidades digitais.
A plataforma dirige-se a um conjunto alargado de públicos:
- pesquisadores/investigadores e docentes;
- estudantes de graduação, mestrado e doutoramento;
- técnicos de arquivos, bibliotecas, museus e centros de documentação;
- agentes culturais e patrimoniais;
- professores do ensino básico e secundário;
- associações, coletivos e projetos comunitários;
- jornalistas, documentaristas e criadores;
- entidades públicas e privadas interessadas em memória, património e participação.
A dimensão digital constitui o elemento vital, agregador e estruturante da Plataforma Lusófona de História Oral. Mais do que um simples website institucional, a plataforma deverá funcionar como uma infraestrutura dinâmica de encontro, articulação, visibilidade e serviço, capaz de reunir num mesmo espaço informação, recursos, iniciativas e oportunidades relevantes para o campo da história oral nos países de língua oficial portuguesa.
A sua arquitetura favorecerá simultaneamente acesso, circulação, atualização, interação e projeção pública, permitindo que pesquisadores/investigadores, estudantes, instituições, projetos e comunidades encontrem num único lugar um ponto de referência fiável e em permanente construção.
A plataforma deverá ser também concebida segundo princípios de acessibilidade, interoperabilidade, abertura e partilha responsável, favorecendo a disponibilização em acesso aberto de conteúdos e recursos sempre que tal seja possível, legítimo e eticamente adequado. Este compromisso implica não apenas abrir informação, mas organizá-la de modo reutilizável, pesquisável e sustentável, respeitando simultaneamente os limites impostos pela natureza sensível de muitos testemunhos, pelos consentimentos acordados e pelos direitos das pessoas e comunidades envolvidas.
Nesse sentido, a plataforma digital integrará, de forma articulada, os seguintes núcleos:
- apresentação da missão, orientação e objetivos da plataforma;
- diretório de projetos, instituições, redes, arquivos e investigadores ligados à história oral no espaço lusófono;
- mapa interativo de iniciativas e acervos, permitindo visualizar a diversidade geográfica e temática do campo;
- agenda de eventos, incluindo congressos, colóquios, seminários, oficinas, cursos e encontros;
- secção de notícias e destaques, com divulgação de atividades, lançamentos, iniciativas e resultados de projetos;
- área de oportunidades, reunindo chamadas para artigos, bolsas, concursos, financiamentos, formação e outras possibilidades de participação;
- repositório de recursos, com guias, referências, bibliografias, instrumentos metodológicos, orientações éticas e materiais de apoio;
- espaço de publicações e divulgação científica, dedicado a livros, artigos, dossiês, entrevistas, podcasts, vídeos, documentários e outros conteúdos relevantes;
- secção de formação, com informação sobre cursos, workshops, oficinas, escolas de verão e materiais introdutórios ou avançados;
- área de perfis ou páginas dedicadas a projetos parceiros, permitindo dar visibilidade continuada a iniciativas em curso;
- secção temática ou editorial, com textos de reflexão, notas críticas, debates metodológicos e contributos sobre temas centrais da história oral;
- newsletter ou sistema de subscrição, assegurando circulação regular de informação e consolidação de uma comunidade de interesse;
- mecanismos de contacto, participação e submissão de conteúdos, que permitam alimentar a plataforma de forma colaborativa e progressiva.
Concebida deste modo, a plataforma digital não será apenas o suporte técnico do projeto, mas o seu principal dispositivo de articulação e crescimento. É nela que a comunidade poderá reconhecer-se, encontrar informação relevante, estabelecer contactos, divulgar trabalho, aceder a recursos e acompanhar a vitalidade do campo. A força da iniciativa dependerá, em grande medida, da capacidade desta infraestrutura digital para funcionar como porta de entrada, arquivo vivo, agenda comum e espaço de convergência para a história oral dos países lusófonos.
A Plataforma Lusófona de História Oral poderá ter um valor acrescentado relevante em vários planos:
- agrega um campo atualmente disperso;
- torna visível o que já existe, sem substituir iniciativas em curso;
- facilita contactos, colaborações e circulação de oportunidades;
- reforça a qualidade metodológica e a reflexão ética;
- apoia novas gerações e contextos com menor acesso a redes consolidadas;
- favorece a cooperação entre países de língua oficial portuguesa;
- promove uma cultura de acesso aberto e ciência aberta, ajustada às exigências éticas, jurídicas e relacionais próprias da história oral;
- contribui para a afirmação pública da história oral como prática científica, patrimonial, pedagógica e cívica.
A ambição desta plataforma não é apenas informar, mas estruturar um espaço de relação. O seu horizonte é contribuir para a consolidação de uma comunidade lusófona de história oral intelectualmente exigente, institucionalmente aberta e socialmente relevante, capaz de reconhecer a diversidade dos contextos de produção de memória e de promover formas mais democráticas de circulação do conhecimento.
Num tempo marcado por aceleração, polarização, esquecimento seletivo e desigualdade de voz, a história oral mantém um valor singular: escutar, registar, interpretar e devolver à esfera pública experiências, saberes e perspetivas que ajudam a compreender melhor os processos históricos e os desafios do presente. No espaço lusófono, essa tarefa adquire uma particular densidade, pela complexidade das histórias partilhadas, das memórias em disputa e das comunidades que continuam a produzir sentido a partir da sua relação com os lugares, os tempos e os outros.
A Plataforma Lusófona de História Oral afirma-se como um lugar de encontro e construção coletiva, onde a memória oral não é apenas objeto de estudo, mas também recurso vivo para o conhecimento, a ciência cidadã, o reconhecimento e a imaginação de futuros mais inclusivos.







