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One Health e Planetary Health: a saúde ambiental como eixo integrador
As crises ambientais, climáticas e sanitárias das últimas décadas tornaram evidente que a saúde humana depende da saúde dos ecossistemas. É neste contexto que os conceitos de One Health e Planetary Health ganham relevância como referenciais que reconhecem a interdependência entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental, bem como os impactos das alterações nos sistemas naturais, em grande parte de origem antropogénica, na estabilidade ecológica e no bem‑estar das populações. Embora com origens distintas, ambos convergem na necessidade de compreender a saúde dentro dos limites planetários e de promover respostas integradas a riscos complexos.
A implementação destas abordagens exige colaboração entre áreas como a medicina humana e saúde pública, a medicina veterinária e a produção animal, a ecologia e a conservação da biodiversidade, os sistemas agroalimentares, a governação e as ciências sociais. Esta articulação permite antecipar e mitigar riscos emergentes, desenvolver soluções sustentáveis e responder a desafios que têm vindo a mobilizar crescente atenção política e institucional num contexto de rápidas alterações globais.
No Centro de Ecologia Funcional (CFE), estes enquadramentos são trabalhados a partir de uma ênfase nos ecossistemas, entendidos como o eixo estruturante que liga sistemas naturais, sistemas produtivos e saúde humana. Parte-se do princípio de que muitos dos riscos e oportunidades para a saúde global resultam da forma como os ecossistemas são geridos, perturbados ou restaurados, e que a qualidade ambiental condiciona diretamente a saúde de plantas, animais e pessoas.
Solos, sistemas aquáticos, agroecossistemas e ambientes urbanos são analisados como sistemas socioecológicos vivos, sujeitos a múltiplas pressões, incluindo contaminação química, introdução de fármacos e microplásticos, e alterações no uso do solo. Estas pressões afetam processos ecológicos fundamentais, comprometem a provisão de serviços dos ecossistemas e influenciam a emergência, persistência e disseminação de riscos ambientais e sanitários, incluindo doenças de plantas, surtos de origem ambiental, zoonoses e outros eventos epidémicos associados à intensificação das interações entre ecossistemas, sistemas produtivos e populações humanas.
Neste enquadramento, os conceitos de microbioma e holobioma assumem um papel central. O estudo dos microbiomas permite compreender a diversidade e a funcionalidade das comunidades microbianas nos diferentes compartimentos ambientais, enquanto o conceito de holobioma reconhece plantas, animais e seres humanos como unidades ecológicas integradas, resultantes da interação entre hospedeiros, microrganismos e ambiente. Esta perspetiva é essencial para interpretar fenómenos como a disseminação da resistência antimicrobiana ou os efeitos ecológicos da poluição.
Os sistemas aquáticos assumem um papel relevante enquanto coletores de contaminantes provenientes de múltiplas fontes, atuando como vias de transporte e transformação de poluentes químicos e biológicos ao longo de bacias hidrográficas e nas zonas costeiras. A acumulação destes contaminantes compromete a qualidade da água e a integridade dos ecossistemas. Constituem vias relevantes de exposição humana e animal, através do consumo de água e organismos aquáticos, da irrigação e do contacto recreativo, podendo gerar impactos toxicológicos e infecciosos.
Nos ambientes marinhos, esta dinâmica prolonga-se à escala global, onde a bioacumulação ao longo das cadeias alimentares amplifica riscos para a saúde pública, a sanidade animal e a estabilidade dos ecossistemas.
A saúde do solo destaca-se igualmente como elemento‑chave, funcionando como interface entre saúde ambiental, saúde das plantas e sistemas alimentares. Solos biologicamente ativos regulam ciclos biogeoquímicos, influenciam a disponibilidade de nutrientes e moldam os microbiomas associados às plantas. A saúde das plantas emerge, assim, como expressão direta do funcionamento e resiliência dos ecossistemas – naturais, agrícolas ou urbanos. A ocorrência de doenças, a instabilidade produtiva ou a fragmentação de populações refletem alterações nos processos ecológicos e nas interações entre plantas, microrganismos e ambiente.
No CFE, esta dimensão é reforçada pela atividade do Laboratório de Fitossanidade (FITOLAB), Laboratório Oficial acreditado pelo IPAC, que articula diagnóstico fitossanitário, investigação científica e apoio à gestão sustentável da sanidade vegetal. A saúde das plantas é entendida como componente central da saúde ambiental e elo estruturante entre ecossistemas, sistemas alimentares, saúde animal e saúde humana.
A saúde animal é abordada numa perspetiva ecológica, reconhecendo a partilha de ambientes, microrganismos e vias de exposição entre espécies domésticas, silvestres e humanas. A circulação de agentes patogénicos e de determinantes de resistência a antibióticos evidencia a continuidade entre ecossistemas, sistemas produtivos e cadeias alimentares, bem como o papel da poluição, incluindo efluentes e microplásticos, na seleção e disseminação destes riscos.
No que respeita à saúde humana, o CFE adota uma perspetiva que reconhece o ambiente não apenas como fonte de risco, mas também como recurso ativo para a promoção da saúde e do bem‑estar. A degradação dos ecossistemas aumenta a exposição a contaminantes químicos e biológicos, enquanto a resistência antimicrobiana e a poluição por microplásticos colocam desafios emergentes à saúde pública. Em contraste, ecossistemas funcionais, biodiversos e acessíveis criam oportunidades para prevenir a doença e melhorar a saúde física e mental. Neste contexto, o CFE valoriza estratégias baseadas na exposição à natureza que articulam conhecimento ecológico, saúde pública e práticas sociais.
Paralelamente, o CFE desenvolve metodologias inovadoras baseadas na compreensão e modelação dos microbiomas como ferramentas para avaliar e mitigar riscos ambientais e sanitários. Esta abordagem permite identificar mecanismos ecológicos que influenciam a saúde ao longo do continuum ambiente–ser humano, abrangendo múltiplas vias de exposição, incluindo água, solo, ar, alimentos e contacto direto com ambientes naturais, e sustenta o desenvolvimento de soluções baseadas na natureza orientadas para a prevenção, o restauro ecológico e o reforço da resiliência dos sistemas socioecológicos.
Assim, no CFE, One Health e Planetary Health configuram‑se como referenciais orientadores de uma ciência integrada que coloca a saúde ambiental no centro, articulando ecossistemas, sistemas aquáticos, solos, plantas, animais, sistemas alimentares e pessoas, em coerência com a sua missão: Ciência para as Pessoas e o Planeta.
